Quem é amigo de Florianópolis?

Esgoto na praia do Campeche. Foto: Elaine Tavares

Por Míriam Santini de Abreu, para Desacato.info.

2018 mal começou e o prefeito Gean Loureiro (PMDB) botou as manguinhas de fora para decretar a criação e eleição do Conselho da Cidade. Na mídia da Capital, o gesto apareceu como o de um rigoroso atendimento ao Estatuto da Cidade. Mas os movimentos organizados não caem nas lorotas do prefeito. Ano passado, apesar de ter se comprometido diante do Ministério Público Federal e da Justiça Federal a rever o Plano Diretor, ele, ao mesmo tempo, moveu ação no Superior Tribunal de Justiça que anulou de vez o processo e manteve a validade da entortada lei aprovada em 2013. Agora, às pressas, em 12 de janeiro, poucos dias antes de viajar a Paris, Gean instituiu o tal Conselho, que será apenas consultivo.

O decreto apareceu três meses depois do lançamento do Movimento Floripa Sustentável, mais uma daquelas iniciativas gestadas, de tempos em tempos, pelo empresariado da Capital, com os aplausos de sempre dos colunistas do jornalismo dito imparcial. Desta vez, o lema do grupo, que se diz “apartidário”, é “Vamos pensar Floripa de um jeito novo?”. O jeito “novo” não se sabe qual é. Mas nas falas proferidas na sede da Federação do Comércio, local que abrigou os representantes de mais de 30 entidades, entre elas a FIESC (Federação das Indústrias) e o Sinduscon (patrões da construção civil), o discurso que apareceu foi velho. A cidade, disseram, é dos florianopolitanos, “não de uma minoria radical”.

Com isso, voltamos ao final dos anos 1980 e início dos 90. Naquele período, os movimentos organizados já questionavam o modelo de crescimento de Florianópolis, que hoje se revela em problemas graves de saneamento e mobilidade. O empresariado começou a se irritar com as críticas e as ações bem-sucedidas contra projetos de alto impacto decididos sem qualquer preocupação ambiental. Com o apoio da mídia, a elite da capital lançou, em 1991, a campanha “Amigos de Florianópolis”. Nela, separavam-se os “Do Contra” e os “A Favor” de Florianópolis. Aos primeiros foi colada a alcunha de “ecochatos”, que aparece até hoje quando os supostos “A Favor” usam os amigos colunistas para expressar desejos contrariados.

A monografia de Chris Granato de Macedo, intitulada “Amigos de Florianópolis? Os “Do Contra” e os “A Favor” na perspectiva de Paulo da Costa Ramos”, apresentada em 2007 ao curso de História da UDESC, revela detalhes desta campanha. O citado colunista, da família Ramos, ligada à política, ao turismo e a grandes empreendimentos imobiliários, usava seu espaço no extinto jornal O Estado para fustigar os “do contra”.

Entre os alvos estavam os então vereadores Vitor Sérgio Schmidt, Clair Castilhos e Jalila El Achkar. Aquela 11ª legislatura da Capital, de 1989 a 1992, em um período pós-redemocratização e pós-Constituinte, ficou marcada por sua combativa bancada de esquerda (além dos três citados, a bancada tinha João Guizoni, Ricardo Baratieri e Vilson Rosalino da Silveira).

Nos anos 90, como agora, o empresariado aparece como o gestor do projeto “certo” para a cidade. A diferença é a incorporação, de lá para cá, do discurso do desenvolvimento sustentável, que propõe crescimento econômico com preservação ambiental e justiça social, fórmula apodrecida sob o capitalismo, mas sempre bonita para convencer os incautos. Por isso o olhar vigilante do movimento social, comunitário e ambiental sobre o tal Conselho da Cidade. Porque sobre ele voam as aves de rapina que pregam o novo, mas sob a mesa alisam o velho projeto de tirar o maior e o mais rápido lucro possível da gasta terra da Ilha da Magia.

 

 

Míriam Santini de Abreu é jornalista em Florianópolis.

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