Responsabilidade com a cidade: agora, a UFSC

Publicado em: 05/05/2014 às 09:30
Responsabilidade com a cidade: agora, a UFSC

imagem25254_1Por Carmen Susana F. Tornquist.

Nesta terça-feira, dia 6 de maio, o conselho máximo da UFSC enfrentará um importante desafio: definir como será resolvida a polêmica- alimentada pelas mídias locais, diuturnamente- do trânsito do bairro Pantanal. A situação poderia ter sido “resolvida” apressadamente há mais de um mês atrás, exatamente no dia 25 de março – o mesmo dia em que a mesma instituição foi alvo de uma invasão policial – mas o referido Conselho tomou a sábia decisão de fazer uma consulta mais ampla, envolvendo a comunidade do bairro mais imediatamente envolvido e a população de um modo geral, já que a obra envolve a bacia do Itacorubi, os bairros vizinhos e a cidade como um todo. Esta consulta foi feita na semana passada, em uma audiência publica, a qual se espera ser ouvida e considerada seriamente pelos conselheiros da instituição.

Tal situação remete a um reflexão muito importante: a responsabilidade social que as Universidades devem ter para com as cidades nas quais estão instaladas. A UFSC não apenas “acolhe” milhares de estudantes (porém, d e forma muito precária), já que a moradia estudantil e o transporte publico são muito precários), mas também movimenta um mercado significativo na economia local e regional, que envolve bens e serviços de várias naturezas e dimensões. A população que circula no seu principal campus ( da Trindade) é maior do que a de muitas cidades do estado, e esta população produz impactos de todas as ordens e naturezas no entorno imediato- entre os quais, o bairro Pantanal- e na cidade como um todo.

Um destes impactos está relacionado ao tráfego de carros- principal modo de transporte utilizado, atualmente, em nosso país. E é este o ponto nevrálgico do problema: deve a UFSC ceder parte de seu terreno para a Prefeitura de Florianópolis duplicar uma rua? Deve manter esta terra em seu domínio, destinando-a a obras próprias, ou até mesmo mantendo-as “vazias” de construção e oferecendo espaços verdes, apenas aparentemente “vazios”, a uma cidade que carece destes espaços? Deve contribuir com o projeto de duplicação, se optar pela concessão? Deve contribuir com outras soluções para o gravíssimo problema da mobilidade na região, que esta alterando profundamente nosso modo de vida, nossos usos do tempo, nossa qualidade de vida, nosso direito de ir e vir?

O principal argumento – utilizado pelas mídias, Prefeitura e setores da universidade – é o de que a contribuição da UFSC para a cidade seria a doação (concessão) de uma parte de suas terras, facilitando assim os problemas de trafego. A comunidade do Pantanal- mas também outros setores da cidade, organizados em movimentos sociais alegam que ao fazê-lo – a vida do bairro será fortemente prejudicada, inviabilizado o pequeno comércio, as relações vicinais, a ida à escola, às Igrejas, ao Posto de saúde, ao Conselho Comunitario, ao sacolão, ou seja, a própria existência concreta de uma communitas, viabilizada, ainda hoje, nos bairros. Será também prejudicado o direito à paisagem (ainda tão linda!) bem com o usufruto de terras comunais, tradição ainda presente no Pantanal. Moradores, moradoras e representantes de movimentos sociais da cidade também argumentam que a duplicação da avenida, ao invés de melhorar o problema do fluxo rodoviário, provocará uma ampliação, a médio prazo, do problema, já que duplicar significa incentivar- e, eu diria, sacramentar e naturalizar – o transporte individual, como se fosse este algo na ordem da natureza, quando repousa no âmbito das relações sociais e da ação (e da escolha) política. Apóiam-se em estudos da própria UFSC, em especial do GEMURB (Grupo de estudos sobre mobilidade urbana) e de outros centros importantes de produção de conhecimento, que demonstram que as melhores soluções para problemas de trânsito urbano repousam, ao contrário do que professa o velho urbanismo rodoviarista, na ampliação das linhas de ônibus e transportes coletivos, na abertura de verdadeiras ciclovias, seguras e convidativas aos que hoje arriscam suas vidas ao usar as bicicletas para se locomover; na ampliação das calçadas, com garantia de acessibilidade, e no desestímulo deliberado ao transporte individual – o “nó górdio” de maior envergadura e que requer coragem para ser enfrentado. Várias cidades e países já fizeram estes experimentos – que aos ouvidos de uma elite colonial e colonizada ocupante de cargos de poder em nossa região – são tidos como utópicos e delirantes– são, hoje, na verdade, considerados vanguardistas e comprovados por engenheiros, urbanistas e geógrafos, sem falar nos cientistas dedicados a estudar as consequências mais indiretas de meios de mobilidade e de convivialidade urbana mais coletivos e – como colocam alguns – “menos rápidos”. Hoje, são muitos os pesquisadores da área da saúde que comprovam a importância de uma vida com maior qualidade e seus benefícios para a saúde – física e mental – isto sem falar nos já antigos estudiosos da vida social que apontam para os encantos de uma cidade democrática, pautada no convívio intersubjetivo, “face a face” entre os cidadãos (as chamadas relações primárias) que, podem e devem conviver e se articular com as dimensões secundárias do convívio, bem expressas pelo anonimato, pela racionalidade e pela “objetividade” das relações, necessárias para uma sociedade republicana, onde não haja privilégios, nepotismos e “dois pesos e duas medidas”. Aliás, é curioso perceber que os empreendedores que hoje insistem em fazer da cidade de Florianópolis uma cidade de mercado, esquecem – pateticamente – que muitos dos que aqui aportam – seja temporária, seja permanentemente – o fazem justamente em função da singularidade da cidade, expressas, de certa forma, na noção contemporânea de “qualidade de vida”!

