PRI é favorito nas eleições mexicanas

Por Tadeu Breda.

São Paulo – Se as pesquisas eleitorais estiverem corretas, o México está prestes a devolver o poder ao Partido Revolucionário Institucional (PRI), que governou o país entre 1929, quando foi fundado, até ter sido derrotado nas urnas presidenciais pela primeira vez em toda sua história, em 2000.

Depois de doze anos fora do Palácio de Los Pinos, sede da presidência mexicana, o PRI se apresenta aos eleitores com uma imagem renovada. Seu candidato é o jovem e galante Enrique Peña Nieto, que não surpreenderia ninguém se estrelasse um dos folhetins televisivos que o país exporta aos montes – e que Sílvio Santos coloca no ar pelo SBT. Até porque Peña Nieto é casado com uma atriz de novela nacionalmente conhecida. É também herdeiro de uma família de políticos priístas e foi governador do Estado do México, o mais populoso e próspero da federação.

O presidenciável lidera as intenções de voto desde quando cogitou lançar-se à corrida eleitoral, no ano passado. Às vésperas do pleito, que ocorre no domingo, 1° de julho, segue na ponta: tem algo em torno dos 40% da preferência popular, uns dez pontos percentuais à frente do segundo colocado. Sua crença na vitória é tanta que, durante a cerimônia de encerramento da campanha, num Estádio Azteca lotado, Peña Nieto não teve pudores em anunciar-se como novo presidente do México. No palco que lhe servia de tribuna, um imenso cartaz traduzia em uma só palavra sua confiança: “Voltamos”.

Revolução e institucionalidade

Prova de que o mundo dá voltas também neste país norte-americano de 110 milhões de habitantes. A democracia mexicana respirou aliviada quando o PRI finalmente perdeu as eleições, em pleno ocaso de um século 20 que começou com a Revolução de 1910. Foi o processo revolucionário que – depois de muitas idas e vindas e mortes e golpes de Estado – viabilizaria a criação do PRI. Seu mentor foi Plutarco Elías Calles, que governou o México entre 1924 e 1928.

Ao fim de sua gestão, Calles, conhecido como Chefe Máximo da Revolução, resolveu decretar o fim dos caudilhos que até então tinham mandado no país. Ele mesmo era um deles, mas numa jogada política anunciou: “Agora começa a etapa das instituições.” Daí o nome do PRI, que ao mesmo tempo é revolucionário e institucional. Na época, tais termos não pareciam representar um paradoxo.

“Foi o partido que representou o projeto e as facções políticas que se tornaram hegemônicas após a Revolução”, contextualiza María Gisela Espinosa, pesquisadora da Universidade Autônoma Metropolitana Xochimilco (UAM-X). Para conseguir estabilidade, explica a acadêmica, o PRI teve que chegar a um acordo com as forças revolucionárias. “Os pactos sociais se refletem nos direitos agrários e trabalhistas expressos na Constituição de 1917, e também na educação laica e gratuita.”

Mas o tempo passou e o partido foi se adequando às novas realidades sociais e políticas. Para manter-se no poder, lançou mão de um vasto aparato clientelista e corporativo, que impediu o florescimento da cidadania plena. “Votar no PRI passou a significar garantia de trabalho e benefícios pessoais a partir da corrupção”, sustenta Fabíola Escárzaga, professora da UAM-X. “Nunca foi um voto baseado em valores, mas nos benefícios materiais que as pessoas poderiam conseguir com a lealdade.”

Hegemonia política

Daí que Jaime Ortega, professor de Ciência Política da Universidade Autônoma Metropolitana (UAM), diga que o PRI não é – e talvez nunca tenha sido – o partido da Revolução propriamente dita. “O mais correto é dizer que foi o partido que congelou o processo revolucionário.” O fato é que, se não instituiu a Revolução, o PRI instituiu a si mesmo no poder. Além da presidência, que só deixou escapar 71 anos depois de sua fundação, até 1989 todos os 31 estados mexicanos foram governados pela sigla. O partido também só foi perder maioria absoluta no Congresso em 1997.

Mas a particularidade do sistema político do país, herdeiro de um processo revolucionário sangrento e sustentado por um Estado onipresente, fez com que a hegemonia do PRI não ganhasse as cores de uma ditadura formal. “Teoricamente, sempre tivemos eleições”, lembra John Ackerman, pesquisador do Centro de Investigações Jurídicas da Universidade Nacional Autônoma do México (Unam). “Por isso, no México, a mera celebração de eleições não é indicador de que exista democracia.”

Historicamente, o PRI cedeu asilo político para muita gente perseguida em seus países de origem. Graças aos princípios do partido, o México recebeu León Trotski, que fugia do stalinismo na União Soviética, e mostrou-se refúgio seguro para os soldados republicanos derrotados por Francisco Franco na Guerra Civil Espanhola e militantes latino-americanos que lutavam pela democracia durante as ditaduras que assolaram a região a partir dos anos sessenta, por exemplo.

O PRI também teve a sorte – ou a virtude – de governar o México durante o processo de industrialização que se produziu crescimento e estabilidade econômica e ficou conhecido como milagre mexicano. “Foram tempos de vacas gordas”, analisa María Gisela Espinosa. Porém, ao passo que se melhoravam as condições sociais e o PIB aumentava, grandes fortunas se construíram sob as saias do poder público, graças às benesses do partido.

