Quando a mulher se torna consciente do abuso sofrido?

‘Ela (a vítima) vem com uma contaminação social e cultural, e fica achando que pode não ter sido estupro. É muito comum’, diz médico

Foto: Jaca Varella.

Por Giovanna Galvani.

O debate encontra casos extremamente comuns, mas pouco abordados na prática em relação aos relatos de violência: a vítima de estupro tem imediata ciência de que foi abusada?

É preciso entender primeiramente o que, na lei, é entendido como um estupro. De acordo com o artigo 213 do Código Penal, estupro consiste em “constranger alguém, mediante violência ou grave ameaça, a ter conjunção carnal ou a praticar ou permitir que com ele se pratique outro ato libidinoso”.

O primeiro atendimento consiste na prevenção e acolhimento. No Hospital Pérola Byington, referência em saúde da mulher no Brasil e que recebe a maior parte dos casos de violência de São Paulo, o contato inicial foca na prevenção à doenças sexualmente transmissíveis (DSTs) e à gravidez indesejada. Já nos primeiros momentos, no entanto, é possível perceber a alta culpabilização da mulher em relação ao ocorrido.

“Ela vem com uma contaminação social e cultural, e fica achando que pode não ter sido estupro. É muito comum”, diz Gustavo Maximiliano, ginecologista e sexólogo do hospital.

“Muitas pessoas também ficam em dúvida em relação à lei, que mudou há 10 anos. Antes, se não houvesse penetração vaginal, não era considerado estupro. Muitas mulheres não sabem”, acrescenta o médico.

O cenário dos casos de estupro no Brasil – que já carrega a cifra alarmante de uma mulher estuprada a cada minuto, segundo o Atlas da Violência de 2018 – pode ser ainda pior. De acordo com o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), somente cerca de 10% dos crimes são notificados. Para Gustavo, que atua no hospital há 10 anos, não há tempo estrito para uma mulher descobrir que foi abusada.

“Tem mulheres que não têm consciência do que aconteceu”

“Falando a partir da prática clínica, é notório que a maioria dos casos é com pessoas conhecidas. A gente ficou com a ideia de que o estupro é o que acontece com o desconhecido, na penúria, mas é com alguém próximo”, acrescenta Gustavo.

A mistificação do assunto dificulta que a mulher fale sobre o caso, e o próprio preparo dos médicos também é posto em xeque por ele. “O clínico geral ou até mesmo o ginecologista costumam passar longe das questões da sexualidade.”

Na Sexologia, setor que trata de disfunções sexuais – como dificuldades em sentir prazer e vaginismo – do Pérola Byington, Gustavo diz que é comum que mulheres procurem muito mais tarde, até anos depois, por ajuda. Algumas só se conscientizam a partir da psicoterapia, fornecida como parte do tratamento.

“A gente faz a pergunta direta, de forma natural, sem julgamento e sem fazer gestos. Tentamos perceber como ela reage a esta pergunta. Se fica desconfortável e tensa, quem trabalha com essa área já percebe que ali tem algo”, explica o médico.

Se a culpa e os julgamentos morais podem atrasar em anos uma denúncia, o médico comenta que é o vínculo e a confiança em falar que faz com que muitas mulheres entendam sobre o processo traumático do qual foram vítimas. “Ela gosta do seu atendimento e vai ficando mais a vontade para falar sobre”, comenta. Mesmo assim, Gustavo destaca a importância de um acompanhamento contínuo, que crie a confiança necessária para o compartilhamento de uma dúvida, que pode ser um trauma – uma realidade infelizmente não acessível para muitas mulheres brasileiras.

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