Respeito é para quem tem

Essa é uma das frases que mais gosto e quando eu a vi escrita no chão da Praça das Areias no Campeche, em uma atividade feita pela comunidade, fiquei emocionada. Confesso que não sei qual pessoa escreveu, que admiro ela sem mesmo a conhecer, pois a frase e o anonimato realçam o fato de a praça ser um espaço conquistado pela comunidade… não pelos políticos.

Por Leidemar Reis.

Imagem tomada de Tudo Sobre Floripa

As Areias é um bairro que nasceu de uma ocupação em 1986, da luta para que o direito à moradia fosse garantido. Eu morei lá dos 7 aos 22 anos, mas nunca saí de lá! A memória afetiva deste lugar é minha raiz por vários motivos e um deles se refere à frase que está no chão da nossa praça. Lá, se respeito não funcionar, quem entra em ação é a bala, faca ou porrada… Sim, isso não se vê no asfalto, condomínios ou nos jardins da cidade, por isso é comum que o pessoal que não viveu na periferia não entenda o que significa, estão acostumados à dissimulação e a resolver as coisas com processos judiciais. O respeito, numa favela ou morro, significa muito, pois na periferia você só pode contar com os vizinhos, que na maioria das vezes se tornam o parente mais próximo, aquele que vai te socorrer, parceiros pra tudo na vida.

Isso significava que todos da comunidade estão de olhos bem abertos quando veem uma criança na rua, quando sabem que a mãe estava trabalhando. Isso é ser família. Lembro de um episódio onde a minha filha e meu sobrinho, num momento de distração minha, saíram de casa e foram ao mercado. Dois minutos é o suficiente pra muitas coisas acontecerem e aconteceu: os dois de mãos dadas foram até o mercadinho perto de casa que ficava uns cento e cinquenta metros da casa, sozinhos! Ela com 4 e ele com 3 anos, porque queriam … balões! Pensem no meu desespero ao ver que eles não estavam em casa. Por morar muito perto da praia, saí como uma louca na direção do mar pra ver se os via e nada… Minha mãe e irmãs pegaram uma rua cada uma em busca dos pequenos. Perguntávamos se alguém havia visto os dois e ouvimos o seguinte no caminho que eles seguiram:

-Ah, a Tuanny e o Glauber passaram por aqui de mãozinhas dadas, eu perguntei onde estavam indo e eles responderam que estavam indo no mercado. Assim responderam para mais de quatro vizinhos. Sim, estavam de olho nas crianças. Então foram encontrados saindo do mercado, os dois sorrindo, cada um com um balão cheio na mão. A dona do mercado, Dona Rejane, foi generosa, pois não tinham um centavo no bolso. Neste momento, confirmei a suspeita que tinha quando era criança de que estava sempre sendo vigiada. E veio à memória de nossa família o mesmo cuidado com as outras crianças da comunidade. Eu sorri de alívio e alegria ao perceber isso. Mais uma faceta bela da periferia. E não é só isso, quando falta uma xícara de arroz e o salário acabou, quem te socorre é o vizinho, mas claro que pra essa interação acontecer, primeiro deve haver um sentimento: Respeito. E respeito é pra quem tem… sem dúvidas! Quem não respeita ninguém, está longe de saber o que é ser ajudado por quem não o conhece. Mas isso acontece e sou exemplo vivo disso, tendo conhecido desde muito cedo o sentido da reciprocidade.

O que as comunidades tem de bom também pode rapidamente se transformar em algo ruim se faltar o respeitar. Crescendo ali, vi algumas coisas não tão boas de lembrar, mas que o respeito é pra quem tem, ninguém que mora nesses lugares esquece. Por isso cagueta, X9, estuprador e ladrão na comunidade não se cria, mesmo! Porque até pra lidar com quem a pessoa não gosta, tem de haver respeito e não importa se teu vizinho é um aviãozinho, patrão ou garota de programa. Sem respeito o caminho é só um: a vala/morte. Mas sabe quem socorre a comunidade quando alguém está sem remédio ou comida? O traficante do bairro. Não é o Estado, que na maioria das vezes entra lá só para entregar o carnê do IPTU ou a polícia, para tentar mostrar quem é quem manda, com porrada, tiro e bomba, mais nada.

Hoje quando eu vejo a classe média apavorada com a provável volta da ditadura militar, é inevitável pensar que na periferia ela sempre esteve presente. Só espero que desta vez, na hora de cobrar a garantia de Direitos, as pessoas das periferias sejam incluídas, também. Porque é o pobre que enche as ruas em manifestações por direitos, não é a classe média, muito menos os ricos.

Quando eu observo a ilha de Floripa e vejo quantas comunidades periféricas existem, sempre me vem uma pergunta: são tão poucos em relação às grandes metrópoles e por que não resolvem os problemas com moradia, saúde, educação e lazer? E sempre me vem a resposta: o político vai prometer o que, se os direitos forem prioridades? Mas meu amigo e minha amiga, se você pensa que o pessoal não tá ciente que político e promessas não cumpridas são sinônimos… é porque tu precisas conhecer melhor as comunidades desta ilha.

Afinal: Respeito é pra quem tem!

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