Polícia apreende quadro de artista mineira por considerá-lo “imoral”

Publicado em: 15/09/2017 às 10:25

Por Alessandra Mello.

A fogueira da Inquisição já está acesa. E não é exagero. Ontem, aqui em Conexão, mostramos o quanto os reacionários, moralistas, hipócritas, radicais e extremistas tem se assanhado na determinação de controlar o que pode ou não ser arte. E a coisa só piora. Ropre, uma artista mineira, teve sua obra confiscada pela polícia sob acusação de apologia à pedofilia. E, na verdade, o que faz é denunciar crimes sexuais com sua arte. É que o policial não entendeu. E por que não entendeu? Você sabe!

A tela estava exposta no Museu de Arte Contemporânea do Mato Grosso do Sul. Ropre, como a artista é conhecida, diz que a intenção é justamente ao contrário. “Não é apologia. É denúncia”.

Depois da exposição em Porto Alegre, mais uma obra de arte foi censurada. A artista plástica Alessandra Cunha, conhecida como Ropre, mineira de Uberlândia, teve uma de suas telas expostas no Museu de Arte Contemporânea (MARCO) do Mato Grosso do Sul, localizado em Campo Grande, confiscada pela Delegacia Especializada de Proteção à Criança e ao Adolescente (DEPCA) sob acusação de incentivo à pedofilia.

A obra integra a exposição Cadafalso e também é batizada de “Pedofilia”. A imagem reproduz a figura dois homens com o órgão genital aparente, uma menina em tamanho bem menor com olhos bem arregalados e um olho ao fundo com uma lágrima caindo.

A tela traz também a frase “o machismo mata, violenta e humilha” escrito de trás para frente.

Em cartaz desde junho, a exposição termina domingo.

A apreensão aconteceu depois que três deputados estaduais Paulo Siufi (PMDB), Coronel David (PSC) e Herculano Borges (SD) registraram um boletim de ocorrência contra a obra depois de debates acalorados na assembleia por causa da exposição.

A tela foi embalada e levada para análise. A artista e a diretoria do museu serão ouvidas pela polícia e podem ser denunciadas por apologia à pedofilia.

Ropre disse estar chocada com a apreensão e considerou o confisco da obra “arbitrário ” “já que a pintura não é obscena e nem faz apologia a nenhuma violência”.

“O tabu sobre o tema é tão grande, que não se pode usar a palavra pedofilia como título de uma pintura que ela será confiscada pela polícia”, questiona a artista, cuja obra apreendida já foi exposta em outros locais sem causar celeuma.

Segundo ela, as 32 pinturas que estão expostas no MARCO chamam a atenção para um tipo de comportamento dentro do ‘sistema machista’ e cada obra tem títulos questionadores que denunciam alguma situação de violência, opressão e submissão social.

“E na imagem que ofendeu aos homens políticos não há nada obsceno, trata-se de uma criança, estilizada, de olhos arregalados, no meio de dois homens com seu órgão sexual ereto. Não é apologia, é denuncia. É um grito silencioso, porém colorido, de que isso acontece na nossa sociedade”, afirmou a artista.

Para ela, a censura a sua obra e a também a interrupção antes do tempo da exposição Queer Museu – Cartografia da Diferença na América Latina, em Porto Alegre, depois de uma campanha do Movimento Brasil Livre reflete “o quão doente estão os políticos do país”.

A reportagem ligou para o Museu e para a delegacia, mas nenhuma das duas instituições o telefone atendeu.

Fonte: Conexão Jornalismo.

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