Quem “somos” todos São Miguel do Oeste?

Por Claudia Weinman, para Desacato. info. 

É como se fosse uma criança de uns dois anos. Vamos imaginar que tivesse sido adotada por uma família. Essa criança tem uma história, mas essa história é expropriada dela. A memória do que ela viveu antes de conhecer essa outra realidade, a cultura, o contexto social em que ela participou, vivenciou, é como se tudo isso não existisse. Assim vem sendo contada a história de São Miguel do Oeste ao longo dos anos. Dessa maneira a cristalização histórica sobre a formação do território do Oeste Catarinense formou-se.

Essa criança não tem mais na memória a história de sua origem. É como se toda construção da família partisse de determinada data, de quando os carros chegaram na sua rua, de quando o mercado abriu para a comunidade, de quando o facão do seu avô abriu a estrada coberta de árvores e outras plantas. Como se a primeira colheita da família fosse à única, divina, a mais importante. A criança perde a sua identidade quando lhe falta a narrativa a partir do seu nascimento e de toda gestação que a conduziu para a vida atual.

Até aí a participação dos atores sociais que existiram antes dessa nova família é totalmente ignorada. Então vão surgindo outros elementos que vão cristalizando ainda mais essa ideia de que a vida da criança começou a partir dos seus dois anos de idade. Mas quem é afinal essa criança? Que família é essa?

Já vamos chegar nesse ponto.  Hoje o Jornal dos/as trabalhadores/as que foi ao ar às 10h no Portal Desacato, mostrou uma entrevista com o professor de história Adriano Larentes da Silva. Ele escreveu um livro denominado: “Fazendo Cidade” – Memória e urbanização no Extremo-oeste Catarinense. Nele, o historiador conta sobre a chegada das companhias colonizadoras, fala da “nova família”, essa, que adotou a criança e contou para ela apenas uma parte de sua história. Que triste, não?

A fragmentação da história em contextos desconectos da realidade vivida por quem antes habitava a região Oeste e Extremo-oeste Catarinense tem refletido também, além da perda da identidade da criança, em páginas tabuladas de jornais. O midiativismo, a rapidez, a utilização constante de releases interferem significativamente na transmissão da mensagem, não sendo possível passar para o público leitor, uma visão dos diferentes.

Há na maioria das vezes, uma repetição de discursos que tendem a cristalizar cada vez mais a imagem dos marginalizados pela imprensa e o sistema capitalista. Essa mesma cristalização que, movida pela indústria cultural, tende a fazer com que diversos grupos de  pessoas não questionem a sociedade, o sistema, a forma de trabalho, as desigualdades sociais. Mas reflete na competição entre o melhor e o pior, sem refletir sobre o porquê existe essa naturalização das coisas.

O culto à personalidade, o endeusamento a pátria, o ufanismo, a história é narrada na mídia tradicional conforme seus objetivos e mediante interesse de quem a coordena. Não há um estudo aprofundado na maioria dos casos, e a cada dia surgem novos heróis. Marcondes Filho (2009, p. 117) já dizia que “[…] a história é feita por homens como Napoleão, Bismarck ou Hittler, como se eles não fossem componentes de uma classe e não agissem de acordo com os objetivos dela”.

Vemos uma criança triste. Ela pode não se considerar assim, mas é. Porque a ela foi ensinado que a sua história é a melhor, de quem trabalhou e venceu na vida. Que a culpa da pobreza de outras crianças vem da falta de vontade e capacidade das demais famílias.

Hoje, dia 15 de fevereiro é feriado em São Miguel do Oeste/SC. O município completa 64 anos de emancipação político-administrativa. Tem crianças que não conhecem a sua história. Hoje a logomarca oficial da cidade é: “Somos todos São Miguel do Oeste”, mas, será que “somos”? “Quem somos”?

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Claudia Weinman é jornalista, diretora regional da Cooperativa Comunicacional Sul no Extremo Oeste de Santa Catarina. Militante do coletivo da Pastoral da Juventude do Meio Popular (PJMP) e Pastoral da Juventude Rural (PJR).

 

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