Rainha Maria. Maria, a Rainha

Por Guigo Ribeiro, para Desacato.info.

Minas Gerais – 1937

Maria seria rainha de Minas Gerais, mas o curso da história quis substituir-lhe a coroa por um lenço. Em sua chegada ao mundo, no instante em que a luz do hospital incomodou seus olhos que acabaram de nascer, sua mãe, rainha atual, deixou o trono para, talvez, reinar no céu.

Vai lá, Maria. Pega o pano e passa nesse chão que você pisa. Passa o pano nesse chão que vive. Sua irmã pede. Sua irmã manda. Tem que fazer porque vai ser profissão. Aproveita essa infância que não é tão infância quando se tem obrigações, prazos, tempo de adulto. Seja rápida e aguarda sua vez à mesa. No fim, você come. Agora não. Agora aguarda e deixa roncar porque logo para. Deixa roncar e não reclama porque te meto a mão na cara e você sossega de falatório.

Maria anda na terra. Maria brinca com a terra. Maria vive o dia e do dia entende a importância da noite. Cedo, percebe o sono. Percebe na inteligência de quem sabe ler o mundo, sabe ler as coisas. Inteligência de quem sente o cheiro das plantas pra fazer chá. Inteligência do ponto exato do silêncio. Inteligência que não se mede pela presença breve na escola. 4 anos de frente pra lousa. Somente 4 anos de frente pra lousa.

Maria virou moça. Maria saiu de Minas Gerais e conheceu outras cidades. Maria andou de avião. Foi acompanhando seu patrão, tão bom, que a levou junto para ver o Rio de Janeiro de cima. Aprecia a vista. Vai ser memória, Maria. A vista vai ser memória.

Maria tem uma criança que também tem o nome de Maria. Maria tem uma criança e trabalha na casa de família. Se distrai com bobagem. Se distrai com o tempo. Maria quebra a prateleira inteira de cristal do patrão. Uma fortuna! Uma fortuna, sabe? Mas tudo bem. As crianças da casa pegam na mão de Maria. Os pais trabalham muito e enriquecem muito. Não conseguem muito ser uma família. As crianças pegam na mão e assumem a fatalidade. Assumem o prejuízo por Maria. Assume o prejuízo pela mãe. Mãe Maria.

Maria tem um menino. Um tempão depois de ter a menina. Maria ainda se distrai com bobagem. Maria trabalha duro limpando casas de “rainhas” e “reis”. Maria limpa o chão, faz comida e troca os lençóis de camas que seriam suas. Maria, você não era pra ser rainha?

Maria tem um neto. O primeiro neto é festa em Maria. O primeiro neto de Maria muda Maria e a faz tirar da caixa o amor que estava tão bem guardado que, dizem, nunca antes foi visto. Tanto que o julgavam perdido. Quando este neto nasceu, seu choro entregou a chave dessa caixa. Deu-se a alegria. A alegria de Maria. Alegria que virou mais um, 4 anos depois, quando veio outro neto. Menorzinho, com manchinha e jeito de moleque danado. Maria, que era pra ser rainha, consegue jogar um pouco de amor pro mundo. Maria consegue, enfim, dedicar amor aos meninos. Eita, Maria. Eita que a vida mudou um cadinho, não?

Rápido! Rápido como só o tempo consegue ser. Assim veio o terceiro. O terceiro, eleito caçula, eleito mimado. Maria… oh Maria. São 3, são? Maria, os netos estão na rua? Maria, os netos estão fazendo bagunça, estão? Fala pra eles que brigar é feio. Fala pra eles que Deus gosta que sejam amigos e que sendo amigos, alegrarão Jesus. Fala, Maria. Muito menino junto da nisso! Não se entendem nem a pau! Pelo amor de Deus. Mas é traquinagem, sabe? Maria… e a panela? Vai queimar, não? Queima não! Queima não que é muita boca pra comer. Termina e chama pra servir, chama. Chama quem tem fome. Maria. Você não foi rainha, mas se meteu a matar a fome, sabia? E quem mata a fome é o quê? E quem dá de comer? Porque fome, pra Maria, é coisa séria. Esperar morreu o boi! Põe logo e come. Só desculpa que hoje não tá muito bom. Não tá muito bom porque Maria não tá muito bem. Assim ela diz. Vai saber de onde tira isso. Vai saber. Maria põe na mesa o que fez. E pega (estava escondido) os biscoitos dos bisnetos.

Maria é mãe. Maria é vó. Maria foi filha de uma mãe que não a viu. Maria é bisavó. Maria veio de Minas Gerais. Lá nasceu em 1937.

Conheço Maria fazem 28 anos. Vim dela também. Conheço as histórias que conta. As que não conta, noto na forma de falar, agir. Nas mãos, pés. No andar. No dia 30 de outubro completei 28 anos. Ao acordar, fui recebido em seu sorriso. E, mais uma vez, ela falou algo que vou levar pra vida:

– Você é um presente que Jesus me deu!

Ainda atordoado pelo sono, fiquei pensando:

– Eu?

Guigo Ribeiro é ator, músico e escritor, autor do livro “O Dia e o Dia Que o Mundo Acabou”, disponível em Clube de Autores.
A opinião do/a autor/a não necessariamente representa a opinião de Desacato.info.

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