Retrospectiva: – Não chore Rodrigão, não chore!

Imagem: Reprodução

Por Guigo Ribeiro, para Desacato.info.

Maia estava calmo. Se preparava para o discurso e repetia internamente num esforço
desesperado o “não chore!”, “não chore, Rodrigão!”, “seja firme para mostrar firmeza
ao povo, Rodrigão”. Repetia com mais força visto que o momento do microfone
propagar sua voz se aproximava. Ajeitou a gravata, acenou para os mais íntimos e,
enfim, abriram o microfone. Maia chorou:

– Queridos… queridos desse Brasil arrasado. É momento de que a alegria nos invade
visto o enorme avanço alcançado. Lutei muito para conter as lágrimas, mas o esforço
de um país melhor me derrama ao chão, num corpo cansado da árdua batalha contra o
mal. Conseguimos, com grande esforço e dinheiro, dar o primeiro passo na reforma.
Choro agora para que as gerações futuras possam sorrir.

Alguns presentes também se entregaram às lágrimas. Alguns para que Maia os visse
chorando, outros porque lutaram muito pra arrebentar o povo. E o melhor: conseguiram.

– estar nessa posição é como receber um Grammy, um prêmio importante. Me sinto um
popstar. Certa vez eu disse pro Herói: Ainda serei tão amado como você. Ainda serei
também respeitado como você. Eu consegui. Conseguimos. – se entregando de vez ao
choro e sendo abraçado por alguns presentes.

Limpou a cara amassada, respirou e prosseguiu:

– essa luta ao longo dos anos nos fez vencedores. Quando começamos o golpe, quando
mesmo com toda podridão do Temer, mesmo com os vazamentos do Jucá… isso lá trás e
com boas chances de que todos soubessem o que realmente tínhamos como intenção…
nós conseguimos. Gostaria de agradecer a cada um que mesmo com toda clareza do

esquema podre vigente, seguem nos apoiando. Agradecer também aqueles que não
conseguem ou não querem acreditar nos claros áudios que dão conta do esquema do
Herói. Obrigado por fecharem os olhos. Por fim, reitero o compromisso com os
empresários brasileiros e aviso: vai ficar cada vez melhor. Um abraço. – ovacionado.

Saindo dali, Maia caminhou alguns metros e, por um acaso, encontrou o Herói, este
escrevendo uma carta.

– Virou poeta agora, Herói?
– Me cuidando, Maia! Me cuidando! Assim hacker não pega.

Maia riu o riso de quem acha o outro bobo. E concluiu:

– Aquieta, Herói. Tá em casa! É só a continuidade do grande acordo nacional.

Guigo Ribeiro é ator, músico e escritor, autor do livro “O Dia e o Dia Que o Mundo Acabou”, disponível em Edfross.

A opinião do/a autor/a não necessariamente representa a opinião de Desacato.info.

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