Por que Cátedra RBS?

Por Larissa Cabral.

Uma disciplina cujo objetivo seja estabelecer um diálogo entre a universidade e o mercado, a teoria e a prática, nas diferentes áreas de atuação, poderia contribuir muito para a graduação dos acadêmicos de Jornalismo da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), correto? Poderia, mas no meu ponto de vista, não é o que acontece. A Cátedra RBS é ministrada desde o primeiro semestre de 2000, contudo, a noção que ela oferece de realidade prática do Jornalismo é única: a realidade da RBS, como é possível supor pelo nome.

Cursei a Cátedra RBS quando ainda era caloura e, naquela época, poder visitar os estúdios da TV, a redação, a gráfica e conhecer todas as estrelas do grupo responsável pelo oligopólio da comunicação no Sul do país até era sedutora. Atualmente, me deixa decepcionada o quanto essa disciplina é limitada e limitante. Ora, se a intenção é apresentar como atuam os profissionais do Jornalismo, o que há de novo nas práticas e ferramentas e como o veículo se posiciona, por que a RBS é a única fonte de informação, o único exemplo a ser mostrado?

Há alguns dias fui com com uma colega, representando a Cooperativa de Produção em Comunicação e Cultura, à TV Floripa – TV comunitária gerida pela Associação das Entidades do Canal Comunitário de Florianópolis. A emissora ocupa apenas um piso de um prédio, na Avenida Mauro Ramos. São poucos metros quadrados, dividos em estúdio, ilha de edição e uma salinha. Lá ouvi sobre as dificuldades de se manter um veículo com aquelas características, sobre a falta de recursos financeiros e humanos, longe de toda pompa da RBS. Não pude deixar de me perguntar: por que eu nunca conheci isso? Quer dizer, a profundidade da minha ignorância é muito maior, confesso: sinceramente, eu não havia ouvido falar de TV Floripa até há poucos dias.

Mas imagino que, como eu, há vários estudantes e jornalistas, recém formados ou não, que nada sabem a respeito de qualquer outra iniciativa na área da Comunicação Social e, consequentemente, do Jornalismo, além das práticas e dos veículos da RBS. Parte da responsabilidade está em mim, mas acredito que também esteja dentro da universidade. A parceria entre a RBS e o Departamento de Jornalismo da UFSC existe há 12 anos, mas o suposto diálogo entre academia e mercado, acontece em apenas uma direção, afinal, nunca visitamos a TV Floripa, nunca visitamos a Rádio Campeche, a Rádio Udesc ou qualquer outra forma de atuar e pensar (ou veículos de outro grupo, como RIC, por exemplo), que não seja nos moldes já estabelecidos. O diálogo em questão sempre teve a mesma direção, o mesmo interlocutor. E só agora eu penso: Por quê?

Que o contato entre teoria e prática deve existir, enquanto ainda se está na graduação, disso eu não tenho dúvidas. Também não dúvido que, de certo modo, a Cátedra tenha sido válida em alguns aspectos e que seu novo formato possibilita agregar muito mais ao conhecimento dos acadêmicos do que na minha época (cerca de cinco anos atrás). Mas, se não há espaço para diferentes interlocutores no fazer jornalístico e na Comunicação Social, acredito que a intenção seja, no mínimo, questionável.

É necessário que a gente desperte, ainda enquanto estudantes, para a possibilidade do Jornalismo além do “mercado”, para a importância/valor da informação, que não é mercadoria, mas sim ferramenta social. A universidade precisa, sim, nos oferecer diferentes caminhos e diferentes formas, como tem feito, mas também precisa nos mostrar que é possível direcionar nossos olhares para outros protagonistas. Alguns exemplos podem até não ter o famoso “padrão de qualidade Globo”, mas acredito que é daí que podemos tirar as melhores lições.

4 COMENTÁRIOS

  1. Como alguém de fora da área de comunicação me soa absolutamente desproposital e de efeito meramente mercadológico (para a RBS), um curso de jornalismo ter uma cátedra vinculada a uma empresa. Dá idéia de atrelamento do curso aos interesses desta empresa.

  2. Não é novidade para ninguém que o curso de jornalismo é bem elitizado, essa realidade não é diferente de outros cursos de comunicação social do país, mas o que acho interessante é desde 2003 quando montamos a Rádio de Tróia que acabou em 2006, 2004 quando se formou o CMI Floripa e 2007 quando se forma a Rádio Tarrafa, tivemos 2 estudantes de jornalismo nos respectivos coletivos, sendo que 1 não era da UFSC.
    Muito diferente de Rádios livres em outras cidades que tem participação de estudantes de comunicação social.
    Outro dado curso é que em 2005 quando o Zero, jornal produzido por estudantes, fez uma matéria sobre a Tróia, havia distorções enormes sobre a história e objetivos da rádio, ninguém do coletivo havia sido entrevistado e apesar de não dar 200 metros de distancia o trajeto da onde é o curso e nosso estúdio, ninguém do jornalismo foi lá conhecer.
    Em 2007 um outro fato me chamou atenção, uma certa hostilidade de estudantes de jornalismo quando tentávamos no aproximar deles, me parecia cômico que alguém que não tinha nem ao menos se formado já tinha uma postura arrogante.
    Sou inclinado a dizer que não é só a cátedra da RBS que formata corpos dóceis, corações frios e mentes vazias (como diria o Silvio Galo), mas o tecnicismo e uma cultura política altamente autoritária, elitista e fútil presente na instituição e entre a estudantada, sinceramente é de dedar parabéns para aquelxs que não reproduzem esses valores na sua profissão depois de formadxs já que pressão deve ser enorme.

  3. Não sei do que trata essa disciplina, Larissa, mas não vejo problema em que ela exista. Desde que o curso de jornalismo se encarregue de fazer o contraponto crítico, como você assinala. Isso é essencial, senão a iniciativa perde o sentido. Também estive no ano passado na TV Floripa e fiquei agradavelmente surpreso com o que encontrei lá: um grupo de profissionais guerreiros, fazendo TV em condições precárias, mas com muita vontade. A Rádio Campeche é outro ótimo exemplo das possibilidades do jornalismo não-hegemônico que os estudantes do curso deveriam conhecer. Sua reflexão é importante e pode ajudar a coordenação do curso a pensar em como aperfeiçoar o ensino.

    • É isso, Dauro! O pessoal que tenta fazer diferente tem que ser guerreiro mesmo e fazem isso porque acreditam na possibilidade. Temos que enxergar isso desde a universidade. Espero ter contribuído para o debate. Um beijo e obrigada pela leitura e pelo comentário.

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