Retrospectiva: A “cooperação sionista” na América Latina

 

Julgamento popular sobre o papel de Israel na militarização da América Latina: Capítulo México

Por Ana Rosa Moreno, de Cidade do México, para Desacato.info.

Tradução: Elissandro Santana, para Desacato.info

Recentemente, o embaixador israelense Jonathan Peled, em uma entrevista para o jornal El Sol de México, declarou: “Temos oferecido à nova administração nossa cooperação e contribuição em todas as questões estratégicas que têm a ver com o governo, com segurança pública. Infelizmente, temos mais experiência do que qualquer outra nação na luta contra o terrorismo”. E basicamente disso se trata a estratégia de mercado militar de Israel no mundo, vender armas, tecnologia em segurança cibernética e treinamento testado em campo, isto é, contra o povo palestino e depois vender todo esse catálogo de mortes em outros países.

E no México não é a exceção. Israel, por várias décadas, forneceu às autoridades mexicanas equipamentos militares, conselhos e treinamento para as instituições de segurança pública e o exército, bem como malwares de espionagem. A aquisição destes tem estado sob a justificativa de segurança e combate às drogas, mas a realidade é diferente, uma vez que tem servido para reprimir os movimentos sociais no México e espionar ativistas e jornalistas.

Nesse mês de abril, no Zócalo da Cidade do México, foi realizado um julgamento popular sobre o papel da militarização israelense na América Latina – Capítulo México, onde ficou evidente, se denunciou e se julgou os laços entre o México e Israel e o preço que tanto o povo palestino quanto os movimentos sociais no México pagam por essa cooperação militar.

Neste julgamento, mais de 90 organizações, movimentos e coletivos do México, Guatemala, Honduras, Brasil e Palestina acusaram o Estado de Israel, suas instituições e empresas e instituições mexicanas de planejarem, dirigirem, de implantarem e lucrarem, além de outras formas de cumplicidade nas violações de direitos humanos do povo palestino e mexicano.

O julgamento popular envolveu a participação de testemunhas e especialistas sobre o efeito das armas, tecnologias e métodos israelenses desde o México à Palestina, Israel, Brasil, Guatemala, Honduras e Estados Unidos.

O ato deu a oportunidade de apresentar um relatório “O papel de Israel na militarização no México”, onde dão provas dessas acusações, além de cada uma das compras, treinamento militar / policial, violações de direitos humanos, violação do direito internacional e o quadro jurídico em que as queixas se baseiam. Vale ressaltar que o relatório é o julgamento popular em si mesmo.

Compras, acordos de cooperação entre o México, o Estado de Israel e sua indústria militar datam de 1972, com a aquisição de cinco aviões de carga e o transporte de tropas da Israel Aircraft Industries (IAI) e nove aeronaves de este tipo, 60 morteiros M-65 e um número indeterminado de lotes da submetralhadora de assalto conhecida como Uzi.

Em janeiro de 1994, houve um primeiro aumento na cooperação de segurança entre México e Israel. Isso ocorreu quando o movimento Zapatista, Exército de Libertação Nacional (EZLN), ergueu-se, o governo do estado de Chiapas para reprimir essa insurgência, obtém acordos de cooperação em termos de treinamento e assessoria militar. É com o ex-presidente Felipe Calderón e sua guerra contra o crime organizado e com Enrique Peña Nieto, que se destacou como o governo com mais repressão aos movimentos sociais, quando houve uma maior aproximação entre os governos mexicanos e o Ministério da Defesa de Israel juntos com empresas militares privadas e estatais de Israel.

Segundo o relatório, de 1972 até hoje, os governos mexicanos adquiriram armas e equipamentos para Israel por 630 milhões de 220 bilhões e 500 milhões de dólares. Os números não são exatos, pois o relatório destaca a falta de transparência nos relatórios sobre as compras de equipamentos e armamentos militares, muitos deles são compras irregulares e secretas.

O relatório também demonstra que os paradigmas de segurança de Israel, como a repressão, o povo como um inimigo, as fronteiras supervisionadas e o governo de espionagem estão presentes no treinamento da polícia e das forças armadas, bem como dos altos funcionários das instituições de segurança. O relatório menciona vários exemplos caracterizados pelo uso indevido da violência contra a população.

Como mencionado, o primeiro caso do qual se tem registro em Chiapas, em 1994, o Exército mexicano usou aeronaves Arava para trabalhos de espionagem. A relação com Israel foi crucial para o governo mexicano esmagar a dissidência nacional, principalmente o movimento Zapatista de Libertação Nacional no Sul do México.

No segundo relatório sobre o caso do desaparecimento dos normalistas de Ayotzinapa, Guerrero, há um registro de que na noite em que os estudantes desapareceram, havia um carro blindado israelense (Sandcat) fabricado pela empresa Plasan, os mesmos carros blindados que também são fabricados no México. Foi em 2015, quando a empresa israelense Plasan e a mexicana IBN Indústrias Militares assinaram parceria para fabricar em Aguascalientes, exclusivamente no México, dois tipos de veículos blindados cuja produção foi bem sucedida: a Sandcat Storner e a Guarder.

No caso Pegasus, as empresas israelenses de tecnologia cibernética também ajudaram nos esforços do governo mexicano para sufocar a dissensão nacional, fornecendo ao estado poderosas ferramentas de vigilância contra jornalistas e ativistas. A empresa NSO Group não vendeu diretamente o malware para as autoridades mexicanas, pois a compra foi através da empresa mexicana Balam Segurança Privada, S.A. de C.V. Houve mais de 72 ataques contra 16 ativistas que compõem cinco organizações de direitos humanos e jornalistas relacionados à investigação da Casa Branca do presidente mexicano e o caso de Ayotzinapa.

O relatório também destaca a situação nas fronteiras, Elbit Systems e Israeli Aerospace Industries promovem a tecnologia desenvolvida (drones, câmeras, torres de vigia) originalmente para uso no muro de Israel e para contratos com o muro dos Estados Unidos contra Migrantes mexicanos e centro-americanos. O Golan Group, uma empresa de consultoria israelense formada por antigos oficiais das forças especiais do Exército israelense, deu cursos intensivos de oito dias aos oficiais de imigração dos EUA para que aprendessem táticas de combate contra imigrantes que abordam a cerca da fronteira e o parque industrial Global Advantage, especializado no desenvolvimento de tecnologia militar para a segurança das fronteiras. Entre 10 e 20 empresas israelenses que querem se juntar ao programa Global Advantage no Arizona e em Sonora. As empresas podem implementar, avaliar e testar seus produtos “in loco”, isto é, pessoas reais que cruzam a fronteira ilegalmente.

No final do dia, depois de apresentar cada caso, ouvindo as testemunhas, especialistas e trazendo o relatório para a mesa, foi possível verificar a cumplicidade direto-indireta do Estado de Israel com o México na violação dos direitos humanos do povo palestino e da Cidade mexicana.

Este julgamento popular é precedido pela Audiência Pública denominada “Lutas Unidas contra a Militarização, da América Latina à Palestina”, realizada no Rio de Janeiro em julho de 2018, no marco do Julho Negro.

Existem, atualmente, vários escritórios de empresas militares israelenses no México, e muitos deles estão buscando ou renovando contratos com a atual administração do governo de Andrés Manuel López Obrador, empresas que têm uma ideologia em que o povo é o inimigo e não importam os meios para suprimi-lo ou ignorar os direitos humanos.

Ana Rosa Moreno é licenciada em Relações Internacionais e mora em Puebla, México.

 

 

 

A opinião do autor/a não necessariamente representa a opinião de Desacato.info.

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