Protestos pelo Preconceito contra Brasileiras em Portugal

Publicado em: 16/11/2011 às 13:13
Protestos pelo Preconceito contra Brasileiras em Portugal

Vermelho – Um programa de animação exibido na estatal portuguesa Rádio e Televisão de Portugal (RTP2), em rede nacional, traz uma prostituta que fala com sotaque brasileiro entre os seus personagens principais.

O “Café Central”, transmitido todos os dias desde setembro, tem sido alvo de protestos em Portugal e fortalecido as teses de que o preconceito contra as mulheres brasileiras no país tem sido recorrente em virtude, sobretudo, do viés político por parte da mídia.

Um grupo de entidades e brasileiras residentes em Portugal criou na internet um “Manifesto em repúdio ao preconceito contra as mulheres brasileiras em Portugal”, em protesto contra “Café Central” e a estigmatização das brasileiras nos meios de comunicação de Portugal.

O programa, exibido no início da madrugada e retransmitido pelo serviço internacional do canal para vários países, narra a história de seis personagens que discutem os temas da atualidade (do próprio dia), às voltas de um balcão de um café. Em uma apresentação no mês passado, a RTP pôs como destaque do programa em sua página na internet uma conversa entre um dos personagens da atração, Silva, dono do “Café Central”, e a prostituta Gina: “Ahh, Gina, Gina… sempre que te vejo a bambolear essas libidinosas, sonho que estou no meio do Estádio do Dragão [Futebol Clube do Porto], com os Super-Dragões [torcida organizada do clube] a entoarem cânticos de paixão enquanto eu e tu fintamos o destino e marcamos golos nas redes da malícia”.

A situação ultrapassou o universo virtual: o grupo de repúdio já se manifestou publicamente nas ruas de Lisboa e tenta avançar com outro tipo de ações. Segundo Mariana Selister Gomes, criadora do grupo, a personagem Gina é mais um exemplo de estigmatização da mulher brasileira na comunicação social portuguesa. “Esse estigma é construído em torno de um imaginário de hipersexualidade das brasileiras e disponibilidade de seus corpos aos portugueses”. Para Marina, esse estigma, por si só, já é uma violência simbólica e prejudica a vida das brasileiras, “pois se transforma em assédio sexual, assédio moral, chegando mesmo a casos graves de violência física e sexual”.

Uma análise contundente do grupo é destinada à construção da personagem, retratada “como prostituta e maníaca sexual, alvo dos personagens masculinos”. “Trata-se de um desrespeito às mulheres brasileiras, que pode ser considerado racismo, pois inferioriza, essencializa e estigmatiza essas mulheres por supostas características fenotípicas, comportamentais e culturais comuns.”

“Situação faz parte da cultura europeia”

Não se trata de um fenômeno novo, critica Mariana, já que “fazem parte da história europeia genocídio indígena, escravidão africana, genocídio judeu, o que se altera é o alvo e, atualmente, são os imigrantes e, em Portugal, principalmente as brasileiras. Enquanto não houver um esforço coletivo, políticas de educação antirracista e de ações afirmativas, o quadro vai se repetir”.

Residente em Lisboa, onde cursa seu doutorado, Mariana defende que as autoridades portuguesas respeitem a Convenção para a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação Contra as Mulheres, da qual tanto Portugal quanto o Brasil são signatários. Sem isso, argumenta Mariana, viola-se o Memorando de Entendimento entre Brasil e Portugal para a Promoção da Igualdade de Gênero. No documento, consta que esses países estão “resolvidos a conjugar esforços para avançar na implementação das medidas necessárias para a eliminação da discriminação contra a mulher em ambos os países”.

Beatriz Padilla, professora do Centro do Investigações e Estudos de Sociologia do Instituto Universitário de Lisboa, estuda a comunidade brasileira em Portugal há anos e pondera que, reiteradas vezes, já alertou sobre a existência de uma grande discriminação não só contra os brasileiros, mas contra os diferentes em geral. “Com elas [as brasileiras] a situação é insustentável, já que o estereótipo que existe é reforçado pelos meios de comunicação. Nunca faltam bundas de brasileiras em revistas, capas de livros etc. A maior parte das pessoas, incluso os acadêmicos – e até certo ponto os próprios brasileiros – justificam e culpabilizam a mulher brasileira.”

Para Beatriz, o estereótipo existe e tem gerado experiências demasiadamente negativas. “O dia a dia de ser brasileira em Portugal é um peso, sempre há desconfiança de todos pela seriedade e integridade dela.” A pesquisadora da Universidade de Coimbra Isabel Ferin tem uma visão diferente sobre a influência tão direta da mídia na discriminação, porém concorda que o programa da RTP2 é todo construído sobre estereótipos. Ressalva apenas que o fato de colar a prostituição a uma mulher brasileira só reforça um preconceito pré-existente. “Como se trata de uma estrangeira, acaba por funcionar também como estigma.”

A inclusão de Gina é extemporânea, observa Isabel. “Neste momento, a autoestima portuguesa está tão baixa, que o fato de ainda ter brasileiros que querem trabalhar e ficar em Portugal anima a população. Não vejo sinais na mídia de discriminação. Não percebo, por isso, como surgiu essa personagem, que me parece fora de prazo.”

Para o presidente da Casa do Brasil em Lisboa, Carlos Henrique Vianna, é preciso protestar contra esse tipo de situação. Não por acaso, a casa assinou o manifesto. “É inegável que há muitas trabalhadoras do sexo brasileiras em Portugal e na Europa, com consequências na imagem da imigrante em geral. Para nós, o importante é dignificar permanentemente a imagem dos imigrantes combatendo o preconceito.”

O grupo que criou o manifesto na internet estava, na altura do fechamento desta edição, com mais de 1.100 assinaturas e contava com o apoio de mais de 20 organizações sociais tanto portuguesas quanto brasileiras, além do suporte de sete conselheiros do Conselho de Representantes dos Brasileiros no Exterior. “Estamos fazendo a entrega do manifesto para autoridades de Portugal e do Brasil, como uma denúncia coletiva. O próximo passo é cobrar das autoridades que tomem atitudes contra o preconceito”, disse Mariana.

Fonte: Valor Econômico

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