Os verdadeiros covardes vão para Teerã

Por Pepe Escobar.

(Português/Español).

Imagine o sonho molhado clássico dos neoconservadores dos EUA: olham o Irã num mapa e salivam, vendo entroncamentos entre Europa e Ásia, entre o mundo árabe e o subcontinente indiano, entre o Mar da Arábia e a Ásia Central, com 10% das reservas comprovadas de petróleo (mais de 150 milhões de barris) e 15% das reservas comprovadas de gás do mundo – um complexo de energia maior que a Arábia Saudita e fiscal das rotas de energia do Golfo Persa para o ocidente e a Ásia, pelo Estreito de Ormuz.

É feito um capitão de poltrona gordo e flácido, hipnotizado por bailarina competente que dança em seu colo. Você será minha, honey. É mudança de regime na veia. Vamos expulsar de lá o dono daquele boteco. Se não… O pessoal vai começar a falar: que porcaria de potência hegemônica franga é essa?!

E assim os neoconservadores ganharam seu pacote de Ano Novo, com as sanções/embargo do governo de Obama contra o Irã, devidamente replicadas pelos poodles europeus. Mas não era para dar no que deu. A bailarina de lap dance saltou e aplicou uma chave de pescoço no capitão de poltrona: agora, quem está sufocando é ele, não ela. A coisa toda está… dando chabu! Exatamente como a outra Grande Ideia dos neoconservadores – a invasão, ocupação e inevitável derrota no Iraque, que já custou mais de US$1 trilhão.

Baby, me embargue de novo

Revisemos algumas das provas mais recentes. Teerã mandou dois navios de guerra pelo Canal de Suez, rumo ao Mediterrâneo; bloquearam – nada mais nada menos – o porto sírio de Tartus. Nem faz muito tempo, o ditador já caído em desgraça e amigo íntimo da Casa de Saud teria, provavelmente, bombardeado os dois navios.

Teerã cortou as exportações de petróleo para os dois principais europeus poodles de guerra, Grã-Bretanha e França. É só 1% das importações britânicas e 4% das francesas – mas a mensagem é clara: se os países Club Med já em depressão insistirem em acompanhar os doidos-por-guerra anglo-franceses, os próximos serão eles.

O barril de cru já está custando $121 – preço mais alto, em oito meses. West Texas Intermediate, negociado em New York, está em torno de $105. O cru brent é crucial, porque determina o preço da gasolina ao consumidor em quase todos os EUA e Europa Ocidental. Os neoconservadores juraram sobre suas Bíblias e Torahs que o preço não subiria. Já subiu – funcionando como relógio e provando mais uma vez que eles sabem, sobre especulação, o que sabe um bebê de dois anos (com todo o respeito pelos bebezinhos).

O que Teerã está perdendo por causa das sanções – em termos de menores exportações para a Europa – está sendo largamente compensado pelo aumento do preço do petróleo causado pela obcecação por guerras dos neoconservadores doentios. Como se não bastasse, Teerã venderá mais petróleo para seus principais clientes asiáticos – China, Índia, Japão e Coreia do Sul; e até a Turquia, vejam só, em planos variados de diplomacia, já disse que Washington vá lamber sabão e cuidar da própria vida.

Como Asia Times Online já noticiou, demorou um pouco, mas Irã e China acabam de selar um novo acordo de preço do petróleo. E o gasoduto Irã-Paquistão é questão resolvida. E Afeganistão e Paquistão – como o Irã – querem muito ser admitidos à Organização de Cooperação de Xangai [ing. SCO], acelerando a integração econômica regional.

O fato de os lobbystas pró-Israel que redigiram o pacote de sanções não terem previsto que tudo isso aconteceria só prova, mais uma vez, que vivem a vida vegetativa de homens ‘de ação’ de capitães de poltrona.

Os papagaios neoconservadores ficaram agarrados à conversa fiada das “sanções debilitantes” e blá-blá-blá. Ou à porta-voz do Departamento de Estado, Victoria Nuland, casada com o neoconservador Robert Kagan, que garantia que todos esses países seriam pressionados a fazer o que pudessem “para aprofundar as sanções, sobretudo para que se desliguem do cru iraniano.” Ninguém está “se desligando” de coisa alguma, exceto ospoodles europeus especialistas em se autoderrotar.

Está também aí, afinal exposto, o mito da ‘capacidade reserva’ da Arábia Saudita. Não existe. As reservas sauditas diminuem à velocidade de 3% ao ano (a Arábia Saudita está exportando 11,8 milhões de barris/dia, e diminuindo). Além do mais, a Casa de Saud não quer extrair mais óleo, porque precisa dos altos preços, para continuar subornando a própria população, para que ninguém pense em primaveras árabes.