“Então nasceram as contradições do desenvolvimentismo que começariam a revelar-se nos anos 70, e que nos 80 já não conseguiriam sustentar nem o crescimento nem a intervenção estatal na economia”, diz a pesquisadora da UAM-X. “O auge e o ocaso do modelo industrializante no México, assim como o milagre econômico e a década perdida, são obras do PRI.”

Atualidade

Para Jaime Ortega, o Partido Revolucionário Institucional está completamente despido das virtudes que lhe glorificaram no passado. A partir do neoliberalismo, explica, o PRI foi o partido da privatização e do clientelismo. “Hoje, a sigla representa o setor mais corrupto e atrasado da sociedade mexicana: é, ao mesmo tempo, o partido dos setores mais miseráveis, dos empresários sedentos pelos recursos públicos, dos caciques locais e de organizações violentas que impõem suas regras pela força, sobretudo no campo”, define o cientista político da UAM.

Nestes doze anos em que esteve alijado da presidência, porém, o PRI repaginou, senão suas estruturas, ao menos sua imagem. A juventude de Enrique Peña Nieto contrasta com a tradição dinossáurica do partido. É possível que o PRI também tenha estabelecido parcerias estratégicas com os principais meios de comunicação mexicanos para pintar um belo retrato de seu candidato às eleições de 2012. O jornal britânico The Guardian movimentou a campanha ao trazer documentos provando uma suposta encomenda do PRI ao canal de tevê Televisa: dinheiro em troca de uma cobertura favorável do governo do Estado do México na época em que Peña Nieto era governador.

Seja como for, a estratégia tem dado certo. Os mexicanos parecem cansados da Guerra ao Nacotráfico imposta ao país pelo presidente Felipe Calderón, do Partido Ação Nacional (PAN). São mais de 60 mil mortos que diariamente aparecem executados, encapuzados, torturados, decapitados ou amarrados, em valas comuns, carros abandonados e até no aeroporto da Cidade do México. Recentemente, três policiais federais foram assassinados na praça de alimentação do terminal aeroportuário.

“PRI sabe governar”

Além do rostinho bonito de seu presidenciável, o PRI conta com um argumento que, à primeira vista, parece esfarrapado, mas tem colado na opinião pública mexicana: na época em que governava o país, não havia tanta violência. Não porque o PRI combatia com dureza o tráfico de drogas, mas porque, todos concordam, sabia negociar com os grandes cartéis. “É possível que muita gente vote em Peña Nieto por acreditar que o PRI sabe como lidar com o problema do narcotráfico”, prevê Fabíola Escárzaga.

“Na época do PRI, o Estado tinha capacidade para negociar espaços de atuação com o narcotráfico, para que as disputas entre os cartéis não afetassem o cotidiano do país. Havia limites bem definidos”, diz a analista da UAM-X. “Agora existe uma espécie de feudalização dos territórios nas mãos dos chefões da droga. Os índices de violência que estamos vivendo são inauditos.”

Mas a jornalista Anabel Hérnandez afirma que é um ledo engano acreditar que o PRI – ou qualquer outro partido mexicano que venha a ganhar as eleições presidenciais no domingo – poderá estabelecer novamente uma mesa de diálogo com o crime organizado.

“A situação no México é tão caótica e os cartéis estão tão fragmentados que é impossível pensar no sucesso das negociações”, defende a autora do livro Los Señores del Narco, um best-seller que lhe rendeu dezenas de ameaças de morte e hoje em dia lhe obriga a andar com dois guarda-costas.

“Não temos aqui apenas uma batalha entre forças armadas e grandes narcotraficantes: há também uma guerra de baixo impacto, que envolve pequenos grupos. Com eles não é possível negociar, porque não obedecem a uma cadeia de mando.”

Bipartidarismo

Com ou sem violência, a vitória do PRI consolidaria a suspeita de alguns analistas sobre a disposição das elites mexicanas em instituir no país um regime político bipartidário. “Embora tenha havido alternância entre PRI e PAN, continuamos com as mesmas práticas governamentais: clientelismo, corrupção e captura do Estado, e as mesmas táticas do passado”, avalia John Ackerman, da Unam. “Trata-se de um mesmo grupo de interesse socioeconômico. É o que chamamos aqui de PRI-AN. Não houve mudança real no controle do Estado mexicano. É o mesmo regime.”

Na mesma linha, Jaime Ortega argumenta que o bipartidarismo é um sonho das elites mexicanas e nasceu de um acordo firmado entre PRI e PAN em 1988. Na época, muitos indícios apontam que o Partido da Revolução Democrática (PRD) venceu as eleições presidenciais com Cuauhtémoc Cárdenas – mas não levou. Mantendo a tradição, uma fraude teria conduzido ao poder Carlos Salinas de Gortari, do PRI.

A quase derrota assustou os representantes do status quo mexicano, que então teriam pactuado a alternância para que o sistema pelo menos tivesse um verniz democrático. “Daí em diante, PRI e PAN começaram a permanecer no poder doze anos cada um”, acredita o professor da UAM, ressaltando que o último governo priísta acabou em 2000 e que, desde então, os panistas dão as cartas. “Em termos políticos, talvez a consolidação desse bipartidarismo seja o fator mais preocupante de um possível retorno do PRI ao poder. Finalmente, terão imposto seu projeto.”

Fonte: http://www.redebrasilatual.com.br

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