Por que defender a Unila dos cafetões vira-latas e xenófobos da República?

Publicado em: 04/08/2017 às 11:26

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Por Elissandro Santana, Porto Seguro, para Desacato.info.

As razões para a defesa da Unila são muitas e, dentre elas, é possível apontar a principal: pela vertente da integração cultural latino-americana haverá uma identidade que possibilitará a intersecção de uma comunidade de nações e nisso reside o encontro de povos e culturas em um continente diverso.

Para avançar na discussão em baila, é oportuno pontuar que a Universidade Federal da Integração Latino-americana, criada durante a administração do governo Lula pela Lei nº 12189 de 12 de Janeiro de 2010, atende aos princípios da Constituição Federal de 1988, dado que no parágrafo único do Art. 4, a referida Carta Magna traz que a República Federativa do Brasil buscará a integração econômica, política e cultural dos povos da América Latina com vistas à formação de uma comunidade latino-americana de nações [1].

Infelizmente, em decorrência do alinhamento do Brasil atual com as perspectivas e pressupostos do neoliberalismo imperialista estadunidense, a Unila, por representar um caminho de encontro-união de povos em um continente historicamente dominado pelas arquiteturas mentais político-econômico-cultural-coloniais do pensar, desponta como uma ameaça à política golpista cafetã republicana, pois é um espaço para uma epistemologia própria no Sul e para o Sul, livre do Norte.

A prova cabal de que a Unila está sendo atacada pelo governo atual é a Medida Provisória nº 785 de 2017, uma emenda aditiva de autoria do Deputado Federal Sérgio Souza (PMDB / PR). No artigo 2 da referida medida, o governo temeroso, a partir de seus sequazes, busca desmantelar a universidade da integração, em uma tentativa de desvirtuar o objetivo constitucional da integração latino-americana ao mencionar que a nova instituição, UFOPR, terá como objetivo somente ministrar ensino superior, desenvolver pesquisa nas diversas áreas do conhecimento e promover a extensão universitária, com a missão institucional de formação técnica e porfissional de recursos humanos aptos a contribuirem para o desenvolvimento regional do oeste do Paraná integrado ao desenvolvimento nacional. Isso fere totalmente as diretrizes constitucionais que deram consusbtanciação à criação da Universidade Federal da Integração Latino-americana.

Esse ataque à Unila não pode sair vitorioso, pois a universidade em questão desempenha um papel importante para a construção e estabelecimento de uma identidade cultural latino-americana, como mencionado. Ademais, nunca se deve perder de vista que a formação de uma identidade latino-americana é essencial para a integração cultural, elemento-chave para outras integrações. Nessa linha de raciocínio, torna-se imprescindível destacar que o ataque à Unila vem carregado semiótico-semântico-semiologicamente da rechaça das políticas golpitas hodiernas às digitais dos dois últimos governos. Também cabe externar que a implementação da Unila possui relação direta com o contexto político minimamente progressista de Lula em relação ao ensino superior no Brasil, sendo assim, a tentativa de desmantelamento da Unila, bem mais que repulsa e apagamento das impressões de Lula rumo à integração latino-americana, é um retrocesso constitucional, dado que a Unila é uma diretriz constitucional.

Toda essa perseguição à Unila faz parte de um projeto político arvorado em princípios coloniais de dependência. Desta forma, atacando-se a Unila, a uma só vez, abala-se o projeto de integração a partir dos encontros culturais de irmãos latino-americanos em uma universidade de fronteira e se fragiliza o desejo de uma América Latina Unida.

Ainda é importante trazer à tona que a Unila possui a função de despertar novos olhares e perspectivas sobre a integração partindo do pressuposto de que a educação é elemento crucial para a libertação e formação de posturas mais crítico-educativo-político-latino-americanas.

Ademais, uma universidade com uma praxis pedagógica orientada para a integração possibilita aos atores sociais de aprendizagem e de ensino, que por ela transitam, a multiplicação das práticas e saberes integrativas decoloniais. Levando-se em consideração esta questão, é profícuo apoiar-se nas noções que apresentam os professores Fábio Borges e Victoria Darling, dois importantes docentes que pensam a integração latino-americana na Unila, que a diversidade de identidades que convive na fronteira ajuda-nos a enfrentar os desafios de um continente que segue dominado por elites e marcado pela desigualdade de oportunidades étnicas, raciais, de gênero e de condição da população. Todavia, a partir desses dois pensadores, tem-se que a paridade gera pluralidade de vozes e de compromissos, fenômeno que afeta as agendas de ensino, de pesquisa e de extensão gerando um impuslo rumo ao conhecimento a partir dos que estão embaixo, algo tão necessário para um continente marcado pela exclusão de maiorias, como, também, pelo colonialismo do “quer dizer, tradicionalmente eurocêntrico” [2].

À guisa de reiteração e considerações finais, pode-se dizer que nesta instituição universitária direcionada à integração cultural latino-americana na Fronteira Trinacional, a construção da integração ocorre para além da noção de Estado, ou seja, por meio da própria sociedade, a partir da construção da identidade cultural latino-americana nas práticas e saberes no próprio sul-mundo. Além disso, pela localização geopolítica de ensino-aprendizagem, a Unila possibilita o cruzamento de saberes latino-americanos na convergencia de povos para a constituição de novas identidades, dentre elas, a de ser, de fato, latino-americano, etapa fundamental para a integração. No mais, é triste saber que a maior parte do tecido social brasileiro, disperso, polarizado, não consegue elaborar leituras e análises político-históricas, caindo no campo simplista das análises conjunturais, do que está dado e posto pela mídia tradicional irresponsável. Esta crítica à incapacidade brasileira de análise para além da conjuntura dada é necessária, pois somente diante de um povo com memória e capacidade crítica será possível combater cafetões algozes vira-latas externos e xenófobos no plano interno para uma dimensão do papel da Unila para a nossa integração cultural latino-americana necessária.

Referências

  1. Constituição Federal do Brasil de 1988
  2. BORGES, Fábio; DARLING, Victoria. A Universidade Federal da Integração Latino-americana [Unila]: desafios epistemológicos em tempos de turbulência política. Revista Latinoamérica, Ano I, edição especial, novembro de 2016.

 

Um Comentário para "Por que defender a Unila dos cafetões vira-latas e xenófobos da República?"

  1. Tatiana Bittencourt   09/08/2017 at 11:15

    É trágico mas era óbvio que isso fosse acontecer pois a pseudo-elite brasileira nunca conseguiu digerir as mudancas trazidas ao país na gestäo do PT. O Brasil se recusa a abandonar a estrutura social de casa-grande e senzala, no qual todos sabem a que classe estäo permitidos os privilégios. Quando as madames dos jardins, em Säo Paulo, passaram a importar babás das Filipinas (pra tratar literalmente como escravas), surgiram as “paneladas” nas sacadas dos prédios enquanto a presidenta se pronunciava em rede nacional. Para essa casta acostumada a explorar o próximo é impossível aceitar a juventude se capacitando e exigindo direitos e salários justos. O que essa direita que tomou o poder na marra no Brasil quer é o retrocesso das conquistas sociais, é a fome, é a desintegracäo latino-americana e cabe à juventude que ja sentiu o gostinho desse empoderamento crítico se lancar na luta e na resistência.

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