A própria universidade tem em seus quadros pesquisadores que estudam a questão há muitos anos, de forma interdisciplinar, (já que o transito transcende a questão “técnica”, sendo um objeto científico e multifacetado) e em escuta de longa data profunda com os movimentos sociais da região. Já realizou seminários sobre o tema, contribuiu com o Plano diretor da cidade quando este ainda prometia ser participativo, em um núcleo temático especifico sobre mobilidade urbana, cujos resultados apontam na direção contrária as soluções imediatistas, como a expressa pelo dito “projeto” da prefeitura – aliás, o grande ausente da Audiência Publica, organizada pela Reitoria da UFSC, na última semana. A solenidade acabou gerando tensão e ansiedade, sobretudo em função da ausência dos projetos e de um protocolo de intenções com várias lacunas e equívocos, estabelecido entre a PMF e a UFSC . Mesmo entre incertezas e insegurança espera-se que o Conselho Universitário faça uma escolha em defesa da cidade de direitos, representada pela comunidade do Pantanal e demais movimentos presentes, que expressam este projeto.

A opção mais fácil, desde o ponto de vista do senso comum, a ser apreciada pelo CUn, é aquela do mainstream, cientificamente atrasado, mas afinado com os setores econômicos dominantes. A outra, mais corajosa é aquela que rompe com este senso comum, e percebe para além das aparências, tudo que está envolvido neste “fragmento” do real , o qual contém um projeto de cidade. Esta escolha é a única que permite, ao meu ver, o desenvolvimento – ainda que local, mas com conseqüências mais amplas – de uma cidade de direitos, de uma verdadeira “polis” – algo que a escala da cidade permite, a história de lutas da população potencializa e a Universidade tem condições de viabilizar.

É preciso ter claro, também, o papel que a mídia local tem ocupado, no cenário local (e que inclui a própria Universidade, considerando os acontecimentos mais recentes): um papel bastante questionável, como pode ser observado pelas formas como constrói suas narrativas acerca dos movimentos sociais da cidade, ora invisibilizados, ora criminalizados, mesmo que seus pleitos sejam basicamente direitos garantidos pela Constituição Federal.

Oxalá a UFSC faça a escolha pela cidade de direitos. Com isto não apenas fará jus a sua função social mais fundamental – contribuir com o desenvolvimento social a luz do conhecimento científico – reafirmando sua autonomia, recentemente confrontada, e sua responsabilidade social, já que , ainda que também atravessada pelos conflitos e contradições da sociedade- da qual é parte- ainda é uma das instituições que pode contribuir com maestria na superação destes conflitos, face à especificidade e à singularidade que encerra.

Espera-se também que a Prefeitura duplique, de imediato, não as ruas, mas sim, os horários de todos os ônibus que servem a região, que crie de imediato novas linhas (como a que foi solicitada por professores e estudantes da UDESC, anos atrás e que até hoje não foram atendidas), que transforme as tímidas ciclofaixas existentes em ciclovias, e que implante, de imediato, a Tarifa Zero, cuja viabilidade tem sido demonstrada por vários estudos, transformando o atual privilégio da circulação pelos espaços da cidade em direitos de todos e de todas. Estas medidas seguramente diminuirão significativamente o problema alegado para a concessão das terras – o engarrafamento. Também diminuirão os gastos públicos com obras de grande monta, como pontes, viadutos, duplicações, policiamento e a violência no trânsito, que coloca há mais de uma década a capital catarinense entre uma das mais violentas do país no que tange as mortes por causas externas (em especial, acidentes de trânsito). Todas as pesquisas realizadas sobre mobilidade no país atestam o desejo da maioria da população em utilizar os outros modais de transporte – desde que os mesmos sejam acessíveis, eficientes e permanentes. Apesar dos riscos, da precariedade e dos custos, muitos cidadãos já estão fazendo a sua parte. É chegada, agora, a vez das autoridades.

Foto: Google Maps

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