Ressentimento e política – os eleitores (1)

Jornalismo e humor inteligente

Por Désceo Machado, para Desacato.info.

Plim plim plim, bang bang, cabum!

Se aquela sensação de que fomos desprezados ainda persiste, estamos ressentidos. Desprezados, preteridos, sem ter o que merecemos, minguados. Em tempos de competição e velocidade, cada dia é dia de uma batalha, e cada dia podemos estar diante de uma derrota. Não falo aqui daquelas perdas em batalhas ideais, digo do real e intenso dia a dia, das disputas comuns, de uma oportunidade perdida, uma proposta recusada, um passo em falso na profissão, uma desaprovação, uma violência sofrida, ser mal tratado ou mesmo não ser valorizado por quem esperamos que nos considere. Esse ressentimento, uma sensação de apequenamento, costuma se acomodar dentro de nós na forma de um discurso ressentido: quando narramos nossas virtudes e nosso fracasso, sob os vapores da raiva.

O ressentimento é força motriz de nossas relações, um sentimento que todos precisamos lidar. Na família, no trabalho, na escola, nos grupos religiosos e também na política, o ressentimento atua como fator de repulsão, de afastamento, desentendimento e silêncio. E quando entendemos a política institucional por associações em partidos e grupos de interesse, escolhas em eleições periódicas e escolhas propriamente governamentais, o ressentimento ganha papel fundamental na compreensão da dinâmica dessas relações.

Nelson Rodrigues falava da necessidade de se escrever uma “História da Burrice Brasileira” para confrontar o clássico “História da Inteligência Brasileira” do Wilson Martins, e dizia que a história da burrice teria mais a dizer sobre nós do que a história da inteligência. Do mesmo modo, sem o brilho dos chistes do Nelson, podemos dizer que na política o ressentimento tem tanta força quanto as razões lógicas, o sentimento organizado em discurso ressentido tem tanto poder quanto, por exemplo, os discursos organizados e desenhados, oferecido de bandeja ao eleitor nos tradicionais esquemas de manipulação da grande imprensa.

Na dinâmica das relações políticas, há eleitores ressentidos, militantes ressentidos, que mudam de lado, representantes eleitos ressentidos ou, ainda, outros que meramente se apropriam de um discurso ressentido para justificar as suas posições. O voto de birra ou o voto de vingança é comum entre eleitores; o militante que sofreu um revés em uma campanha dos próprios correligionários, não raramente se vinga mudando de lado; os laços estabelecidos no ambiente de uma assembleia não podem dispensar a força de ressentimento entre seus membros; e ainda há interesses, inclusive oportunistas, que não raro andam camuflados com um discurso ressentido.

As eleições para os eleitores não são como os campeonatos de futebol. Nenhum torcedor em fim de campeonato deixa de torcer pelo seu time, mesmo tendo sido ele desclassificado. O eleitor, por sua vez, a cada eleição possui uma história pessoal, um testemunho, e não de vez em quando um ressentimento, que o fará seguir outro time. Quem bate esquece! Para quem apanha o ressentimento é um modo de sobrevivência, não exclusivo, uma voz para a qual devemos dar ouvidos: fala muito alto o ressentimento e a frustração dos excluídos.

Por mais que a grande imprensa ofereça pacotes de discurso e sentimento, por mais que ofereça discursos ressentidos para o público, o gênero já é outro. O ressentimento genuíno e cotidiano cada ser humano forma com experiências!

Bons dias, boas tardes ou boas noites!

 

Imagem:ConvivirPress

Désceo Machado é repórter em Florianópolis.

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