Por um mundo sem preconceitos

Publicado em: 02/09/2011 às 22:55
Por um mundo sem preconceitos

Texto e fotos por Marcela Cornelli.

Nem o frio e a chuva em Florianópolis atrapalharam o acalorado debate “Mulheres de Luta” promovido pelo Sindes na última segunda-feira, dia 29 de agosto. O debate foi realizado no auditório do Museu Cruz e Souza no Centro da Capital e reuniu militantes do Movimento LGBT, de direitos humanos, do MST, estudantes, dirigentes sindicais e filiados do Sindes. O objetivo do Sindes em chamar este debate, que abordou temas como homofobia e violência contra a mulher, foi trazer para o movimento sindical a discussão da necessidade da unificação da pauta com os movimentos sociais na luta contra o preconceito e por uma sociedade verdadeiramente mais igualitária. Porque, se queremos uma sociedade socialista e diferente desta em que vivemos a luta contra qualquer tipo de preconceito, o machismo e a violência precisam ser combatidos por todos.

Para debater com os participantes do evento, que também marcou o Dia da Visilibidade Lésbica, estiverem presentes as palestrantes Anahi Guedes de Mello, do Núcleo de Identidades de Gênero e Subjetividades (NIGS) da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC); Kelly Vieira, coordenadora da Associação em Defesa dos Direitos Humanos com Enfoque na Sexualidade de Florianópolis (ADEH) e do Conselho Municipal de Saúde de Florianópolis; e Guilhermina Cunha Salasário, da Associação de Direitos Humanos com Enfoque na Sexualidade de Florianópolis da (ADEH), do Conselho Municipal dos Direitos da Mulher, do Coletivo de Mulheres da ABGLT e da Articulação Brasileira de Lésbicas (ABL).

 Gulhermina Cunha Salasário (foto superior) fez um resgate de datas históricas que marcaram as conquistas e as lutas das mulheres como o Dia Internacional da Mulher (8 de março) e a criação do Dia da Visibilidade Lésbica (29 de agosto), que surgiu como uma forma de luta contra a lesbofobia e contra o machismo. A palestrante lembrou que somente nos anos 70, ou seja, há apenas 40 anos, a mulheres começavam a entrar para partidos e se candidatarem na política. “Hoje muitos dizem que os partidos têm dificuldade de preencher a cota para mulheres, mas esquecem que é tudo muito recente e que em 40 anos não se pode mudar toda a cultura machista da sociedade”. Ela lembrou também que foi no final dos anos 80 que, com a criação dos conselhos e delegacias especializadas nos direitos das mulheres, que o combate à violência contra a mulher ganhou mais visibilidade. “Não que isso não acontecesse antes, mas as delegacias de mulheres tornaram visível a violência sofrida dentro de casa. A violência contra a mulher tornou-se um crime. Antes pessoas famosas, como o caso do cantor Lindomar Castilho, assassinavam suas mulheres por ciúmes e nada acontecia. Com a criação da delegacias especiais as mulheres criaram coragem e começaram a dizer que estavam apanhando”, citou Guilhermina.

No entanto, a palestrante enfatizou que não é fácil para a mulher sair de casa mesmo depois de denunciar o marido pela agressão. “Não devemos julgar a mulher porque são variados os motivos que as levam a continuarem vivendo com os maridos agressores, tanto pela dependência financeira, quanto pela dependência emocional”.

Gulhermina lembrou que a criação de redes nacionais e internacionais como a Articulação Brasileira de Lésbicas e a Ilga (Associação Internacional de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Transgêneres e Intersexuais), entre outras instituições latino americanas e Caribenhas ajudam cada vez mais a dar visibilidade à luta contra a violência e o preconceito contra as mulheres.

A palestrante citou exemplos de países onde o preconceito chega a extremos como na Jamaica onde ser homossexual é considerado crime com pena de 10 a 15 anos de prisão; em países árabes onde a mulher considerada adúltera morre por apedrejamento e o mesmo tratamento recebem as lésbicas. No entanto, nestes mesmos países se a mulher passar por uma operação se transformando em homem, ai pode se casar. “Tudo é uma questão de cunho religioso”.

Guilhermina também lembrou que a Lei Maria da Penha completou 5 anos. “Não queremos mais leis para sermos melhores que os homens e sim queremos leis que nos permitam ter direitos iguais”.

“Em casos como o estupro, as mulheres precisam provar que foram violentadas e ainda precisam ouvir insinuações sobre a roupa que vestiam, o modo como se portavam e a linguagem que usavam. No Afeganistão 87% das mulheres são analfabetas, no  Congo mais de 1.100 mulheres são estupradas diariamente, no  Paquistão 90% das mulheres sofrem com violencia doméstica e homicidios por honra, na Índia 100 milhões de mulheres se envolvem com tráfico de pessoas e na Somália 95% das mulheres sofrem mutilação genital e isso são apenas alguns exemplos que foram possíveis de serem registrados graças ao trabalho de redes feministas, de direitos humanos e LGBT”.

A palestrante também chamou a atenção para o machismo velado e enrustido que existe no meio sindical. “Vemos muitas mulheres nas diretorias, mas quantas estão na presidência dos sindicatos? Muito poucas em todo país, talvez uma meia dúzia”, disse. No entanto, Guilhermina ressaltou a importância da realização de debates como este chamado pelo Sindes para quebrar tabus e trazer a discussão à tona, ampliando o debate que já existe no movimento LGBT para o movimento sindical e para toda a sociedade. “Os sindicatos tirarem esta discussão do gueto já em uma grande avanço”, ponderou.

