Pela luz que vinha de fora

Publicado em: 15/02/2014 às 10:26
Pela luz que vinha de fora

 

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Por Luciane Recieri Dallabrida*, para Desacato.info.

Foi sem jeito que escreveu que Olga Benário também elaborava longas cartas na prisão. Disse isso porque perguntou. Ficou sem graça em levantar a mão e dizer, mas…
Eram cartas para Anita Leocádia, a filha que o Getúlio achou no direito de tirar. Além das cartas, pequenos mapas que guardava em caixas de fósforo pros guardas não acharem. Os mapas? Exercícios para manter a consciência, sofria desta doença, sabe? Fazia exercícios físicos também, isso para não congelar na cela. É isso. Ficou sem graça em levantar a mão e falar, apesar de ter perguntado. Ficou. Sempre ficava na presença de atores e professores.
Era a sua colaboração, escreveu e ainda pediu:
Citou vários homens. Um dia cita a Olga? Uma mulher.
A conversa não rendeu, mas não precisava render. Se tem coisa que não fazia na vida é coisa com intenção. Teve um tempo na vida em que pegava o ônibus das 10 e isso todo santo dia, salvos os dias santos. E, numa feita dessas, o moço do guichê disse que estava encalacrado na aula de Arte, ora, o que é Arte aqui? É um luxo! O professor de Sociologia do Cinema havia dito que erudição não cabia no sistema capitalista, sim, não cabia de modo que o moço do guichê falou que não tinha tempo pra arte e que estava encalacrado. Ela se pôs à disposição, disse que pesquisava na biblioteca e que fazia o desenho, (tinha um pouco de facilidade com desenho) Certo. Entregue o trabalho, o moço perguntou se ela estava a fim dele. Não! Era só solidariedade. Sim. Só solidariedade.
E continuava: trocados dois livros, o negócio não rendeu, não era mesmo pra, mas teve um dia, num rompante de coragem que pediu a sua mão. Ela sempre pedia as mãos, nunca teve reserva, contrariando os preceitos que teve sua geração, pedia a mão se a mão me lhe fazia falta e foi assim mesmo que ela disse:
– Acho que vou pedir a sua mão. Pode completar a minha ora ou outra? Gosto de seu jeito de lançar ideia. Me dá? Abraço. E a resposta foi evasivamente positiva:
– Você é poética até quando não é!
E ainda falaram duas linhas sobre Kundera e ela se encheu de razão e perguntou se isso era um “SIM” ao seu pedido da mão ora ou outra. Ele riu com gosto e falaram mais duas sinestésicas linhas.

Noite passada, em sua cela, começou esta carta que terminou assim esta manhã:
– Pai, pedi a mão dele, mas é só na figuração. Ele é ator dos bons, mas aceitou fazer figuração dessa vez. Nunca mais saio daqui, pai. Presa pra sempre. Ele é ator, lá fora vai dizer o que vai aqui. Sem mais, te beijo com saudade.

Escreveu.
Sabia que era quase cinco pela luz que vinha de fora.

*Luciane Recieri Dallabrida, escritora, residente em Jacareí, São Paulo, colabora com Desacato.info desde a fundação do Portal.

Imagem tomada de: http://www.jornalgrandebahia.com.br/2013/08/o-stf-e-a-expulsao-de-olga-benario-por-vladimir-aras.html

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