Mas há ainda uma cereja sobre o bolo, deliciosa demais para deixar sem anotar. Apesar das ‘sanções debilitantes’, o banco de investimentos Goldman Sachs não excluiu o Irã de sua seleção dos “Next 11”[1] nem do cálculo do novo índice que regerá um novo fundo de investimento nos N-11 e que Goldman Sachs criou no ano passado[2]. O Irã continua avaliado como uma das cinco nações em desenvolvimento que têm “produtividade e sustentabilidade de crescimento acima da média”. Talvez uma Britney Spears persa devesse cantar “Baby, me embargue de novo”.

Baby, estou chegando pra pegar você[3]

Do ponto de vista de Washington, a única coisa que realmente conta na interminável disputa nuclear é se o Irã pode ou não chegar a ter capacidade para construir uma bomba atômica em tempo recorde, para o caso de a liderança em Teerã ficar absolutamente convencida de que o Irã será atacado pelo eixo EUA-Israel.

É exatamente o que disse o diretor da Inteligência Nacional dos EUA James Clapper, em audiência na Comissão das Forças Armadas do Senado, na 5ª-feira passada: que o Irã “é mais que capaz de produzir urânio enriquecido em quantidade suficiente para uma bomba, se os líderes políticos, especificamente, o Supremo Líder, decidir que assim seja.”[4]

O que Clapper não esclareceu é que Teerã está enriquecendo urânio a apenas 3,5%; para bomba atômica, teria de chegar a 95% de enriquecimento – o que seria imediatamente detectado pela Agência Internacional de Energia Atômica.

Se acontecer – e há aí um imenso “se” –, não haverá como impor “mudança de regime” por lá, se a mudança tiver de vir de fora. E, assim, bye bye ao Grande Prêmio em petróleo e gás sonhado por todos, do realista Dr. Zbig Brzezinski ao ex-Darth Vader, Dick Cheney.

E lá estará a Ouroboro, tudo de novo – a serpente que morde o próprio rabo. Temos de bombardear para mudar o regime, e a bailarina lambuzada de petróleo dançará no nosso colo de rico.

O problema é que nem o governo Obama nem os principais generais do Pentágono estão convencidos de que seja bom negócio.

Para o comandante do estado-maior das forças conjuntas dos EUA, general Martin E. Dempsey, “Seria prematuro decidir exclusivamente que tenha chegado a hora, para nós, da opção militar”.

E o tenente-general Ronald Burgess, diretor da Agência de Inteligência da Defesa, disse ao Congresso na 5ª-feira que “é pouco provável que o Irã inicie ou provoque intencionalmente um conflito.” Não surpreende: o próprio Dempsey admitiu que a liderança em Teerã, ao contrário do que nunca se cansam de repetir os ‘especialistas’ da imprensa neoconservadora, “é ator racional”.

E isso faz alguma diferença para os neoconservadores e sua legião de lambe-botas midiáticos? Não. De fato, não lhes faz qualquer diferença. Até que consigam algum idiota para guerrear por eles – como, por exemplo, um presidente republicano –, os verdadeiros covardes continuarão indo para Teerã, dia e noite, no mais molhado de seus sonhos molhados.


[1] Os “Next Eleven” ( N-11, “próximos 11”) são 11 países – Bangladesh, Egito, Indonésia, Irã, México, Nigéria, Paquistão, Filipinas, Turquia, Coreia do Sul e Vietnã – que Goldman Sachs e Jim O’Neill identificaram, no relatório do banco de investimentos de 12/12/2005, como países com alto potencial de virem a ser, ao lado dos países BRICS, as maiores economias do mundo no século 21 (de http://en.wikipedia.org/wiki/Next_Eleven) [NTs].

[2] Ano passado, o banco de investimentos Goldman Sachs lançou novo fundo para investimentos nos mesmos países N-11, no qual o Irã continua incluído para efeitos de cálculo do índice que rege o novo fundo. De novo, só, que o índice que rege o novo fundo mudou de nome! Sobre isso, ver 27/1/2011, “Investing in the ‘Next eleven’ in EM: Goldman Sachs launches new fund”, Atholl Simpson, in http://citywire.co.uk/global/investing-in-the-next-eleven-in-em-goldman-sachs-launches-new-fund/a466761: “O novo fundo será regido por um novo índice chamado MSCI GDP Weighted N-11 (ex-“Índice Irã”), baseado no PIB dos países N-11”.

