Porto Seguro: Arte-desconstrução do corpo normativo a partir do “Corpo que veste”

Augustin de Tugny, 2016, Porto Seguro - 68ª, Reunião Anual da SBPC. Fátima Regina Friedmann e Vinícius Santos
Augustin de Tugny, 2016, Porto Seguro – 68ª, Reunião Anual da SBPC. Fátima Regina Friedmann e Vinícius Santos

Por Denys Henrique Rodrigues Câmara e Elissandro dos Santos Santana, Porto Seguro, para Desacato.info. 

Em meio a tantos preconceitos, reacionarismos, conservadorismos e cristalizações do pensamento, em Porto Seguro e região, o Projeto Corpo Que Veste desconstrói paradigmas e semânticas pétreas de poder sobre o corpo, em busca da ruptura com os valores normativos da sociedade que se quer estática, estanque. Entrevista com Vinícius Santos.

Denys Câmara e Elissandro Santana:

Apresente-se e discorra sobre seu trabalho.

Vinícius Santos:

Sou Vinícius Santos e iniciei minha relação com as artes ainda no colegial, integrando, com 16 anos, a Cia Eunapolitana de Teatro, participando do I Festival de Teatro da Costa do Descobrimento, espaço no qual pude receber os prêmios de 3º lugar como Ator e Melhor Cenário, com o monólogo de minha autoria, Urubu-Rei. Atualmente, sou estudante da Universidade Federal do Sul da Bahia, cursando Bacharelado Interdisciplinar em Artes, um curso que vem abrindo diversas possibilidades para repensar o lugar da arte e as suas formas de se relacionar com o mundo, encontrando um caminho político e sensível para dialogar as alteridades. Partindo do projeto de iniciação científica, sob a orientação do prof. Dr. Augustin de Tugny, aprofundei leituras no campo teórico em torno das relações vivenciadas nos imbricamentos da roupa e do corpo, como a roupa constrói experiências físicas que transformam o sujeito. Em diálogo com o Componente Curricular “Ateliê: corpo, tempo e espaço”, busquei construir corpos vestíveis que possibilitassem outras formas de ser e de estar no mundo; corpos vestíveis que, desde seu material de confecção, já imprimem diversas marcas e sensações sobre o sujeito. Usando elementos como grades plásticas para janelas, sacos de fibras plásticas para construções e telas para proteções e contenções, e arames, os corpos construídos apresentavam diversas implicações para o corpo, alterações que são vivenciadas de maneiras diferentes por cada sujeito que se propõe a participar da experiência. Os trajes foram desenvolvidos com o apoio de Fátima Regina Friedmann, atriz, figurinista e cenógrafa que contribuiu de maneira integral para a criação de cada peça. Os corpos vestíveis vêm sendo usados por atores e não atores, que, de forma espontânea, constroem diversas performances, que colocam em cheque o corpo, as prisões sociais e históricas, as relações de poder, o desejo, a libido e o medo do questionamento. 

Denys Câmara e Elissandro Santana:

O projeto “Corpo que Veste”, mesmo tendo nascido na academia, consegue atingir públicos para além do espaço acadêmico? 

Vinícius Santos:

O projeto foi apresentado pela primeira vez na UFSB, durante a 68ª Reunião Anual da SBPC; mesmo sendo um evento aberto para toda a comunidade, acredito que, pela localização do espaço, e pela grande dificuldade de acesso aos espaços públicos, a população, devido ao precário sistema de transporte oferecido, houve pouca adesão da comunidade trabalhadora, mas, mesmo assim, alcançou um bom numero de estudantes da rede municipal.

