Os sujeitos históricos contra a cultura da barbárie

Imagem: Reprodução

Por Afonso Machado

Brasil e Alemanha , 2020 e 1933. Monstros financiados pela burguesia alemã de ontem, encontram um atalho no tempo e chegam ao palco em que monstros financiados pela atual burguesia brasileira, atuam. No vídeo publicado pelo ex- secretário da Cultura Roberto Alvim no dia 16 de janeiro, encontramos o cenário tétrico recheado pela melodia de Richard Wagner. A cruz de Lorena é o objeto de cena que une-se ao som do compositor alemão: declaração de guerra da civilização cristã contra o paganismo, o comunismo, o internacionalismo, a arte livre… O personagem em cena, Roberto Alvim, surge no vídeo com a máscara e o texto de um célebre teórico do extermínio de seres humanos, do controle e da repressão sobre a cultura: Joseph Goebbels, o principal arquiteto ideológico do nazismo. O espectador com consciência histórica parece não acreditar nos seus próprios olhos: as formas do Terceiro Reich enervam-se no ambiente filmado, infiltram-se tranquilamente na mesa, no terno, no rosto, no tom da fala, na música de fundo…

Roberto Alvim, um homem de teatro(e que portanto conhece muito bem a composição do texto dramático e os efeitos de cena) arrancou do fundo das trevas um cenário histórico que é o espelho cultural do governo Bolsonaro. Não que os bolsonaristas sejam antissemitas e defensores de um modelo de Estado em que o ideário do Belo opera com metralhadoras e câmeras de gás um hediondo papel “ cirúrgico “ na criação da cultura da dita “ raça pura “. A política liberal e a subserviência aos EUA que caracterizam o atual governo, não rimam com as estruturas políticas do Terceiro Reich. Todavia, a visão de História e Cultura do governo Bolsonaro possui sim uma macabra sintonia com o fascismo.

Ao defender a arte nacionalista, Goebbels impõe através dos meios de comunicação de massa uma visão de cultura em que o povo alemão seria um corpo saudável, unificado por uma suposta história desenhada pela “ virtude “, pela “ vontade “. Este corpo portanto não poderia revelar a realidade, deixar aparecer uma sociedade que é dividida em classes sociais. Quando os bolsonaristas sabotam a crítica social em nome do patriotismo, em nome de uma cultura nacionalista , apresentam também uma concepção de Beleza que embora não faça uso da suástica e sim das cores verde e amarela, é muito parecida com o fascismo. A cultura nazista não poderia admitir as contradições do desejo e a pluralidade étnica e sexual existentes. Os intelectuais e artistas alemães formados no gigantesco e experimental Cabarét dos anos de 1910 e 1920, encontravam ricas perspectivas no marxismo e nas experiências estéticas de vanguarda. Tais elementos críticos não apenas destoavam das manifestações artísticas e publicitárias dos nazistas, mas colocavam em cheque a miséria e a exploração na Alemanha. Não por acaso a chegada de Hitler ao poder no início dos anos de 1930, culmina tanto na perseguição aos comunistas quanto aos artistas críticos e libertários. E no Brasil de Bolsonaro? Os chamados olavistas que estão á frente do governo, atacam de maneira tacanha e intolerante todas as manifestações artísticas e intelectuais que realizam a crítica. Os nazistas atacavam o que eles chamavam de “ bolchevismo cultural “. Os bolsonaristas atacam o que eles chamam de “ marxismo cultural “. Alguns autores brasileiros chamam a atenção para este perigoso paralelo histórico.

Em uma patética e nada sustentável visão de História, segundo a qual esta envolveria os esforços da “ raça pura “ contra as formas e os setores sociais tidos como “ degenerados “, o nazismo recupera a Estética greco romana e os símbolos da mitologia germânica para elaborar uma cultura nacionalista e politicamente dirigida. Goebbels orquestrava uma série de eventos e produtos culturais que distorciam a história da Alemanha e logo impediam com que a população soubesse o que aconteceu e o que acontecia. A ignorância das massas contribuía com o sucesso destas práticas. No Brasil dos nossos dias, o obscurantismo religioso e falta de formação histórica fazem com que imperem também as mais escabrosas confusões ideológicas. Recentemente, gente do governo chegou a afirmar que o “ nazismo é de esquerda “, despertando assim a indignação de qualquer intelectual ou curioso da História. A este tipo de coisa soma-se o conservadorismo mais rasteiro, que glorifica personagens como Pinochet e saúda recentes pesadelos históricos como o AI-5. “ Pedidos de desculpa “ não encobrem horrendas atitudes que vestem meninos de azul e meninas de rosa, que consideram a escravidão no Brasil “ benéfica “, que afirmam ser Satã o mecenas do rock, que atacam a memória dos opositores e militantes de esquerda que lutaram contra a ditadura militar. Portanto não existe nenhuma surpresa se alguém que ocupa alguma “ função cultural “ no governo seja apaixonado pela Estética nazista.

Dentro da concepção nacionalista de cultura dos nazistas, Goebbels queria comunicar ás massas que Hitler era Bismarck. O teórico nazista dizia : “ A Verdade deve se ajustar á necessidade “. Se hoje algum bolsonarista deseja ser Goebbels, que tipo de representação da história a esquerda deve revelar á classe trabalhadora? Neste palco maluco em que personagens do presente vestem-se com as máscaras dos personagens do passado, que concepção de arte e cultura a esquerda pode oferecer? É mais do que oportuno relermos e difundirmos autores como Trotski, Breton, Brecht e Benjamin. Este último, crítico e vítima do nazismo, nos ensina a utilizar as imagens do passado como método revolucionário de crítica ao presente. Vamos insistir nesta longa luta, neste esforço político/cultural para mostrar ao sujeito histórico atual que a história está na palma da sua mão.

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