Retrospectiva: Brasil: O quintal da geopolítica norte-americana. Por José Álvaro Cardoso

Foto: Noelle Otto / Pexels

Na segunda-feira, o colunista do Portal Desacato que hoje faz aniversário, José Álvaro Cardoso, escreveu em sua coluna d’A Outra Reflexão sobre como fazer a análise de conjuntura compreendendo que o Brasil se parece com um quintal da geopolítica norte-americana. Entenda alguns elementos que podem contribuir com a nossa reflexão no dia a dia tão conturbado que estamos vivendo.

Por José Álvaro de Lima Cardoso.

O Brasil dos dias atuais é um imenso laboratório para análise de conjuntura. Ao mesmo tempo em que o processo brasileiro se apresenta como extremamente perigoso (porque não sabemos como tudo isso pode acabar) e doloroso (porque destroem direitos em escala industrial e saqueiam o país à luz do dia), é também uma oportunidade riquíssima de aprendizado em geral, sobre funcionamento da sociedade. Faço algumas observações sobre o assunto a seguir: 

1. O processo de golpe que se desenrola no Brasil não é bolinho. Está vinculado diretamente à geopolítica norte-americana, país que tem objetivos e interesses estratégicos na América Latina. O golpe é latino-americano, uma tentativa do império de recuperar terreno político e econômico, perdido para governos populares que chegaram a partir da primeira década dos anos 2000. Se não compreendermos essa dimensão internacional do processo, não será possível entender, com o mínimo de profundidade, o que acontece no Brasil hoje; 

2. Para os trabalhadores é importante entender, pelo menos em termos gerais, o que está acontecendo, quais são os atores no jogo, quais são seus interesses e objetivos. Quem não compreende, nem que seja primariamente essas questões, corre o risco de apoiar estratégias alheias e, mais do que isso, contrárias aos seus interesses. Estamos assistindo esse fenômeno no Brasil, neste momento. Uma parcela de trabalhadores, depois de pouco mais de uma década de discretas (mas importantes) melhorias, que apoiou o impeachment e o processo golpista, está vendo agora seus salários, empregos e direitos, serem devorados em velocidade estonteante; 

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3. O que o imperialismo como um todo, mas principalmente o norte-americano, está colocando em prática na América Latina é uma operação extremamente ousada e surpreendente para quem (como muitos de nós), desconhece a história mundial, especialmente a do último século. De fato, o golpe imperialista é operação extremamente arriscada, não há dúvidas. Pode provocar, por exemplo, um salto inusitado no nível de consciência dos jovens e da classe trabalhadora na Região. O problema é que, do ponto de vista da burguesia imperialista, a realidade impõe a tomada de decisões arriscadas. O capitalismo sofre a maior crise da história, iniciado em 2007/2008, sem uma solução, nem ao menos provisória, até o momento; 

4. A crise exige das forças imperialistas ousadia e disposição para correr riscos. Por isso guindaram ao poder no Brasil um fascista, que está longe de ser o da preferência deles. Mas em política, não se faz o que se quer, mas o que é preciso (mesmo um dos maiores poderes da Terra). É como um paciente, que tem uma doença extremamente grave e que coloca a sua vida em risco. Se quiser viver, terá que enfrentar todo tipo de tratamento, por mais agressivo e perigoso, que seja;

5. A análise de conjuntura correta pressupõe reflexão e leitura, não existe atalhos. Não basta apenas estar em dia com a leitura dos blogs, jornais e portais na internet para entender o que está ocorrendo. No volume de informações que é veiculado todos os dias é necessário identificar os ingredientes, os atores, os interesses em jogo;

6. A ausência de profundidade nos estudos conduz à improvisação. A pessoa tem uma ideia, que pensa que é “brilhante”, conforme o vento está soprando, e que irá significar uma “saída” para a situação. Isso, em geral, não existe. Uma boa análise de conjuntura requer pesquisa permanente, constante, e uma compreensão de como os milhares de fatos, aparentemente isolados e desconectados, se entrelaçam. 