O Corpo Que Veste foi convidado pelo Coletivo LGBT GENI para participar do sarau “Quem Tem Medo de Homofobia”, realizado pelo grupo em Eunápolis, no Viola de Bolso, espaço localizado em bairro popular e que teve grande participação da comunidade LGBT do município, estudantes, adultos de todas as idades. Com o apoio da Cia Manguti de Teatro, o projeto esteve, também, no Sarau Cultural do Livreiro, que acontece na Rua do Mangue, em Porto Seguro. Na ocasião, a performance, por diversos momentos, parou o trânsito, passantes, ciclistas e todo o público que participava do sarau e ocupava o mangue. Por estar no campo da performance, o projeto pode causar, de início, grande estranheza, mas a performance, como linguagem, está relacionada à experiência, à construção de imagens e de sensações, que passam por diversas leituras dos sujeitos que se apegam a signos e a gestos que são significados e constroem as “cenas”. 

Denys Câmara e Elissandro Santana:

Atualmente, como se constitui o projeto? Quais as linhas de atuação a partir da temática pontual do corpo que veste?

 

Vinícius Santos:

Buscando ampliar uma reflexão em torno do corpo em nossa sociedade e das diversas formas de prisão que constituem e regem os nossos corpos. Corpo que veste é composto por quatro trajes/corpos vestíveis, quatro “carcaças” de colunas vertebrais feitas de arame enferrujando, tendo também elementos que são adicionados de acordo com as necessidades e demandas de cada ação. As peças podem ser expostas, vestindo as carcaças, construindo, assim, uma instalação, possibilitando que qualquer sujeito vista as roupas e experimentem outros corpos, construídos no encontro entre o corpo vestível proposto e o corpo do sujeito. É a partir do uso da roupa que se caracteriza a performance, à medida em que cada sujeito desenvolve o seu processo pessoal e subjetivo de conhecer e se reconhecer no novo corpo, redescobrindo e construindo novos movimentos, novas formas de se expressar, de se manifestar e estar no mundo. Quando em coletivo, o caráter performático dos corpos vestíveis é ainda mais acentuado. 

Denys Câmara e Elissandro Santana:

Discorra sobre os membros do projeto e a relação deles com a sustentabilidade, pois percebemos que para a elaboração, bem como para a execução de todo o processo artístico, vocês se valem de eixos sustentáveis.

 

Vinícius Santos:

O Corpo que veste se deu em colaboração com Fátima Regina Friedmann, costureira/figurinista, atriz e cenógrafa, que com toda a sua experiência em trabalhos com materiais recicláveis, pode abusar da experimentação. No ateliê dela, desenvolvemos, por 5 dias, um trabalho contínuo na construção de cada peça. A escolha do material partiu de algo que eu, inicialmente, já possuía, numa busca para forjar novos modos de uso e de relação com a matéria. Perseguimos as inscrições de uma roupa feita por meio de um material que imprime no corpo um “ser” claustrofóbico.

As telas de fibra usadas em construções, ou as telas para “galinheiro” ou “mosquiteiros”, todas usadas em seu cotidiano para conter, afastar, proibir, isolar, protege.  No corpo, as marcas não são tão diferentes, são ainda mais extremas, moldando também a relação do sujeito com o mundo como um todo, em seus aspectos físicos e subjetivos.

As mesmas peças foram usadas em todas as performances, alternando apenas o corpo que as vestiam, construindo, então, sempre outro sujeito, fruto do imbricamento dessas duas malhas carregadas de orientações, constituindo cada performance como um acontecimento único. Dentre os atores que já participaram do projeto, está Mirna de Oliveira, estudante de BI Artes na UFSB, que vem desenvolvendo um forte processo dentro das questões de gênero, na performance e nas artes visuais, Mirna, em todas as vezes que usou algum traje, trouxe consigo um certo desejo, uma fúria, uma necessidade de combater, de proteger o outro, de possuir o outro; de maneira fluída, ela se instaurou sempre como um novo corpo, capaz de projetar emoções e ações humanas, de uma maneira mais intensa, mesmo que presa dentro das imposições da roupa/corpo vestida, ela agora se vê livre de outras prisões sociais e regulamentos sociais.

