Por que as séries de TV matam tantos personagens LGBTs?

Por Tory Oliveira.

Alerta de spoiler: Esse é um artigo para quem já assistiu à nova temporada de Star Trek: Discovery ou não se importa de conhecer detalhes sobre a trama 

Star Trek: Discovery, nova série da franquia sci-fi disponibilizada pela Neflix, preparou uma surpresa desagradável para os fãs LGBTs na volta da segunda parte da primeira temporada no início de 2018.

Um dos personagens mais queridos, o Dr. Hugh Culber (Wilson Cruz), aparentemente encontrou seu fim de maneira súbita, ironicamente, poucos minutos após protagonizar um beijo com o seu companheiro, o Tenente Paul Stamets (Anthony Rapp). A cena foi ao ar no episódio 11 em 8 de janeiro.

O falecimento do personagem, gay assumido e casado na trama, é mais um exemplo de uma longa e triste tendência de matar sem rodeios gays, lésbicas e transexuais em séries televisivas.

O lugar-comum tem até nome em inglês: “Bury Your Gays” (“Enterrem seus Gays”, em inglês). E, nos últimos anos, o uso frequente e sem cuidado do recurso tem gerado críticas de fãs e ativistas.

“Entendo que as pessoas estejam chateadas”, disse o ator Wilson Cruz, de Star Trek: Discovery, que também é gay, em entrevista ao Buzzfeed. “Tenho familiaridade com a problemática tendência dos programas televisivos de acabar com seus personagens LGBTs, especialmente quando se trata de pessoas não-brancas”, afirmou Cruz, que tem ascendência latina e um histórico de militância pelos direitos LGBTs.

Talvez o maior exemplo recente seja a revolta após a morte da personagem Lexa (Alycia Debnam-Carey) na série distópica The 100, também poucos episódios após estrelar aguardadas cenas românticas com a protagonista Clarke (Eliza Taylor).

Pior: Lexa morreu subitamente, ao ser alvejada por um tiro direcionado para outro personagem. A situação ecoou a morte de outra personagem lésbica marcante, Tara, namorada da bruxa Willow em Buffy: a Caça Vampiros, que desapareceu da trama de uma forma muito similar nos idos de 2002.

De volta para 2016, a fúria dos fãs chateados com a morte de Lexa fez com que o criador da série, Jason Rothenberg, escrevesse uma carta de desculpas poucas semanas após o episódio ir ao ar.

“Apesar das minhas razões, ainda escrevo e produzo televisão para o mundo real, onde esse tipo de lugar-comum triste e negativo existe. Sinto muito por não reconhecer isso tão bem quanto deveria. Sabendo tudo o que sei agora, a morte da Lexa teria sido feita de uma forma bem diferente”, desculpou-se.

Uma das coisas que se sabe é que, de maneira geral, mulheres, negros, LGBTs e outros grupos minorizados seguem sub-representados (ou mesmo deturpados) nas séries de televisão. Além disso, poucos recebem finais felizes.

Um levantamento do site VOX revelou que 10% de todas as mortes nas séries em 2015-2016 foi de mulheres lésbicas e 3% de homens gays. Apesar da proporção de mortes de héteros ser bem maior, é preciso levar em conta a baixa quantidade de personagens lésbicas e gays. Afinal, é raro que o número de LGBTs em uma produção exceda uma ou duas participações.

Ainda em 2016, em apenas 30 dias, quatro personagens lésbicas/bissexuais morreram, incluindo Lexa. Rose (Bridget Regan) foi assassinada em Jane, a Virgem. Kira, de The Magicians, morreu poucos episódios após ser apresentada ao público. Por fim, Denise (Merritt Wever) também encontrou seu fim em The Walking Dead.

É do encontro da pouca representatividade com a grande mortalidade, como sintetizou este artigo da Hollywood Reporter, que nasce o ressentimento de fãs e ativistas pelos direitos LGBTs diante dessas situações.

É um fato que a televisão nunca esteve tão mortal. Séries como Lost, The Walking Dead e, principalmente, Game of Thrones celebrizaram-se pela máxima “ninguém está seguro”, o que significa que mesmo personagens adorados ou importantes não estão livres de serem ceifados da trama.

Ainda assim, como admitiu Rothenberg no caso do The 100, nada existe no vácuo. E, quando plasmado ao lado da informação de que, apesar dos avanços, o mundo continua um local hostil e mortal para grupos minorizados, o impacto da morte de LGBTs nas telas fica ainda mais grave.

Curiosamente, Star Trek, em sua série original e na subsequente franquia, foi responsável por quebrar tabus importantes como colocar uma mulher negra (a Tenente Uhura) em uma posição não-subalterna na década de 1960 e defender valores humanistas em sua filosofia. No recente filme Star Trek: Beyond, dirigido por J.J.Abrams, o personagem Hikari Sulu foi apresentado abertamente (e naturalmente) como homossexual.

Após a polêmica, os responsáveis por Discovery reforçaram que este caso não cairá na vala comum, prometendo, sem dar detalhes de como isso se dará, novas participações do personagem ao longo da história. Também foi dito que essa parte do roteiro passou pelo crivo da organização Gay & Lesbian Alliance Against Defamation (Aliança de Gays e Lésbicas contra a Difamação). A ver.

Fonte: CartaCapital

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