Preguiça

O enterro da sardinha, Goya.

Por Luciane Recieri, para Desacato.info.

E de quantas vidas vim vivendo? Já perdi a conta.

Nem gato, sete parece pouca coisa, pra não dizer pouca merda. Multiplicaram-se as vidas feito lêndeas de duas pra um absurdo de quatrocentas. Sei mais não o que fui e o que serei. Dá preguiça infinita de pensar. Essa última vida era a mais tranquila – corre-se tanto que não se vê passar … -, essa última com dispensa de proclamas, com dispensa de toda coisa: era vida café-com-leite. Com toda licença poética: isenção de carro velho. Direitos de quem já passou dos 65. Funcionário público. Estudante. Arrimo de família. Viúva. Tudo isso. Indigente. Que diferença faz? Pago meia nessa e ainda bem. Se fosse pra pagar inteira nem ia. Não vou mais.

Desisti dos meios e só tenho isso aqui pela arte. Tem muita gente desistindo, amigos ligando e cumprimentando com um lacônico “não dá mais”.
Vejo umas boas besteiras, tenho ido muito a São Paulo por conta da minha mãe que adoeceu depois de 52 anos no tabaco.
Irrita-me o mal gosto, a desfaçatez, as coisas coladas e o repetez, mas ainda fico pelo folclorismo moderno, gosto de ver passar o corso.
Meu tio Zezé achava um pecado falar que se tem preguiça. Ah, tio Zezé, eu ando. Com. Não imagina o tamanho da bendita. De tantas que já vivi. Parece que não, vão dizer, mas sim eu digo. De tantas, cansei. Preguiça. Não, eu não gosto de gente animada.

Luciane Recieri

Luciane Recieri é cientista social e escritora, em Jacareí /SP

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.