O grupo musical Devaneio Galopante, composto por Daniel Durans, Márcio Costa e Arthur Luhr desenvolveram uma performance em que usavam os trajes enquanto tocavam, projetando na música improvisada às marcas da relação entre o corpo do sujeito e o corpo vestido.  Em parceria com a Cia Mangut de Teatro, Cempec e queridos atores do bairro Agrovilla, em Porto Seguro, realizamos um experimento denominado de “Cortejo das Carcaças” onde todo o material disponível se tornou roupa e os atores que eram em número maior (10) do que o número de trajes (4) incorporaram todos os materiais que estavam ao alcance, gerando a semântica de corpos ocasionais.

Para além da reescrita e da reutilização da matéria, para o grupo de sujeitos que teve a oportunidade de usar os corpos vestíveis, foi possível vivenciar/experimentar outras formas de se relacionar em sociedade, seja com o próprio corpo, com a própria roupa, moda, seja com o outro, há aqui grande possibilidade de se reinscrever no mundo.

A última ação desenvolvida conjuntamente com os membros da Cia Mangut de Teatro foi uma compilação das experiências acumuladas nos trajes, partindo, obviamente, da leitura dos performers das ações que surgiram, percebendo uma linha comum a todas as performances, como ações que apresentam o desejo, a sedução, o controle, a posse, a imposição, a tentativa constante de se comunicar e estar com o outro, mesmo que a relação que se constitua se dê de maneira conflituosa.

Denys Câmara e Elissandro Santana:

Enquanto membro ativo do projeto “Corpo que veste”, foi possível perceber mudanças na forma de captar o outro, um corpo que veste em meio às estéticas plásticas, elásticas e, algumas, estáticas, em sociedade? Os demais membros do projeto deixam transparecer essa percepção de que tudo está em fluxo, em mudança? Você e todo o grupo conseguem captar processos esponjosos de recepção do corpo pós-moderno no eterno fluxo societário no público que assiste às apresentações e atuações?

 Vinícius Santos:

Estando na área da performance, onde todos os campos de composição são expandidos, a ausência de um texto verbal (o que não é uma regra, mas é comum entre as performances), por exemplo, pode dificultar uma leitura  como muitos estão acostumados a fazer no que concerne a algumas artes cênicas, no entanto, por acionar diversos campos sensoriais, a performance proporciona uma leitura mais subjetiva, que necessita da entrega, das experiências e possibilidades de significação do mundo que cada sujeito (público ou não) dispõe.

Nesse sentido, cada performance  instaura um nova forma de se relacionar com o outro. Na primeira performance apresentada da 68ª Reunião Anual da SBPC, o corpo vestido por mim, buscou uma movimentação cênica que se opusesse à forma e à sensação de densidade e peso. De maneira fluída, acabei tocando, abraçando, me entrelaçando em e com algumas pessoas. Em outro momento, numa performance nomeada de “Dominação”, o corpo vestido por mim, depois de muito lutar e reagir às imposições do outro corpo em cena, conseguiu uma certa liberdade e passou a buscar outros sujeitos para ocupar o papel de dominador. Alguns desses sujeitos não haviam acompanhado o começo da performance e me encontraram em um outro momento, tendo, assim, outra leitura de toda a situação, já que não tiveram a mesma base de acontecimentos, no entanto, não é possível dizer que essa foi uma experiência menor ou maior, mas que possibilitou, também, o encontro e o contanto com o outro, que sempre pego de surpresa, vê-se indagado de algo que não compreende e precisa, de algum modo, reagir aos estímulos propostos e construir suas possíveis relações.

O grupo que participou de todo o processo constituiu-se, de maneira bem diversa, mas houve aqueles que puderam participar de mais de uma ação, ficando evidente que as relações se dão de maneiras fluídas, pois as organizações e os gestos em cena se transformavam de acordo com os estímulos, a música, o silêncio, ao toque e a distância, todo corpo inscreve sua força no mundo e, na performance no campo das artes, essa força é expandida.

 

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