Por que as perguntas cruciais sobre o furacão Harvey não estão sendo feitas?

Publicado em: 08/09/2017 às 10:55

Por George Monbiot.

Não é só o governo de Donald Trump que censura o debate sobre as mudanças climáticas; é todo o conjunto da opinião educada. Por isso, embora as ligações sejam claras e óbvias, a maioria das reportagens e relatos sobre o furacão Harvey não menciona o papel humano no desastre.

Em 2016, os EUA elegeram um presidente que acredita que o aquecimento global causado pelo homem é uma fraude. Foi o o ano mais quente já registrado, em que os EUA foram atingidos por uma série de desastres relacionados ao clima. No entanto, a cobertura total anual nos jornais de TV no horário nobre e domingo nos canais ABC, CBS, NBC e Fox News foi de apenas 50 minutos. Nosso maior dilema, a questão que definirá nossas vidas, foi simplesmente apagada do debate público.

Não é algo acidental. Nem é, provavelmente, com exceção da Fox News, uma questão de política da empresa jornalística. Isso reflete uma autocensura profundamente enraizada e praticamente inconsciente. Repórteres e editores ignoram o assunto porque, instintivamente, procuram evitar confusões. Falar sobre o colapso climático (um termo melhor, em minha opinião, do que os rótulos curiosamente amenos que atribuímos a esta crise) significa questionar não apenas Trump ou as políticas ambientais e econômicas atuais – mas o próprio sistema político e econômico mundial.

Significa expor um programa que se baseia em roubar o futuro para abastecer o presente, que exige crescimento perpétuo em um planeta finito. Significa desafiar a própria base do capitalismo; informar que nossas vidas são dominadas por um sistema insustentável – um sistema que, se não for substituído, está destinado a destruir tudo.

Afirmar que não há conexão entre o colapso climático e a severidade do furacão Harvey é como alegar que não há ligação entre o verão quente que tivemos e o fim da última era do gelo. Cada aspecto do nosso clima é afetado pelo fato de que as temperaturas globais aumentaram cerca de 4ºC entre a era do gelo e o século XIX. E cada aspecto do nosso clima é afetado pelo 1ºC de aquecimento global causado por atividades humanas. Embora nenhum evento climático possa ser atribuído unicamente ao aquecimento causado pelo homem, nenhum deles deixa de ser afetado por ele.

Sabemos que a severidade e o impacto dos furacões em cidades costeiras são agravados por, pelo menos, dois fatores: maior nível do mar, causado principalmente pela expansão térmica da água do mar; e a maior intensidade da tempestade, causada pelas temperaturas mais altas do mar e pelo fato de o ar quente ser capaz de reter mais água do que o ar frio.

Antes de chegar ao Golfo do México, o furacão Harvey tinha sido rebaixado de tempestade tropical para onda tropical. Mas quando atingiu o Golfo, onde as temperaturas este mês foram muito acima da média, foi elevado primeiro para uma depressão tropical, depois para um furacão de categoria um. Se poderia esperar que enfraquecesse à medida que se aproximava da costa, uma vez que furacões agitam o mar, levando águas mais frias à superfície. Mas a água que emergiu de 100 metros ou mais também estava excepcionalmente quente. Quando atingiu a terra, o furacão havia se intensificado e se tornado um furacão de categoria quatro.

Fomos alertados %u20B%u20Bsobre isso. Em junho, por exemplo, Robert Kopp, professor de Ciências da Terra, previu: “Sem esforços consistentes para reduzir as emissões e fortalecer a resiliência, a Costa do Golfo sofrerá um grande impacto. Sua exposição ao aumento do nível do mar – piorada por furacões potencialmente mais fortes – expõe suas comunidades a um grande risco”.

