Racismo e o álbum de Carolina de Jesus

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A escritora durante a noite de autógrafos do livro “Quarto de Despejo”, em São Paulo, 1960.

Por Joice Berth.

Essa coisa da Carolina Maria de Jesus ter gravado um disco com composições próprias e ser um fato quase que totalmente desconhecido, só reforça a verdade racista de que TUDO, absolutamente tudo que uma mulher negra faz, especialmente no Brasil brasileiro é negligenciado, omitido, dado como desimportante.

A própria obra literária da Carolina só voltou as gôndolas de grandes livrarias, porque o feminismo negro resgatou. A gente nunca ouve falar, exceto dentro da bolha de militância e pesquisadores negros, sobre grandes artistas e intelectuais negras.

Quando criticamos o aporte midiático que recebe um Antonio Prata, ou um Duvivier por exemplo, é justamente nesse sentido, o de atentar para o fato de que só há espaço para pessoas, sobretudo homens brancos. E é um círculo vicioso real, porque quando cobramos os meios que publicam e divulgam eles dizem que não publicam e não divulgam porque ninguém consome (lembra do curador da FLIP esse ano?) e quem não consome se justifica dizendo que não consumiu porque não sabia que existia, não vê nos lugares de venda.

As feministas brancas por exemplo, amam a Frida Kahlo, e não porque ela foi uma artista excepcional, mas porque linkam a obra dela, de maneira pouco provável, com as teorias feministas, ao passo que Lélia Gonzales foi uma das maiores feministas negras da história e poucas, pouquíssimas se debruçam sobre o legado que ela nos deixou.

Todo lugar onde eu vou, sempre tem uma pessoa branca que diz, do alto da sua ignorância racista que ~quase não tem~pessoas negras nas artes, na literatura, na ciência, etc. Tem sim, e muitas. O que não tem é vontade da pessoa branca de consultar outras expressões, outras palavras, outras narrativas, outras percepções, senão a que a própria pessoa branca produz.

Tem negras e negros fazendo cinema, teatro, HQ, e mais um monte de coisa. Eu não consigo respeitar muito os saberes de pessoas que centram seu conhecimento em um só polo de informações. É incompleto, é falho, é racista, é segregacionista, é excludente e não importa o status que tenha alcançado no mundo, isso não muda em nada.

Se você não conhece pessoas negras que são ou que foram grandes em seu pensamento, em sua atuação dentro das diversas ramificações do intelecto e é branco(a), saiba que esse desconhecimento tem nome. E é o mesmo que fez com que a grande Carolina de Jesus gravasse e esse se tornasse esquecido nos compêndios da história.

Pai Google tá aí, consultem sem moderação e abram a mente para outras realidades.

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