Quatro mil anos para restaurar a unidade da Mata Atlântica

floresta

Por Efraim Rodrigues.*

Quando você ouve falar em Mata Atlântica, pensa logo na proximidade com o Oceano, mas nem imagina os efeitos que este Oceano pode ter 500 km para o interior, em Londrina, ou até mais longe.

A umidade quente que vem do litoral influencia a Floresta Atlântica daqui em sua diversidade e tamanho. A coisa não é simples como a raiz das árvores penetrando as entranhas da terra roxa. As raízes liberam ácidos orgânicos, abrem fendas, a raiz faz o solo e o solo faz a floresta, eles são um só regados pelo Oceano.

Estes dois vêm se relacionando há centenas de milhões de anos, mas recentemente resolvemos separá-los. Pouparei você dos motivos, mas os resultados são conhecidos. De um lado precisamos ficar forçando a vegetação a ser o que não é, e isto é tão complicado que exige um treinamento agronômico de cinco anos só para aprender os rudimentos. Do outro lado fica um solo solto, erosível, ou duro como um tijolo.

As soluções são todas complicadas e demandam trabalho e paciência. É possível produzir comida mantendo algumas das funções da floresta, assim como é também possível “consertar” esta floresta, ao menos em parte, ao menos alguns pedaços.

Há um trabalho de pesquisa da minha amiga Marcia Marques, de Curitiba, que estimou quanto tempo se leva para restaurar a unidade da Mata Atlântica.

Preste bem atenção aqui, por que restaurar a Floresta é bem mais que plantar umas arvorezinhas. Restaurar a Mata Atlântica é também trazer de volta também aquelas espécies de árvores dispersas por animais. Para estimar o tempo que isto pode levar, a Marcia estudou as restaurações existentes, e pelo andar da carruagem nos primeiros anos, ela estimou que uns 300 anos devem ser suficientes.

Restaurar é também trazer espécies muito raras, algumas que nem nome ainda têm. Com que velocidade espécies com tempo de geração tão longo se movem ? Quanto tempo leva para uma árvore crescer, dispersar suas sementes e a alguma distância as sementes crescerem, dispersarem de novo e assim terminarem por reocupar uma área ?

Quatro mil anos. Pense bem antes de fazer bobagem na Mata Atlântica.

*Efraim Rodrigues, Ph.D. ([email protected]), Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor pela Universidade de Harvard, Professor Associado de Recursos Naturais da Universidade Estadual de Londrina, consultor do programa FODEPAL da FAO-ONU, autor dos livros Biologia da Conservação e Histórias Impublicáveis sobre trabalhos acadêmicos e seus autores. Também ajuda escolas do Vale do Paraíba-SP, Brasília-DF, Curitiba e Londrina-PR a transformar lixo de cozinha em adubo orgânico e a coletar água da chuva. É professor visitante da UFPR, PUC-PR, UNEB – Paulo Afonso e Duke – EUA. http://ambienteporinteiro-efraim.blogspot.com/

Fonte: EcoDebate

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