O Banco de Investimentos Goldman Sachs, portanto, não dá qualquer sinal de acreditar que as sanções econômicas impostas pelos EUA tenham potência para ‘debilitar’ a economia iraniana, evidência que Pepe Escobar anota no artigo de hoje. Em nota que se lê hoje na página do banco de investimentos, Goldman Sachs apenas esclarece que “O Fundo não investirá em empresas organizadas sob as leis iranianas, ou domiciliadas no Irã nem em outras empresas, como seja necessário para respeitar as sanções econômicas que os EUA impuseram ao Irã” (em http://www.goldmansachs.com/gsam/individuals/products/growth_markets/n11/beyond-bric/index.html) [NTs, autorizada pelo autor, por e-mail].

[3] Orig. “Baby, I’m coming to get ya”. É título de canção gravada por Lisa Stanfield, que pode ser ouvida em http://letras.terra.com.br/lisa-stansfield/641683/. Em cenário e circunstâncias diferentes (e sem “baby”), é fala famosa do filme Rambo, dita por Stalone, nas circunstâncias que se veem em http://www.youtube.com/watch?v=bwlQ0qJxaGo [NTs].

[4] Sobre isso, ver também 20/2/2012, MK Bhadrakumar, “EUA e Irã avançam (devagar) rumo a conversações”, http://redecastorphoto.blogspot.com/2012/02/eua-e-ira-avancam-devagar-rumo.html [NTs].

Original aqui.

Tradução do coletivo Vila Vudu.

Los Cobardes de verdad van a Teherán

Por Pepe Escobar.

Imaginad el clásico sueño húmedo neoconservador estadounidense: Clavar la vista en Irán en un mapa y salivar sobre las encrucijadas entre Europa y Asia, entre el mundo árabe y el subcontinente indio, entre el Mar Arábigo y Asia Central, con 10% de las reservas probadas de petróleo (más de 150.000 millones de barriles) y un 15% de las reservas probadas de gas – un complejo energético mayor que Arabia Saudí y árbitro de las rutas de la energía del Golfo Pérsico al Oeste y Asia a través del Estrecho de Ormuz.

Es como un rechoncho hombre de acción de poltrona hipnotizado por una ágil bailarina de lap dance. Vas a ser mía, querida. Es hora de cambio de régimen, voy a liquidar al dueño de este tugurio. De lo contrario la gente comenzará a decir: ¿qué clase de cobarde es este hegemono global?

Por lo tanto los neoconservadores obtuvieron su paquete de sanciones/embargo de Irán para Año Nuevo del gobierno de Barack Obama, debidamente reproducido por el desfile de perros falderos europeos. Pero no resultó como se esperaba. La bailarina saltó del escenario y aplicó unas tijeras al cuello al hombre de acción en la poltrona; él sofoca, no ella. Todo el asunto… ¡falla! Como la última Gran Idea neoconservadora – la invasión, ocupación e inevitable derrota en Iraq, al coste de más de 1 billón (millón de millones) de dólares.

Consideremos parte de la última evidencia. Teherán acaba de enviar dos de sus barcos de guerra a través del Canal de Suez hacia el Mediterráneo; atracaron en el puerto sirio de Tartus – nada menos. No hace mucho, Hosni Mubarak, el dictador en desgracia y cercano compinche de la Casa de Saud probablemente los habría bombardeado.

Teherán cortó las exportaciones de petróleo crudo a los principales perros falderos europeos, Gran Bretaña y Francia. Es solo 1% de las importaciones británicas y 4% de las de Francia – pero el mensaje es claro: si los deprimidos países del Club Med insisten en seguir el belicismo anglo-francés, serán los próximos.

El crudo Brent llega a 121 dólares por barril – el máximo en ocho meses. West Texas Intermediate, negociado en Nueva York, se mueve alrededor de 105 dólares. Brent es crucial, porque determina el precio al consumidor de gasolina en la mayor parte de EE.UU. y Europa Occidental. Los neoconservadores juraron sobre sus Biblias y Toras que no habría un aumento del precio del petróleo. Tuvo lugar – como un reloj, probando una vez más que su conocimiento de la especulación en el mercado es el de un bebé de dos años (sin ofender a los adorables bebés).

Los fondos que Teherán pierde debido a las sanciones –en términos de menos exportaciones a Europa– son compensados en gran parte por el aumento del precio del petróleo causado por el belicismo impulsado por los neoconservadores. Además, es seguro que Teherán venderá más petróleo a sus principales clientes asiáticos – China, India, Japón y Corea del Sur, e incluso Turquía, todos los cuales, en diferentes grados de diplomacia, han dicho a Washington que se ocupe de sus propios asuntos.

