Ouvidos na liberdade. Por Claudia Weinman

Imagem: Pixabay.

Por Claudia Weinman, para Desacato. info. 

-Alô, mãe?

-Tô ouvindo a TV no volume 21!

As palavras sorriram pelo telefone.

Um silêncio meu. Um riso envergonhado dela que precisava do volume em 100 para entender o que diziam na televisão.

Uma anedota dessas, não é pouco caso.

A gente esperava nas cadeiras ali da clínica, pelo chamamento. Minha mãe sentou- se e ao seu lado uma sacola ocupava o lugar. Suspeito que tenham criado agora cadeiras para sacolas e não para gente, então eu e Pedro, meu companheiro, fomos para o outro lado aguardar.

Eu e a mãe nos olhávamos. Ela balançava uma das pernas continuamente, como toda pessoa ansiosa. Veio às 11h e o nome dela mencionado pela recepcionista.

Adentramos a sala. Todas ali são treinadas para falar bem alto, afinal, o público que atendem é de pessoas com dificuldade auditiva.

Olhei as caixinhas, uma emoção me tomou. Já estava escrevendo esse texto ali, olhando para ela que nem sabia que redescobriria alguns sons que por tanto tempo estiveram omitidos do seu dia a dia.

No dia a dia minha mãe e as irmãs trabalhavam já aos 13. O som das máquinas era intenso, ensurdecedor. Por isso ela estava ali e eu a observando, na sala da especialista em pessoas com necessidade auditiva.

Ela retirou da caixa para explicar o significado. Mas meu avô nunca explicou a razão de tanto trabalho para meninas tão jovens em lugar fechado, úmido, um poço de água que subia às canelas e causava infecção na bexiga e tudo mais.

Mais nada! Era festa nos olhos da mãe. Ouvir, ouvir, ouvir novamente!

Volume no 21, adaptando o falar. Precisa reaprender. Ela ouve à si, ouve aos outros, me entende. Como Mais ninguém. Entende demais essa vida, embora nunca tenha frequentado uma escola.

Ela é minha, minha mãe, que redescobre o sentido de ouvir a vida e para não perder o costume de falar em política, isso tudo é graças ao SUS, esse que o Bolsonaro quer acabar!

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Claudia Weinman é jornalista, diretora regional da Cooperativa Comunicacional Sul no Extremo Oeste de Santa Catarina. Militante do coletivo da Pastoral da Juventude do Meio Popular (PJMP) e Pastoral da Juventude Rural (PJR).

 

A opinião do autor/a não necessariamente representa a opinião de Desacato.info.

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