Parteiros do ódio

Por Raul Fitipaldi, para Desacato.info.

O Sul não é o meu país. Não quero portar armas. Não me interessa que ninguém aprenda religião numa escola pública. Não quero que esqueçam que nada há de mais corrupto que um banco e uma transnacional. Não quero curas gays e nenhuma cura indicada pela classe mais doente da sociedade. Não quero que louvem a vida os parteiros do ódio.

Os efeitos do golpe de Estado no Brasil são os efeitos de todo golpe de Estado. Quando você reprime a capacidade da sociedade de se expressar porque está submetida à opinião única e publicada por uma mídia monopólica prenhe de analistas indecentes, de gestores conservadores e que tem asco da população, você vira um espírito primário e enlouquecido. Quer sangue, quer que outro morra por você, quer sentir ódio, quer linchar, quer que outro pague pelo seu pesar. Você vira uma arma contra você mesmo. Você é instrumento do ódio.

O golpe escancarou o ódio ao indígena, ao negro, ao gay, ao morador em situação de rua; ódio ao pobre, ódio em definitivo a uma classe, a explorada. Ódio gerado, organizado, amplificado, distribuído, massificado pelos parteiros do ódio.

Não é de agora. Não é contra tal o qual partido de esquerda, embora pareça a primeira vista. É mais do que ódio a um líder político ou social. É mais do que ódio ao outro, é ódio a si mesmo. É ódio por ser uma elite bruta, que nasceu decadente para ser pretensa cópia da Europa e virou servil criada do filho tardio e criminoso da velha senhora, o mais violento e maior império da história. A elite brasileira se odeia. É uma crente adoecida que não sai do purgatório por seus pecados miseráveis. Seus pecados em troca de ser recebida nos covis de Paris e mijar nos banheiros de Miami.

Homens e mulheres das elites brasileiras viraram quadrilha há muito tempo. É o modus vivendi de uma casta de segunda categoria, um rejunto para tampar os buracos que deixaram os colonizadores. A elite que procura desfilar entre os novos ricos, os novos bilionários. Uma elite inculta, com apenas uma pátina de conhecimento enciclopédico. Uma elite crua, grosseira, piorada no coito com a nova ricalhada.

Sempre mataram, sempre estupraram, violaram, roubaram, estrangeirizaram, corromperam, legislaram em próprio favor. Não é de agora não. Os milhares de mortes violentas que sofre o Brasil de negros, índios, mulheres. As desaparições forçadas, as mutilações, o roubo infinito de terras e riquezas, nada disso é de agora. O golpe apenas torna explícito o que sempre foi essa elite apátrida, atrasada e eternamente foragida.

Ela e seus novos ricaços comparsas são os parteiros do ódio. Ela e seus juízes, seus congressos, seus meios de incomunicação e envenenamento social.

Um dia haverá que não existirá mais essa elite e se poderá parir vida nesse país continental, irmão amado de todos os outros que compõem a Pátria Grande e que serão uma nação só, uma nação dos povos.

Pintura: As bruxas, de Goya.

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