Como adelantó Asia Times Online, tardó algo pero Irán y China acaban de llegar a un nuevo acuerdo sobre el precio del petróleo. Y el gasoducto Irán-Pakistán ya es algo seguro. Y Afganistán y Pakistán –así como Irán– quieren ser admitidos en la Organización de Cooperación de Shanghái (SCO, por su nombre en inglés), acelerando la integración económica regional.

El que los redactores del paquete de sanciones del lobby de Israel no hayan podido predecir nada de esto prueba una vez más que viven la vida vegetativa de hombres de “acción” de poltrona.

A los papagayos neoconservadores no les queda otra cosa que el bla-bla-bla de que las “sanciones tienen efecto”. O que la portavoz del Departamento de Estado, esposa del neoconservador Robert Kagan, asegure que se está presionando sobre todos esos países para que hagan “lo que puedan por aumentar las sanciones, en particular para apartarse gradualmente del crudo iraní”. Nadie se “aparta” de nada – fuera de los autodestructivos perros falderos europeos.

También quedó al descubierto el mito de la capacidad de reserva saudí. No existe. Las reservas saudíes disminuyen a un ritmo de 3% por año (exporta 11,8 millones de barriles por día (y disminuyen). Además, la Casa de Saud no quiere bombear más petróleo; necesita precios elevados del petróleo a fin de sobornar a su propia población para apartarla de nocivas ideas de una Primavera Árabe.

Y luego está la fresa sobre el pastel, demasiado deliciosa como para dejarla de lado. Goldman Sachs acaba de colocar a Irán como uno de los “Próximos 11” en el mundo en desarrollo después de los BRICS, solo una de cinco naciones en desarrollo con “productividad y sustentabilidad de crecimiento” por sobre el promedio. Tal vez una Britney Spears persa debiera cantar “Nene, sancióname una vez más”.

Desde el punto de vista de Washington, lo único que cuenta realmente en la interminable charada nuclear es si Irán puede lograr la capacidad de construir un arma nuclear en tiempo récord en caso de que la dirigencia en Teherán esté absolutamente segura de que el eje EE.UU./Israel lo atacará.

Es exactamente lo que el director de Inteligencia Nacional de EE.UU., James Clapper, dijo al Comité de Servicios Armados del Senado el jueves pasado: Irán es “más que capaz de producir suficiente uranio altamente enriquecido si sus dirigentes políticos –específicamente el propio Líder Supremo– deciden hacerlo.

Lo que no especificó Clapper es que Teherán está enriqueciendo uranio a solo 3,5%; una bomba nuclear necesita 95% – y eso sería inmediatamente detectado por el Organismo Internacional de Energía Atómica.

Si eso sucede –y es un gran si– no hay forma de que un cambio de régimen pueda ser impuesto desde el exterior. Por lo tanto adiós a la Gran Presea en petróleo y gas codiciada por todos, desde el realista Dr. Zbig Brzezinski al ex Darth Vader, Dick Cheney.

De modo que de nuevo la serpiente muerde su propia cola. Tenemos que bombardear para lograr un cambio de régimen, para que esa bailarina bañada en petróleo baile sobre nuestro acaudalado regazo.

El problema es que ni el gobierno de Obama ni importantes generales del Pentágono están convencidos de que sea algo estupendo.

El jefe del Estado Mayor Conjunto, general Martin E Dempsey, piensa que: “Sería prematuro decidir exclusivamente que ya tenemos encima el momento para una opción militar”.

Y el teniente general Ronald Burgess, director de la Agencia de Inteligencia de la Defensa, dijo al Congreso el jueves pasado: “Es poco probable que Irán inicie o provoque intencionalmente un conflicto”. No es ninguna maravilla: el propio Dempsey admitió que la dirigencia en Teherán – contrariamente al ininterrumpido sesgo neoconservador en los medios – “es un protagonista racional”.

¿Importa todo esto a los neoconservadores y a su legión de socios en los medios? No realmente. Hasta que encuentren a un bobo que libre una guerra por su cuenta –como en el caso de un presidente republicano– los verdaderos cobardes seguirán yendo a Teherán, todo el día y toda la noche, en los más húmedos de sus sueños húmedos.

………….

Pepe Escobar es el autor de Globalistan: How the Globalized World is Dissolving into Liquid War (Nimble Books, 2007) y de Red Zone Blues: a snapshot of Baghdad during the surge. Su nuevo libro, recién aparecido, es Obama does Globalistan (Nimble Books, 2009). Contacto: [email protected] .

Traducción: Germán Leyens.

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Fuente: http://www.atimes.com/atimes/Middle_East/NB22Ak04.html

Fonte: Diário Liberdade.

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