Presidiárias são invisíveis perante o poder público, diz documentarista

Publicado em: 20/01/2014 às 09:06
Presidiárias são invisíveis perante o poder público, diz documentarista

Leite_e_ferro5+internaCláudia Priscilla dirigiu “Leite e Ferro”, documentário que mostra rotina de detentas que dão à luz em uma instituição paulista

Por Paulo Cézar Pastor Monteiro.

Em entrevista ao Última Instância, a diretora Cláudia Priscilla, autora do premiado documentário “Leite e Ferro” – filme que mostra a rotina de presas que dão à luz na prisão – explica que as presas são “invisíveis” para o poder público, tanto pelo baixo número de presas, como também devido às questões relacionadas ao machismo ou ao abandono familiar. “As mulheres não fazem rebelião, não aparecem na TV, quase não recebem visitas. A questão da prisão feminina é muito mais delicada do que a masculina por diversos fatores, acho que há uma invisibilidade, se fala muito pouco por ser uma porcentagem pequena. Não é um assunto discutido”, afirma.

Produzido em 2007, “Leite e Ferro”, ganhou no festival de Paulínia os prêmios de melhor documentário e melhor direção. Foi gravado no antigo Cahmp (Centro de Atendimento Hospitalar da Mulher Presa), instituição em São Paulo que era reservada para o nascimento e amamentação dos bebês e que fechou pouco depois do término das filmagens, o que, como explica Cláudia, serviu para dificultar ainda mais a vidas das presas. “O Cahmp, não era um lugar perfeito, mas era um espaço exclusivo para mulheres em aleitamento. Agora, elas ficam em hospitais dentro de grande penitenciárias, o que expõe as mãe e os bebês a doença e infecções”, diz Cláudia.

Última Instância:“Leite e Ferro” ganhou diversos prêmios e foi muito bem visto pela crítica. O que explica o sucesso do filme?

Cláudia Priscilla: Eu não esperava os prêmios, foi uma surpresa boa ganhar em Paulínia como melhor documentário e melhor direção. Quando faço um filme é porque estou muito envolvida com o tema, nunca faço um filme pensando no resultado. Eu fiz esse filme porque estava muito envolvida com a questão da maternidade, tinha acabado de ter um filho. Fiquei pensando que esse processo poderia acontecer em uma situação muito contrária à que eu estava vivendo, com uma maternidade muito confortável. Quis conhecer um pouco este outro lado, onde essas mulheres vivem a em uma forma restrita de liberdade, restrição física e psicológica. Eu queria entender um pouco esse outro tipo de vivência.

A gravidez é tratada como um momento “especial”, “sublime”, com características que dificilmente podem ser relacionadas com a realidade de um presídio. A reação do público foi a que você esperava?

Cláudia: Acho que tem uma coisa que eu acredito que tenha chamado a atenção para o filme, é o humor. Ali as mulheres estão restritas a tudo, sem acesso à sociedade. É uma realidade dura, com muito sofrimento. Ali, as histórias das pessoas são muito tristes mas, ao mesmo tempo o convívio, a presença dos bebês, torna o ambiente mais tranquilo. Talvez a presença da câmera, de uma equipe de gravação, também tirava as mulheres daquele cotidiano repetitivo. As conversas tinham tiradas de humor, acho que isso é uma característica brasileira. Na primeira vez que o documentário foi exibido, uma repórter me perguntou se eu fiquei chocada com o fato do público ter rido, disse que não, que fiquei feliz. Além das muitas facetas que eu queria mostrar, umas delas era o bom humor delas, um pouco de leveza que restava, mesmo naquela situação difícil.

Uma das denúncias que mais chocam é o fato de algumas presas dão a luz algemadas. Como as mulheres viam isso e isso ainda acontece?

