PM reprime bloco carnavalesco em SP com bala de borracha e apreende instrumentos

Por Maria Teresa Cruz.

Vídeo mostra policiais arrancando instrumentos das mãos de duas mulheres e um dos agentes chega a empurrar uma delas; um integrante da Fanfarra Clandestina foi atingido por bala de borracha.

A Polícia Militar reprimiu na noite deste sábado (23/2) o desfile do bloco carnavalesco Fanfarra Clandestina, no centro de São Paulo. Um vídeo obtido pela Ponte mostra o momento em que policiais arrancam os instrumentos dos músicos do grupo e chegam a empurrar uma mulher. Na gravação é possível ouvir barulhos de tiros de bala de borracha. Pelo menos um integrante do grupo foi atingido nas costas à queima-roupa, segundo relatos de testemunhas, e teve que passar por atendimento médico neste domingo (24/2).

É o terceiro ano que o bloco sai no carnaval paulistano. O grupo estava já no final do desfile, em uma das alças de acesso ao Elevado João Goulart, o Minhocão, bem embaixo da Praça Roosevelt, quando aconteceu a ação policial.

Em entrevista à Ponte, uma das participantes do bloco, que pediu para não ser identificada, afirma que a atitude da polícia foi desproporcional e não houve espaço para qualquer diálogo. “Eu fui perguntar para os policiais por qual motivo os instrumentos estavam sendo levados, qual era a alegação, a acusação, só que não houve espaço para diálogo. Eles estavam na intenção de levar os instrumentos. Eu levei uma chave de braço e fui detida. Eu vejo que como é abertura do carnaval, eles [governo e prefeitura] estão tentando fazer uma propaganda de como vai ser, de quem é que manda. Aquela coisa de mostrar para os outros blocos pequenos, que não estão cadastrados, o que vai acontecer se sair para a rua”, analisa.

A sousafone, um dos instrumentos que aparecem no vídeo sendo carregados e levados para a viatura pelos agentes, foi danificado. “Eles pisaram em cima do instrumento, distorceu completamente. Não dá pra ter noção do prejuízo, mas calculo que no mínimo R$ 500. Uma parte do instrumento caiu no chão, que é o bocal, se considerar isso também, o valor já sobe para uns R$ 1 mil”, calcula a jovem.

Dois momentos da ação policial: agente dá uma gravata em garota e instrumentos são levados para a viatura | Foto: reprodução

Para ela, o que aconteceu na noite de sábado não pode ser visto como algo pontual e sim ser entendido como um entendimento político de todo esse processo de ocupação da cidade. “Foi político. Eu faço parte de outros blocos, a gente está nessa luta de blocos que não necessariamente se cadastram, até porque eu acredito que a gente não precisa dar satisfação do uso da rua, da ocupação da rua, que é pública. A prefeitura, por outro lado, está promovendo o carnaval, tem o patrocinador, que é a Ambev, e eles fecham as ruas para os blocos que eles gostam, que eles organizam. E quando você vai tentar fazer o bom e velho carnaval dos blocos menores, sem cordão, eles estão tentando criminalizar. Porque o carnaval virou negócio. Eu vejo como uma disputa política da cidade e uma disputa de poder, aquela coisa de ver quem manda mais”, explicou.

Pelo menos um integrante chegou a ser detido, mas liberado na presença do delegado que concluiu que não havia crime. “Delegado nem quis olhar pra mim. Eu desci do camburão e fui dispensada. É aquele showzinho deles, né?”. A Ponte enviou o vídeo para a assessoria privada da SSP (Secretaria de Segurança Pública), a In Press, e questionou se a conduta do policial foi adequada, bem como o que a corporação pretendia fazer com os instrumentos, em um primeiro momento levados até a delegacia e, sem seguida, devolvidos. Até o fechamento da reportagem, não havia retorno.

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