Qual a função do anticomunismo no mundo sem comunismo?

Capa de livro de 1947. Catechetical Guild

Por Vitor Souza.

Após a Revolução russa e particularmente depois da Segunda Guerra Mundial, com a guerra fria, o anticomunismo foi uma poderosa força no mundo ocidental.

O macarthismo nos EUA instituiu enorme perseguição a artistas, intelectuais, estudantes, sindicalistas, etc. acusados de serem comunistas.

Comumente, nem eram comunistas. Eram só pessoas criticando as desigualdades sociais, fazendo alguma crítica ao governo, etc.

O comunismo, de fato, foi uma força poderosa em todo o mundo ao longo do século XX. Foi a ideologia principal dos movimentos anti-imperialistas da América Latina e da África na segunda metade do século XX e das esquerdas de maneira geral,  de todo o mundo.

A Revolução chinesa em 1949 na Ásia e a cubana (em menor proporção) em 1959 impulsionaram o comunismo em suas regiões.

No entanto, a URSS acaba em 1991, há 28 anos, portanto. A China, desde o fim dos anos 1970 vai aderindo ao capitalismo e tem hoje uma economia mista. Parte capitalista, parte estatal. Mesmo caminho adotado pelo Vietnam.

Cuba, com o fim da URSS e da ajuda econômica destes, desde os anos 1990, perde o poder de “exportar a revolução”, ainda que só simbolicamente.

O comunismo a partir dos anos 1990, se enfraquece vertiginosamente. A maioria dos partidos comunistas do mundo, muda de nome, para partidos “socialistas”, social-democratas” e vão adotando políticas cada vez mais parecidas com os partidos de direita.

No caso brasileiro, parte do PCB (Partido Comunista Brasileiro), muda de nome para PPS (Partido Popular Socialista), que nunca foi socialista, e recentemente, muda o nome para Cidadania, um partido muito mais próximo da direita que da esquerda.  Outra parte do PCB, menor quantitativamente, que manteve a sigla, não tem um deputado sequer (federal ou estadual).

Então, passados 28 anos do fim da URSS e fim do “perigo comunista”, por que do anticomunismo que vivemos hoje na era Bolsonaro?

O anticomunismo foi ressuscitado pela extrema-direita, que ascende no mundo nos últimos dez anos e se difunde principalmente pela internet, via redes sociais.

Essa extrema-direita ou até a “nova direita” chama de comunista tudo aquilo que considera ruim. Qualquer governo ditatorial é chamado de comunista. Qualquer intervenção do Estado na economia é considerado comunismo. Por isso que alguns sem noção consideram que o Brasil sempre foi comunista.

Imagine se esse pessoal soubesse que a intervenção do Estado na economia nos países nórdicos e em boa parte da Europa ocidental é muito maior que no Brasil? Se soubessem que a carga tributária nesses países chega a ultrapassar os 45% do PIB, enquanto a nossa é 32%?

É chamado de comunista qualquer política estatal para beneficiar os pobres. O bolsa-família, política de renda mínima, defendidas por autores liberais proeminentes como Milton Friedman, são chamados de comunismo. Politicas de educação e saúde públicas também são chamados de comunismo. Por isso, a lista de comunistas só aumenta no Brasil para essas pessoas (rs).

Então, qual seria a função do anticomunismo num contexto histórico sem comunismo?

Sua função é impedir qualquer crítica, qualquer limitação ao liberalismo econômico. É impedir qualquer crítica ao sistema capitalista, mesmo o mais cruel e desenfreado. Sua função é oferecer terreno livre para a expansão do capitalismo em áreas antes com presença estatal.

Qualquer proposta para taxar grandes fortunas, ou apenas cobrar mais impostos do ricos e reduzir os dos pobres, qualquer proposta para defender a educação e saúde públicas, estão sujeitas a serem chamadas de comunismo, e associadas às piores ações dos países comunistas, amplamente difundidas entre nós pela grande mídia.

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Por isso alguns deles têm falado em “comunismo do PT”, devido a uma maior intervenção do Estado na economia e/ou expansão de alguns serviços públicos, promovidos na “era PT”. Para eles, essas são características do comunismo.

Por isso também alguns deles dizem que nazismo é de esquerda, que é igual ao comunismo, etc. pois no nazismo o Estado era fortemente intervencionista na economia.

Então, o anticomunismo existe porque cumpre uma função muito útil à direita como um todo, minar qualquer crítica às suas ações de privatizar todos os serviços públicos, reduzir impostos para os ricos, reduzir salários, aumentar a desigualdade social, etc.

Ao desqualificar as críticas ao capitalismo desenfreado, deixa o terreno livre para a atuação dos capitalistas a lá século XIX. Viveríamos o paraíso das relações de trabalho livres do século XIX antes dos malditos comunistas estragarem tudo e obrigarem Estado e burguesia a conceder direitos trabalhistas e sociais.

Fonte: https://g1.globo.com/economia/noticia/2018/12/03/carga-tributaria-sobe-para-324-do-pib-em-2017-a-maior-em-4-anos.ghtml com dados da Receita Federal de 2017, consulta em 04/08/2019.

A opinião do autor/a não necessariamente representa a opinião de Desacato.info.

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