Quero pintar universos…

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Por Luciane Recieri, para Desacato.info.

Ontem à noite, enquanto lavava roupa, ouvia um programa que falava do Manoel de Barros. Ele dizia que não sabia fazer nada. Sabia sim, abrir a porta, apontar o lápis, puxar a válvula, mas de resto era só poeta.
Eu sei arrumar bem uma gaveta, tirar a mancha das coisas, tingir roupa ruça com Tupy, guardar São Paulo dentro de Poá, como diz minha mãe, sei pintar parede e portão. Bastante coisa, não? E lembro de um senhor que pôs placa no portão: “faso caza de rico e caza de pobre; pizina e foça. Amolo enchadon e “foisse”.
É… De resto, nem sou poeta, sou essa nulidade que não guarda nada na cabeça, salvo o dia que alguém nasceu… Que o fulano morreu.
É só me dizer uma vez. Sei o nome da vó do colega da cozinheira do bar em que comi um PF uma vez lá em 78. Da única vez que andei de táxi que era vermelho o Corcel 72.
Escrevo na cabeça as coisas simples. Isso. Com letra de mão, redondinha do jeito que é de verdade a minha letra. Quando escrevo pros outros, é como se puxasse o arame do caderno. Não quero que me entendam.
Mas eu já mudei de assunto: coleciono toda sorte de cacareco que não vai me ajudar a ganhar dinheiro pra ter uma beca bacana e um carro, porque gosto de prestar atenção em gente que diz amenidades. Acho tudo bonito o que os doutores dizem, mas o que me prende é a fieira de poesia da boca do povaréu.
Não sei me explicar, era pra saber, mas acho que agora não dá mais tempo.
Quando sair da gaiola, nunca mais boto os olhos nos livros só de palavras. Vou voltar a pintar e escrever todos os inversos.

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