Cláudia: Geralmente elas já são presas grávidas, algumas com a gravidez mais avançada, outras foram presas e nem sabia que estavam grávidas. No debate de lançamento do filme, havia muitas pessoas ligadas aos direitos humanos, entre elas o advogado Salomão Shecaira, professor de Direito da USP, estava com uma comissão, e disseram que iriam entrar com uma ação contra o Estado denunciado o fato das mulheres darem a luz algemadas. Ele me pediu para usar o documentário como prova de que isso acontecia. Então, acho que esta foi a maior contribuição que eu pude dar, o melhor presente que tive, com este filme exercer um tipo de militância direta. Foi o meu maior orgulho, mas do que ganhar algum prêmio, minimamente contribuir com aquelas mulheres, que se doaram tanto para o filme.

O momento de separação das mulheres com seus bebês deve ser um instante muito duro, como as presas vivenciam isso?

Cláudia: Eu vivi esse processo quando estava lá porque fiquei dois meses lá dentro, mas resolvi não filmá-lo. A separação mãe e filho é extremamente delicada, é uma dor horrível. Foi uma vivência muito dura que eu tive lá dentro. Eu já tinha resolvido antes segmentar a experiência das mulheres nesse centro, fechar o filme dentro do tempo que elas ficavam naquele lugar, o que dava cerca de quatro meses. A separação em si já daria um filme inteiro, então eu quis concentrar no anterior à separação. Mas, vendo hoje, também não sei se foi uma defesa minha. Não sei se, emocionalmente estaria preparada para filmar este momento mais duro. Mas fico feliz por não ter feito, por que acho que merece um filme exclusivo, uma reflexão.

O poder público poderia fazer para diminuir todo este sofrimento?

Cláudia: Acho que deveríamos começar uma discussão em torno de outros tipos de punição, diferentes da privação da liberdade. Precisamos rever o sistema de punição da nossa sociedade. Uma vez um jurista me falou que daqui há algum tempo nossa civilização teria vergonha de ter encarcerado pessoas. Eu compactuo muito com esse pensamento, acho que temos que buscar formas alternativas de punição.

A cultura do machismo aparece na vida das presas? Elas sofrem preconceito por estarem presas e terem bebês?

Cláudia: O documentário foi gravado no Cahmp, que foi fechado pouco depois das gravações, lá era um lugar exclusivo para as mulheres e para os bebês, então era lugar muito diferente da realidade dos presídios. As mulheres representam apenas 6% da população carcerária, elas são praticamente invisíveis dentro do sistema: elas não fazem rebelião, então não aparecem na TV, não recebem visitas, ou companheiros vão para outro relacionamento, ou, na maioria dos casos, também acabam indo presos, elas acabam perdendo o contato com a família. A questão da prisão feminina é muito mais delicada que a masculina, por diversos fatores, acho que há uma invisibilidade, se fala muito pouco por ser uma porcentagem pequena. Não é um assunto discutido. A mulher presa ela vai para um ostracismo familiar, é muito dolorosa essa situação na vida de uma mulher.

Parte do documentário foi produzido em 2007, de lá para cá, você tem conhecimento do que mudou na vidas das presas que têm filho na prisão?

Cláudia: Quando fui lançar o filme nenhuma delas estava mais presa, exceto a Cristiane, que era minha personagem principal. Na minha opinião, o que aconteceu de pior para o sistema foi o fechamento do Cahmp. Não era um lugar perfeito, mas era um espaço exclusivo para mulheres em aleitamento. Aí provisoriamente, e esse provisório no Brasil é complicado porque dura muito tempo, elas ficam agora em hospitais dentro de grande penitenciárias. Entre os diversos fatores negativos, a primeira é que elas estão ocupando leito de outras presas doentes, segundo, mais importante, é que o aleitamento não pode estar ligado a um ambiente de doença, com o risco de infecção para elas e seus filhos. Então eu acho que, do tempo que eu fiz o filme para agora, a situação da mulher presa com filho no Brasil piorou.

Fonte: Última Instância.

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