Réquiem para Marielle

Por Rita Coitinho, para Desacato.info.

“[Ela] não nascera para morrer assim, para morrer antes de sua própria morte. Nascera para a vida e suas dádivas mais ardentes, num mundo de poesia e música, configurado na face da mulher, na face do amigo e na face do povo” (adaptado da obra de Vinícius de Moraes, Réquiem a Federico Garcia Lorca).

Ela não estava dentre nós para repetir o óbvio. Não estava na política para “se arrumar”, como há muitos por aí. Ela não deixava a vida passar, sem sentido, a escorrer-lhe pelos dedos… não, ela viveu para organizar sua gente, para manter acesa a centelha da vida. Viver é lutar. E viveu: lutou intensamente.

Aqueles que a quiseram calar dão-nos um recado: não vivam. Silenciem. Não questionem, não falem alto, não olhem para o lado. Se todos seguirem calados fica tudo bem, vejam só: eliminamos essa mulher e seus 46 mil eleitores com alguns tiros. Somos capazes de silenciar cada um de vocês.

Porém, Marielle, sua voz não silencia. Ela está aqui entre nós. Ela percorreu o país, de ponta a ponta, naquela triste quarta-feira. Aquele dia, que ficará cinzento para sempre em nossas memórias, foi também um dia de luta. Nos abraços comovidos, no choro de revolta e dor, reencontramos cada companheira, cada companheiro e nossos olhares, silenciosos e consternados disseram: não terá sido em vão. Quiseram te calar, mas subitamente tua voz virou a voz da multidão. Foi-se teu corpo, quedou-se teu amor pela vida, pela humanidade, pela justiça. Ficou “o amor, o grande amor que era [nela] sentimento de permanência e sensação de eternidade” (Vinícius).

Rita CoitinhoRita Coitinho é socióloga, doutoranda em geografia e membro do Conselho Consultivo do Cebrapaz.

Foto: Captura de tela JTT

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