Argentina: Prisão midiática

Por Débora Mabaires, de Buenos Aires, para Desacato.info.

O governo de Mauricio Macri começou fazem 50 dias e já deixou 55.00 trabalhadores desempregados.

O cancelamento de programas de atenção a cidadania nas distintas áreas do governo deixou a vinte cinco mil pessoas sem trabalho da noite para o dia; mas também, a centenas de milhares sem direitos humanos, tais como o acesso a justiça e a saúde.

A paralisação de obras públicas em diferentes províncias deixou a trinta mil desempregados no cerne da constituição.

A todas essas perdas de trabalhos diretos, temos que somar também os que se produzirão de maneira secundária entre os empregados do comércio, do transporte e dos trabalhadores domésticos.

A pressão judicial sobre os dirigentes sociais e sindicais está se fazendo sentir. A prisão ilegal da dirigente Milagro Sala na província de Jujuy não é um caso isolado. A 2.000 km de distância, na província de Rio Negro, foi preso o sindicalista Rodolfo Aguiar enquanto se manifestava pelos trabalhadores despedidos da Universidade Nacional de Comahue.

Em Mendoza, logo após uma manifestação pedindo a liberdade de Milagro Sala, o Fiscal de Guaymallén, Daniel Carniello, disse que tinha identificado os dirigentes e estava pensando que delito lhes imputaria para detê-los. Nas últimas horas, lhes imputou “atrapalhar a normal circulação veicular”, algo discutível, já que a marcha se realizou deixando livre uma das vias da pista.

Desde a chegada ao governo de Mauricio Macri, os argentinos estão em liberdade condicional. O cerceamento policial à cidadania se vê diariamente nas ruas quando, sem motivo algum, os fardados pedem documentos e revistam aos homens jovens.

Se impôs aos policiais que não deveriam levar identificação a vista, o mesmo ocorre com as patrulhas nas regiões mais afastadas, chegando inclusive a retirarem as documentações dos veículos.

A criminalização do protesto social é um feito e, agora, avançam sobre as garantias constitucionais individuais.

Na localidade de Cerrillos, Salta, foram despedidos vários trabalhadores sem aviso prévio. Se realizou uma manifestação e onze deles adentraram o edifício da prefeitura com latas de combustível em mãos, com o que se encharcaram. Ameaçaram de se incinerar frente a intendência se não os devolvessem seus postos de trabalho. Para demonstrar que estavam dispostos a tudo um deles ateou fogo a uma poltrona.

As chamas se viam pela janela, e os familiares que estavam do lado de fora, desesperados e imaginando o pior, tentaram entrar, o que foi impedido pela polícia. Se excederam e apedrejaram o automóvel da intendência. As manchetes dos meios locais, sem exceção, noticiaram sobre os danos sofridos pelo veículo; exacerbando em suas linhas o dano a propriedade privada em detrimento da tentativa de suicídio frente aomacri2 desespero de perder o emprego e sustento familiar.

A blindagem judicial e, sobre tudo, o midiático de que goza Mauricio Macri, apenas pode ser rompido pelas redes sociais em que os cidadãos vão subindo vídeos dos diferentes atropelos que vão registrando em seus celulares. A estigmatização dos cidadãos mais pobres é amplificada pelas operações da imprensa.

Em 29 de janeiro, pela noite, enquanto ensaiavam as bandas para os carnavais em um bairro pobre da cidade de Buenos Aires, adentraram a rua violentamente as forças de segurança. Machucaram a dois meninos que roçaram com os veículos. Gustavo “Marola” González, Diretor da banda “Os Autênticos Reis do Ritmo”, fez o pedido de que lhes dessem alguns minutos para que retirassem as 80 crianças que estavam dançando. Como resposta recebeu um empurrão e, imediatamente, uma chuva de tiros com bala de borracha desatou sobre a multidão que, desesperada, gritava e corria. Todos os disparos recebidos foram pelas costas. Crianças entre dois e doze anos foram feridos. Os pais, alguns também feridos, tiveram que levar eles mesmos seus filhos ao hospital para serem atendidos por que, pela decisão de Mauricio Macri quando era chefe do governo da cidade, as ambulâncias não entram nas vilas. Duas criaturas, ficaram internadas. Aos adultos, um médico de plantão se negou a atende-los, aparentemente, por pedido da polícia.

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As fotos são eloquentes e o tema se difundiu rapidamente nas redes sociais. Hoje, 1º de fevereiro, a ministra da Segurança, Patricia Bullrich, apareceu com um suposto policial hospitalizado “logo após ser ferido nos enfrentamentos com delinquentes da vila 1-11-14”, em uma clara operação da imprensa tendendo a desculpar aos que perpetraram esse feito atroz. Nenhuma força de segurança, em nenhum país do mundo, se defende de delinquentes com balas de borracha.

Na Argentina o Carnaval, a verdade e os Direitos Humanos foram sequestrados pelo governo de Mauricio Macri, e seus carcereiros são os grandes grupos midiáticos.

Versão em português, Thiago Iessim para Desacato.info.

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