Os tentáculos da OTAN na América do Sul: militarização e hegemonia dos EUA

Imagem: Cebrapaz

Por Rita Coitinho, para Desacato.info.  

Em uma conjuntura internacional marcada pela crise econômica das potências tradicionais, a ascensão de um novo ator de peso, a China, e o consequente reposicionamento da Ásia na balança de poder mundial, vêm ganhando relevo as ações dos Estados Unidos, até aqui a única superpotência do planeta, voltadas à retomada da agenda de controle unilateral sobre o território latinoamericano.

Quando nos referimos aos EUA como “única superpotência”, tem-se em mente o entendimento expresso por Antônio Gramsci, para quem o conceito refere-se à capacidade de um Estado de “imprimir à atividade estatal uma direção autônoma, que influa e repercuta sobre outros Estados”. Conforme o autor italiano, “a medida decisiva para estabelecer o que se deve entender por superpotência é a guerra”. Assim, ainda que a Europa disponha de grande poder econômico e que a China venha despontando no cenário mundial como a economia mais dinâmica e como dona da maior capacidade de investimento, é fato que, ainda, somente os EUA têm capacidade militar para interferir fora de suas fronteiras com grande vantagem sobre qualquer adversário. É fato, por outro lado, que o crescente reequipamento da Rússia (conforme tratamos em artigo 05 de março http://desacato.info/virada-geopolitica-russa/) e a ampliação das capacidades bélicas da China têm diminuído a vantagem absoluta dos Estados Unidos. Mas ainda estamos longe de uma situação em que se possa afirmar que o gigante norte-americano perdeu sua proeminência militar. Para além de sua capacidade militar individual, os EUA controlam a OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte) e, a partir dessa “aliança militar”, nascida ainda na Guerra Fria, dispõem de um largo contingente de aliados que lhe ampliam exponencialmente a capacidade de ameaçar o mundo.

Nas décadas de 1990 e 2000 os Estados Unidos pareciam desinteressar-se dos fatos políticos latinoamericanos para dedicar-se a disputar a proeminência política, econômica e militar sobre o Oriente Médio e sobre a eurásia, buscando realizar um cerco à Rússia, de modo a neutralizar seu poder regional. Contudo, já desde o final do governo de Bush Jr., com a apresentação da ALCA (Área de Livre Comércio das Américas, felizmente derrotada em 2003), o Plano Colômbia de “combate ao narcotráfico”, o apoio à “guerra às drogas” no México e, particularmente nos últimos anos do segundo governo Obama, quando ampliou-se a ofensiva estadunidense sobre os rumos políticos da Venezuela, as atenções do Departamento de Estado dos EUA para a região foram ampliadas.

A reativação do Comando Militar Sul foi o sinal de alerta para os povos da região, tendo ocorrido logo após o anúncio, pelo Brasil, da descoberta do Pré-Sal. Seguiram-se a esse fato inúmeras denúncias dos governos da Bolívia, do Equador e da Venezuela de interferências das embaixadas dos EUA em sua política interna. O retorno de grupos políticos aliados de Washington ao poder, seja por eleições (Argentina, como Macri), seja por golpes de Estado (Brasil, Paraguai, Honduras) ou por cooptação (Lênin Moreno, no Equador), trouxe de volta à região a antiga agenda de militarização, que na verdade nunca foi enterrada completamente, basta observar o caso colombiano e a permanência de bases militares espalhadas por toda a região.

Mas o fato mais perigoso talvez seja a entrada da OTAN no continente. A Colômbia anunciou no mês de maio estar em processo de adesão ao tratado, porém pouco se fala do caso argentino. Este país tem o status de “grande aliado extra-OTAN” desde 1997, quando Menem estava no governo. Conforme informa a especialista argentina em geopolítica, Elsa Bruzzone, o país nunca deixou, desde então, de ser formalmente aliado na OTAN. Ainda que nos governos de Néstor e Cristina Kirchner esse “status” nunca tenha sido usado para nada, com a chegada de Macri à Casa Rosada o país platino retomou a agenda de cooperação militar com os EUA, o que inclui exercícios militares conjuntos, como os que ocorreram este ano, e a compra de armamento ostensivo.

De acordo com Bruzzone, o status de aliado especial extra-OTAN permite acesso facilitado a armamento ofensivo e requer, como contrapartida, além da relação “confiável” com os EUA, possuir uma força especial de deslocamento rápido que, no caso da Argentina, são os paraquedistas que se concentram em Córdoba. Quando Bill Clinton bombardeou Kosovo, sob o guarda-chuva da OTAN, os militares argentinos foram embarcados para a Europa, onde se colocaram sob as ordens de um coronel italiano e integraram-se às forças da organização. Agora, com a adesão próxima da Colômbia ao tratado, serão dois países sul-americanos a ele vinculados, o que coloca a região, definitivamente, na rota das guerras de agressão.

Para além do “título” de aliado extra-Otan, Macri firmou acordos militares com os EUA, sob o discurso já conhecido de “guerra ao narcotráfico e ao tráfico de drogas”, no âmbito da ICP (Iniciativa contra a Proliferação). Os acordos preveem manobras militares conjuntas e, o que é ainda mais grave para a soberania argentina e para toda a região, a instalação de bases militares estadunidenses nas localidades de Ushuaia, Misiones e Jujuy.

A história das relações dos EUA com a América Latina é marcada por tentativas de neutralizar as iniciativas autonomistas dos países da região e, no tocante à Argentina e ao Brasil, os dois maiores países da América do Sul, pela busca por alianças de caráter político e militar, de forma a neutralizar sua possibilidade de liderança regional. Sob Trump, com sua declarada agenda protecionista/belicista, ao menos pode-se dizer que as coisas ganham contornos mais claros. As alianças apresentam caráter nitidamente militarista e, no tocante à economia, não há tratativas de cooperação, mas de atendimento direto dos interesses estadunidenses: venda de terras e riquezas naturais por preços irrisórios, abertura comercial irrestrita nas áreas de interesse dos EUA e cessão de bases militares. O fortalecimento da posição da OTAN na região representa a escalada do processo de submissão do ponto de vista militar. E é a porta de entrada da dominação irrestrita da potência sob os recursos naturais da região e sobre os destinos dos seus povos.

 

Rita Coitinho é socióloga, Dra. em Geografia e membro do Conselho Consultivo do Cebrapaz.

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