Guilhermina também apontou outros dados como: 60% das mulheres que apanham em casa não são dependentes dos seu maridos; 28% de mulheres em São Paulo sofrem agressão em suas próprias casas. Em Santa Catarina, 65% das denúncias no Centro de Referência de atendimento de mulheres em situação de violência são por violência física doméstica sofridas dentro de casa pelos próprios maridos e/ou companheiro. Colocou ainda que nestes 5anos de lei Maria da Penha 80% das ocorrências são por violência doméstica, que 164 casos de mulheres traficadas foram denunciados; 1.050 foram mantidas em cárcere privado; e mais de 4 mil casos de denuncias são de ameaça de violência e/ou morte. “A mulher ainda se cala por medo ou vergonha. Precisamos mudar esta realidade em Santa Catarina e em todo o País”, finalizou.

Kelly Vieira (foto abaixo), coordenadora da Associação em Defesa dos Direitos Humanos com Enfoque na Sexualidade de Florianópolis (ADEH) e do Conselho Municipal de Saúde de Florianópolis falou sobre os desafios do movimento LGBT. Para ela, um dos grandes preconceitos está na sexualização das coisas. “O movimento LGBT tem dificuldade de conquistar mais espaços, pois quando se fala sobre o tema, o que se vê é a sexualização da pessoa, não se vê o sujeito, a sujeita, além disso tudo, o que está ligado ao movimento é como se fosse voltado somente para questões sexuais”. Kelly também chamou a atenção que no movimento LGBT a predominância é machista, “daí a necessidade do combate da invisilibidade Lésbica”. “Na sociedade ainda há muitos preconceitos. Você pode ser homossexual, mas se tiver traços mais femininos, isso já incomoda, ai você é chamado de bichinha, mariquinha, etc.”.

 Na opinião da palestrante, os papéis do que é público e do que é privado na sociedade estão misturados. “Porque é importante saber o que se faz entre quatro paredes? Tudo está sexualizado”.

A palestrante também falou sobre o diferente tratamento que é dado para um gay e/ou lésbica na noite, em bares, “onde muitos casais heterossexuais os procuram, os acham atraentes, mas daí à luz do dia são objetos de chacota dessas mesmas pessoas, mostrando todo tipo de hipocrisia e preconceito que há na sociedade”.

Kelly afirmou que nos últimos anos as mulheres tiveram alguns avanços, mas ainda estão bem atrás dos avanços masculinos. Ela citou como exemplo a discussão e implementação de políticas públicas para a saúde feminina. “A plataforma da saúde para homens está 100% à frente da discussão para a saúde das lésbicas, por exemplo. A discussão sobre a AIDS entre as mulheres lésbicas nem saiu do papel ainda”, comentou.

Ela colocou ainda que a questão do machismo está também no movimento LGBT que “se apropria do excesso do poder do macho. Ainda precisamos que a luta das lésbicas dentro do movimento e fora dele também dialogue, como a luta dos gays, por exemplo, de igual para igual com os governantes, os ministérios em Brasília”. Kelly também chamou a atenção para as divisões e sectarismos dentro do próprio segmento e da necessidade da unificação das lutas e pautas de reivindicações para que o movimento tenha mais força. “Na sociedade precisamos olhar de igual para igual para todos e o movimento LGBT precisa ocupar espaços e acabar com a fragmentação para avançarmos na luta por igualdade”.

Além disso, quando questionada sobre possíveis avanços e/ou retrocessos no governo Dilma para o movimento LGBT, Kelly afirmou que o problema não está na receptividade dos governantes às reivindicações do movimento e sim no próprio individualismo da sociedade que não reivindica unida. “Cada um está preocupado em ganhar seu salário e ir para a sua casa, não existe a preocupação com o outro”.

A palestrante e pesquisadora do Núcleo de Identidades de Gênero e Subjetividades NIGS/UFSC, Anahi Guedes de Mello (foto abaixo), falou sobre a luta das mulheres lésbicas e portadoras de deficiência física e/ou mental. “Antes mesmo do preconceito por sermos lésbicas, temos que quebrar a barreira do preconceito da deficiência”, disse. “A imprensa não dá visibilidade a luta de gênero e principalmente quando se trata de uma mulher portadora de alguma deficiência. Houve um caso recente em que uma menina foi estuprada pelo pai, mas ninguém falou da irmã que tinha deficiência mental e também era violentada”, lembrou.

 

“As lésbicas, as feministas lutam pela legalização do aborto e da mulher decidir sobre seu próprio corpo, mas não falam do aborto seletivo ou permitido quando há anomalia fetal. A criança com deficiência já é excluída aí”. “A deficiência do corpo é algo que repugna a sociedade. Mulheres heterossexuais e/ou lésbicas e deficientes físicas e/ou mental são consideradas assexuadas, as mães não tratam do assunto sexo com elas. Isso é bem comum na nossa sociedade, como se por terem alguma deficiência fossem assexuadas”, ponderou Anahi.

A palestrante lembrou que até mesmo para fazer um exame de mamografia, os equipamentos atualmente utilizados dificultam a realização de exames para as mulheres com deficiência física. “Outro tipo de preconceito que enfrentamos é quando somos tratadas como crianças por nossos parceiros/parceiras e incapazes por termos alguma deficiência”, disse Anahi.

Ela colocou também a situação de muitas mulheres e meninas que são portadoras de deficiência física e/ou mental e são violentadas por seus próprios cuidadores, dentro de casa, por quem deveria ser responsável pelo seu zelo e cuidados. Anahi também defendeu a unidade na luta dentro do movimento LGBT, do movimento feminista e de movimentos que lutam pela causa. “Nossa pauta de reivindicação deve ser unificada para que possamos avançar na luta contra o preconceito”.

O Sindes agradece às palestrantes e a todos que participaram e contribuíram com o debate e como diz nosso logo vamos seguir “Todo Mundo Junto” na construção de um novo mundo!

Fonte: Sindes

 

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