Para além de um título bonito, um filme instigante

Por Magali Moser.

Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios. A poesia do título me bastou para querer ver o filme. Um nome com tamanha sensibilidade só podia resumir uma boa história. A suspeita me levou até o cinema na estreia em Blumenau, sexta-feira. Triste ver a sala vazia justamente no dia do lançamento do longa nacional por aqui. Éramos quatro espectadores. Torço realmente para que o episódio não represente um indicativo de que o filme não será bem recebido pelo público. No decorrer de uma história que passeia por tempos distintos, a produção de Beto Brant e Renato Ciasca (parceiros em filmes como “Cão Sem Dono” e “O Invasor”) mostra ser bem mais que um título bonito.

Evitei ler sobre o filme antes, mas saí da sessão absorvida pelo desejo de devorar o livro homônimo de Marçal Aquino, lançado em 2005 – que inspirou a produção. Transformar as 232 páginas do livro num longa com 1h40min certamente se reveste de um desafio tremendo, o que de certa forma pode explicar a dificuldade de transpor a complexidade da história e dos personagens para as telas. O filme deixa lacunas. É superficial ao abordar a forma como Lavígnia, a protagonista, conhece Cauby. Também não contextualiza a história do fotógrafo que aparece sem que o espectador saiba ao certo de onde veio. No decorrer da trama, dá pistas sobre seu passado, no Sul, sem no entanto aprofundar detalhes. Mas a ausência desses elementos abre espaço para a imaginação buscar respostas não reveladas e nada disso compromete o resultado final.

A história em si talvez não seja o mais interessante na obra, e sim a maneira como os personagens se relacionam e a incorporam. Com uma narrativa envolvente, a trama se baseia num triângulo amoroso. Mostra quanto o amor pode interferir, mudar completamente o destino das pessoas e deixar sequelas irreversíveis.

A não linearidade da história nos leva a conhecer a instabilidade e as diferentes facetas da protagonista Lavígnia. Ex-garota de programa que acompanha seu marido, o pastor Ernani (Zé Carlos Machado), em missão no Pará e mantém um caso tórrido com o fotógrafo e forasteiro Cauby (Gustavo Machado). A ilimitada gratidão e devoção de Lavígnia ao pastor que a tira das ruas e das drogas incomoda. Vivida por Camila Pitanga, Lavígnia ganha força. A entrega da atriz à personagem ocorre de forma visceral e transpira em cada cena. Garante a profundidade e complexidade exigida por Lavígnia. Por experimentar situações que vão de um extremo ao outro, Camila Pitanga se transforma em cena e mostra o quão entregue está ao papel. Merecidamente recebeu o prêmio de melhor atriz no Festival do Rio em 2011, além de vários elogios da crítica. O filme também foi premiado em Huelva, na Espanha, e na Mostra Internacional de São Paulo

O cenário onde é ambientada a história rende cenas belíssimas, através da fotografia de Lula Araújo, profundo conhecedor da região. Santarém, no Pará, serve para boa parte das locações e revela questões culturais e regionais peculiares. Além das imagens de belezas naturais da região, a utilização de não atores e figurantes locais transparece ainda mais naturalidade à trama, cria uma atmosfera real. Há de se registrar ainda as participações do malicioso colunista social (recuso-me a tratá-lo como jornalista!) Viktor Laurence (Gero Camilo) que vão do cômico ou romântico ao fazer citações literárias adaptadas ao contexto. As conversas entre ele e Cauby também podem ser consideradas ponto alto do filme, ao discorrerem quase sempre sobre o amor e a morte. As frases ditas por alguns dos personagens também não passam despercebidas e rendem reflexões: “Não há paixão sem luta”, “Santa é a carne que peca”.

O filme pode pecar pela falta de ritmo em alguns momentos. Mas o surpreendente desfecho certamente é compensador. Fez-me sair da sala de exibição feliz por ver o cinema brasileiro ousar, buscar novos caminhos e temáticas, com uma produção que se distancia da miséria e violência. Vejo um cinema nacional ávido por descobrir novas facetas. Afinal, o cinema vai além de um mero entretenimento. É arte que serve para refletir, analisar, despertar interesses, explorar contradições da condição humana. E isso Eu Receberia as piores notícias de seus lindos lábios faz com êxito.

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