7. Análise de conjuntura eficaz é aquela que tem objetivos definidos, ou seja, quando não é realizada por mero diletantismo ou para passar o tempo. A análise eficaz é aquela que é realizada para captar com a maior precisão possível a realidade. O diagnóstico tem que ser o mais preciso possível, porque o objetivo é interferir na realidade para mudá-la em determinado sentido. Analista de conjuntura não acredita em “destino”, acredita em tendências;

8. As classes sociais, os grupos de pessoas, empresas, países, enfim, os diferentes grupos sociais estão em relação uns com os outros. Essas relações podem ser de confronto, de coexistência, de cooperação e estão sempre revelando uma relação de força, de domínio, igualdade ou de subordinação. Avaliar essa correlação de forças é decisivo se se quer tirar consequências práticas da análise de conjuntura. Conhecer a correlação de forças é fundamental, por exemplo, para estabelecer alianças táticas. Avaliar equivocadamente a correlação de forças significa escolher táticas e estratégias igualmente erradas e, portanto, pode significar a derrota. Por exemplo, no Brasil, neste momento os trabalhadores estão numa correlação de forças extremamente desfavorável e, por isso, sofremos uma das maiores derrotas da história, com o golpe de Estado;

9. Análise de conjuntura adequada pressupõe independência e firmeza de pensamento. Os que se preocupam com o que os outros podem pensar, ou se preocupam em passar uma imagem de “bem pensante”, para o chamado status quo, não conseguem fazer uma análise adequada; 

10. É fundamental o conhecimento de história do país em que se está analisando a conjuntura. A história costuma repetir padrões, ainda que com novas determinações e elementos. Conhecimento de história, portanto, ajuda muito o entendimento dos momentos conjunturais. Mesmo porquê, a história é a sistematização dos acontecimentos conjunturais do passado. Por exemplo, quem, por conhecer a história, conhece as características dos vários golpes de estado que o Brasil já sofreu, está muito melhor preparado para entender o golpe que está em curso no país;

11. É importante sempre embasar uma análise com dados e indicadores. Mas o mais importante é a interpretação destes dados pelo analista. Os dados não falam por si mesmos, eles precisam ser interpretados pelo ator social. Os mesmos dados podem, inclusive, ter leituras antagônicas, a depender de quem as faz;

12. Neste contexto, esqueça a neutralidade. Toda análise visa algum objetivo determinado, não existe análise “pura”, na qual o ator social não defenda algum interesse. Por exemplo, as análises dos economistas do setor financeiro são realizadas a partir do ponto de vista do setor (aliás um dos protagonistas do golpe no Brasil). Os dados que não interessam, podem até ser analisados, mas ficam em segredo, por interesse do ator que está realizando a análise; 

13. Por isso também, deve-se sempre procurar ver o que está sendo dito por cada ator social, mas principalmente o que os atores não dizem, ou seja, a análise das entrelinhas. Isto é ainda mais verdadeiro num país onde as empresas da grande imprensa têm pouco compromisso com informação fidedigna aos leitores. Existem órgãos de imprensa no Brasil que são quase “partidos políticos”, ou seja, publicam a informação conforme seus interesses políticos concretos e não a partir de um desejo geral de informar o leitor; 

14. Em condições normais, a análise deve se pautar por informações bastante sólidas, que permitam estabelecer algumas bases consistentes para a análise. Apesar da análise de conjuntura ser dinâmica e fluída (como é a própria conjuntura), suas vigas mestras não devem ser abaladas por qualquer acontecimento. Análise de conjuntura não deve ser biruta de aeroporto. Em regra, análises que mudam em função de qualquer lufada de vento, não servem para nada. Análises inconsistentes, que mudam ao sabor de cada fato novo, servem somente para semear a confusão e embrulhar a cabeça dos trabalhadores. 

15. Nós brasileiros estamos num beco sem saída? A análise deve ser fria e realista, por mais que isso seja desagradável. Deve-se observar a situação “como ela é” e não como achamos que “deveria ser”. Como já escreveu um renomado analista de conjuntura, o correto é “fazer uma análise concreta, da situação concreta”. A análise não deve ser um fim em si mesmo, ela é elaborada para mudar a realidade. Apesar de todos os desafios da situação há muitas indicações de que não estamos em um beco sem saída. A crise é muito profunda, vai piorar e o potencial de virada na mobilização popular é muito forte, conforme mostram muitos indicadores. 

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José Álvaro Cardoso é economista e supervisor técnico do DIEESE em Santa Catarina.

A opinião do autor/a não necessariamente representa a opinião de Desacato.info.

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