Levantar esta questão, disseram-me nas redes sociais, seria politizar o furacão Harvey. Seria insultar as vítimas e desviar o foco de suas necessidades urgentes. O momento adequado para discutir isso será quando as pessoas tiverem reconstruído suas casas, e os cientistas tiverem conseguido analisar o tamanho da contribuição do colapso climático para a intensidade do furacão. Em outras palavras, fale sobre isso quando o assunto estiver fora da pauta. Quando os pesquisadores determinaram, nove anos depois, que a atividade humana contribuiu de forma significativa para o furacão Katrina, a informação mal foi divulgada.

Eu acredito que o silêncio é que é político. Noticiar a tempestade como se fosse um fenômeno inteiramente natural, como o eclipse solar da semana passada, é tomar posição. Ao não estabelecer a conexão óbvia e falar sobre o colapso climático, as organizações de mídia deixam de encarar nosso maior desafio. E ajudam a empurrar o mundo na direção da catástrofe.

O furacão Harvey é o vislumbre de um futuro global provável; um futuro cujas temperaturas médias serão tão diferentes das nossas quanto as nossas são daquelas da última era glacial. Um futuro em que a emergência se tornará a norma, e nenhum estado tem a capacidade de reagir. Um futuro em que, como aponta um artigo no periódico Environmental Research Letters, desastres como o de Houston ocorrerão em certas cidades várias vezes por ano. É um futuro que, para pessoas em países como Bangladesh, já chegou, quase sem que a mídia do mundo rico notasse. É justamente o silêncio que faz com que esse pesadelo possa se tornar realidade.

No Texas, a conexão não poderia ser mais evidente. A tempestade devastou os campos de petróleo, forçando plataformas e refinarias a interromper a operação, incluindo as de algumas das 25 empresas que produziram mais da metade das emissões de gases de efeito estufa produzidas pelo homem desde o início da Revolução Industrial. O furacão Harvey devastou um lugar onde o colapso climático é gerado e onde são formuladas as políticas que impedem a questão de ser discutida.

Como Trump, que nega o aquecimento global causado pelo homem, mas que quer construir um muro ao redor de seu campo de golfe na Irlanda para protegê-lo da subida do nível do mar, essas empresas, entre as quais algumas que gastaram milhões patrocinando negacionistas climáticos, aumentaram progressivamente a altura de suas plataformas no Golfo do México, depois de advertências sobre a subida dos mares e a intensificação das tempestades. Elas passaram de 40 pés acima do nível do mar, em 1940, para 70 pés, na década de 1990, e 91 pés hoje.

Mas esta não é uma história de justiça. Em Houston, como em todo lugar, geralmente são as comunidades mais pobres, as menos responsáveis %u20B%u20Bpelo problema, que são primeiro e mais gravemente atingidas. Mas a conexão entre causa e efeito deveria falar até às cabeças mais vagarosas.

O problema não se limita aos EUA. Em todo o mundo, a questão que paira sobre todos os aspectos de nossas vidas é marginalizada, exceto nas raras ocasiões em que os líderes mundiais se reúnem para discuti-la em tons sombrios (para, de modo sombrio, concordarem em fazer quase nada), quando o instinto de acompanhar as maquinações do poder sobrepõe o instinto de evitar um assunto perturbador. Quando cobrem o assunto, tendem a deformá-lo.

No Reino Unido, a rádio BBC, este mês, novamente convidou o negacionista climático Nigel Lawson para o Today programme, na crença equivocada de que a imparcialidade requer um equilíbrio entre fatos e mentiras. A rede raramente faz este tipo de confusão sobre outros assuntos, porque os leva mais a sério.

Quando encarregados de Trump instruem funcionários e cientistas a excluir qualquer menção às mudanças climáticas de suas publicações, ficamos escandalizados. Mas quando a mídia faz isso, sem a necessidade de uma circular, deixamos para lá. Essa censura é invisível até para quem a pratica, entrelaçada que está ao tecido de organizações constitucionalmente destinadas a não perguntar as principais questões do nosso tempo. Reconhecer a conexão humana no colapso climático significa pôr tudo em questão. E pôr tudo em questão significa se tornar um pária.

Tradução de Clarisse Meireles


Fonte: Caros Amigos

 

Deixe uma resposta