Paradoxos e hipocrisias de alguns líderes políticos na VIII Cúpula das Américas

Cúpula das Américas. Foto: Cris Bouroncle AFP

Por Elissandro Santana, para Desacato.info.

Antes de discorrer acerca do objetivo que motivou esta reflexão, ou seja, sobre os paradoxos e hipocrisia de alguns líderes de Governo e de Estado americanos presentes na VIII Cúpula das Américas que, mesmo acusados de corrupção, ainda assim, foram debater governança e democracia frente à corrupção, confesso que, há dias, estou tentando entender como o cinismo se configura em todo o Continente e como, infelizmente, toda a América ainda é governada por machos, o que demonstra que estamos, todavia, sob a égide dos valores patriarcais em latência em todos os campos, em especial, na política.

Diante de uma cúpula com muitos corruptos em circulação, esperava a mobilização expressiva de movimentos sociais contra alguns dos líderes no evento, mas isso não se deu devido ao fato de que como a América Latina está sangrando, no seio de cada país, os movimentos sociais de esquerda (que são os que, de fato, lutam contra a corrupção) se encontram em operação e em atuação interna, o que, talvez, tenha inviabilizado o fluxo de protestos. No Brasil, por exemplo, há dias, diversos grupos sociais montaram um acampamento em Curitiba em apoio ao Ex-Presidente Lula, pois este foi preso antes do trânsito em julgado, o que Constitucionalmente é ilegal, por um judiciário partidário, historicamente e comprovadamente, a serviço das elites e contra os pobres.

Retomando o meu assombro em relação à questão de que os postos máximos do executivo e do parlamentarismo são ocupados por machos, dependendo do país, na América, na totalidade, na atualidade, a semiótica da imagem de cada chefe nas fotos no site da VIII Cúpula das Américas me causou uma sensação de passado, de retrocesso e, de repente, me vi diante do episódio de que bem recentemente tivemos três mulheres no poder na América do Sul, região que se mostrava, ainda que a duras penas, capaz de se renovar e revolucionar, inclusive no campo político. Mas tudo não passou de um sonho, pois as forças reacionárias abateram, com força, mais uma vez a tão explorada América Latina com golpes e irresponsabilidades midiáticas a serviço das elites coloniais inconformadas com certas mudanças que estavam em execução na pirâmide social e nas linhas de poder na região.

A semiótico-semiologia do governo dos machos e para os machos com a exclusão de minorias sociais, dentre elas, a mulher, população negra e LGBTS da esfera política dos cargos mais altos é uma dura realidade em toda a América. Para que tenham uma dimensão do quadro, no mínimo, de exclusão, para não colocar outros adjetivos ou locuções adjetivas, sugiro que observem as imagens das lideranças do Continente no site da Cúpula e nos quadros que apresentarei a seguir.

Foto Oficial da VIII Cúpula das Américas

É evidente que nem todos os machos que aparecem na foto se apoiam no patriarcalismo em latência, tanto que em algumas nações, nos Congressos ou Ministérios, a presença das mulheres é bastante significativa. Por exemplo, em pesquisas divulgadas em março do corrente ano no Brasil, no que diz respeito ao ranking dos 190 países sobre a presença feminina nas Câmaras dos Deputados ou no Senado, em alguns países chamados de Parlamento, dos 10 países com mais participação feminina, quatro deles estão na América Latina, com a Bolívia em segundo lugar em âmbito geral e em primeiro em todo o Continente, seguido por Cuba, que no mundo fica em terceiro lugar e em toda a América em segundo. Com base nos resultados divulgados, nosso país ocupa a última posição na América Latina e figura entre os 152 em todo o Globo. Em relação a esta Esses dados sobre participação feminina podem ser comprovados através do Inter-Parliamentary Union – IPU (de dezembro de 2017).

Retornando a discussão específica em torno da VIII Cúpula das Américas, cabe sinalizar que ela ocorreu entre 13 e 14 de abril de 2018, em Lima, no Peru, (país em que nos últimos dias houve a renúncia do presidente por envolvimento em corrupção). No referido encontro, os Chefes de Estado e de Governo das Américas abordaram discussões sobre “Governança Democrática contra a Corrupção”, o que, em alguns casos, em minha opinião, configura-se paradoxal e deveria ter sido constrangedor, pois alguns políticos presentes no evento são acusados de corrupção em seus países de origem, como é o caso do Presidente do Brasil, Temer.

É importante destacar que as Cúpulas ocorrem de três em três anos e possibilitam que os líderes políticos americanos definam, conjuntamente, uma agenda hemisférica que atenda aos desafios urgentes e necessários para a promoção de mudanças em todas as nações americanas.  

Durante a Cúpula, os temas que dominaram os debates foram Síria e Venezuela. No que concerne à Síria, evidenciou-se o temor de alguns líderes acerca da possibilidade da escalada militar na região do Oriente Médio após a onda de ataques dos Estados unidos em parceria com alguns de seus sequazes políticos europeus.

Quase todos os governantes do Continente se mostraram preocupados com a questão do uso de armas bioquímicas, pretexto utilizado por Trump para invadir a Síria em uma nova cruzada do Ocidente contra regimes como o de Bashar al-Assad, mas sabemos que há controvérsias em relação aos reais motivos do governo estadunidense para o ataque.

Voltando ao debate central da Cúpula, o cinismo foi o grande elemento mais marcante no evento, pois uma das figuras mais corruptas da América, Temer, o presidente brasileiro do golpe, estava lá presente com sua mesóclise em tergiversações e discursos hipócritas como o de que não se pode tolerar a corrupção e os desvios de conduta. Ele ainda ressaltou que é na democracia que temos transparência. Uma imprensa livre e uma opinião pública vigilante que são capazes de fiscalizar, sem trégua, como devem ser as ações do poder público; que é na democracia, afinal, que temos o Estado Democrático de Direito.

A fala do Presidente investigado por recebimento de propinas, com materialidades divulgadas até mesmo pela mídia empresarial golpista mais poderosa do Brasil, deve ter impressionado os líderes de outras nações, mas como nesses espaços de poder, a burocracia maquia tudo, o chefe brasileiro teve voz e vez.

Outro ponto que chama a atenção é o fato de que Trump não compareceu à reunião, mas o Vice-Presidente da maior potência das Américas deixou bem explícito os posicionamentos do líder conservador estadunidense acerca da Síria, da Venezuela e outras questões.

À guisa de considerações finais, externo que a VIII Cúpula das Américas que poderia ter sido um espaço de interlocuções geopolíticas para a promoção de soluções para o Continente e para o Mundo, infelizmente, transformou-se em um palco pelo qual circularam alguns políticos corruptos defensores da democracia e do combate à corrupção, mas de forma cínica, no mais alto grau.

Elissandro Santana é professor da Faculdade Nossa Senhora de Lourdes, membro do Grupo de Estudos da Teoria da Dependência – GETD, coordenado pela Professora Doutora Luisa Maria Nunes de Moura e Silva, revisor da Revista Latinoamérica, membro do Conselho Editorial da Revista Letrando, colunista da área socioambiental, latino-americanicista e tradutor do Portal Desacato.

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