‘Pessoas em situação de rua são invisíveis’, diz defensora que auxiliou mulher em parto na calçada

‘Pessoas em situação de rua são invisíveis’, diz defensora que auxiliou mulher em parto na calçada

Por Fernanda Canofre.

Era perto das 7h da manhã de quarta-feira (23) quando a defensora pública Patrícia Ketterman chegou para trabalhar no prédio da Rua Sete de Setembro, no Centro Histórico de Porto Alegre. Com o tempo na Defensoria Pública do Estado, Patrícia adquiriu o hábito de chegar cedo ao trabalho, antes que o atendimento ao público comece, para colocar ordem nas coisas. Quando se dirigia à portaria principal, encontrou um casal. A mulher gritava de dor.

À primeira vista ela disse que não percebeu o que estava acontecendo. A mulher tinha uma “barriguinha” saliente, mas o homem que a acompanhava garantia que não era gravidez. Os dois em situação de rua, já estavam esperando no local há algumas horas. O homem contava que havia tentado levar a companheira – que também tem distúrbios psicológicos – a dois hospitais, mas que nos dois haviam sido “tratados feito bicho”.

“Na Defensoria, a gente conhece essa realidade. Pessoas em situação de rua e com um sofrimento mental, realmente são invisíveis. Quando não são maltratados, eles não são tratados. A princípio, não há consequência, ninguém se importa mesmo”, afirma Patrícia.

Enquanto a mulher seguia gritando de dor, o homem tentava explicar que ela sofria de uma infecção ginecológica e que precisava ser internada. Para a defensora, ele contou que havia gasto todo o dinheiro que ganhou vendendo artesanato de Natal em táxis, tentando encontrar um lugar que recebesse a mulher.

Depois de rodar por horas em emergências e sem ajuda, o casal foi parar na porta da Defensoria, onde o homem pensou que poderia conseguir uma ordem obrigando o hospital a receber sua mulher. Patrícia chamou uma ambulância da Samu e pediu que eles esperassem.

O homem foi ajudar a mulher que gritava ainda mais forte de dor a se deitar atrás de um contêiner de lixo. Sem comer desde às 16h do dia anterior, ela estava com hipoglicemia. Ele dizia que a ‘infecção dela estava vindo para fora’. Nenhum dos dois imaginava o motivo real da dor.

Patrícia esperava pela Samu e acompanhava o casal com o canto dos olhos. Em uma olhada, viu que o homem tirava a camiseta. Na segunda, ele já tinha nos braços um bebê.

A mulher em situação de rua, com dores e rejeitada em dois hospitais de Porto Alegre, deu à luz, atrás da lixeira a uma menina de 32 semanas e quase 3kg, cheia de saúde, apesar de tudo.

Jornada noite adentro

O que se sabe da noite do casal que teve o parto da filha às portas da Defensora é apenas o que o homem contou à Patrícia Ketterman na manhã do nascimento surpresa da criança. Segundo Ketterman, o relato é “coerente” com os fatos apurados pela DPE desde quarta-feira.

Depois de ouvirem no primeiro hospital que o atendimento não era ali, o casal foi aceito no segundo por volta das 4h. Um prontuário com o nome da mulher está registrado no local. Naquela manhã de quarta, ela ainda tinha na mão esquerda o acesso pelo qual lhe colocaram soro. Enquanto o hospital sustenta que a mulher fugiu do local e o município a questiona por não ter feito pré-natal; o casal garante que ela foi liberada e não quiseram interná-la.

“É quase uma tentativa de culpabilizar a vítima pelo que aconteceu. Não há justificativa. A gente está falando de uma mulher em trabalho de parto, não existe ‘não é aqui’. Não é aqui e foi na Defensoria. Isso não é uma justificativa válida”, diz Patrícia.

A defensora pública questiona também a alegação de que a mulher teria fugido do hospital. Segundo ela, se isso tivesse ocorrido, a própria instituição teria falhas graves a responder. “Vamos supor que ela conseguiu fugir, onde estava essa mãe que tem visíveis problemas psiquiátricos e conseguiu se evadir do hospital nessa condição? E a proteção ao bebê? E a proteção a ela própria? Onde ela estava que foi tão fácil escapar?”, questiona.

Ela também questiona por que o hospital não chamou a polícia, para comunicar busca ativa de uma paciente psiquiátrica que colocava em situação de risco a si mesma e ao bebê. Além disso, há o detalhe de que o próprio casal foi buscar ajuda da Defensoria nas primeiras horas da manhã. “Não teria porque fugir, se o que eles queriam era atendimento”, aponta a defensora.

Caso não é exceção

Enquanto um caso com desfecho feliz, apesar de todas as circunstâncias desfavoráveis, pode ser milagre, as dificuldades enfrentadas pelo casal em situação de rua não tem nada de raras.

Patrícia Ketterman diz que casos de instituições de saúde se negando a atender pessoas nas mesmas condições do casal, apesar de ainda não serem regra, têm se tornado mais frequentes na Defensoria Pública. “Essas pessoas precisam ser vistas pelo sistema de saúde de outra maneira, precisam ser respeitadas. ‘Morador de rua, quem é que se importa mesmo?’ Importa. E vai começar a ter responsabilização. Já temos outros casos na Defensoria, isso é muito sério e é inadmissível”, diz ela.

O caso dos pais do bebê é muito simbólico da invisibilidade que cerca a população de rua. Ele, um homem de 45 anos que vive nas ruas desde os 6; ela, uma mulher de 40 anos, com problemas mentais, que foge da família. Duas histórias frequentes de se ouvir nas ruas. Mesmo chegando de táxi nos hospitais, os dois continuaram sem serem vistos.

Depois do parto e de um tratamento na Santa Casa, a mulher teve alta e seguiu para a casa de parentes que foram contatados pela Defensoria. O acordo não durou muito tempo. A família agora está sendo acompanhada pela assistência social, que apura se o casal pode ou não ficar com a criança.

A Defensoria Pública segue investigando as circunstâncias de atendimento prestadas à mulher em trabalho de parto durante a madrugada do dia 23. O órgão também está em busca de tutelar os direitos da família que foram agredidos. As apurações devem ser concluídas em dez dias.

Para a defensora pública, que por acaso encontrou o casal, essa foi uma história que a deixou dividida entre a impotência e a vontade ainda maior de mudar a realidade atual. “Pra mim, isso é muito binário. Quando um direito dessa natureza, tão básico, tão fundamental da mãe e do bebê é violado, isso me causa uma revolta assim…Tu quer mover o mundo para impedir que isso aconteça de novo”, definiu ela.

Fonte: Sul21

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