Os predadores contra a Lei das Doulas

Foto: Lucy, Senhoritas Fotografia

Por Désceo Machado, para Desacato.info.

Plim plim plim, bang bang, cabum!

Atuando em práticas de apoio e cuidado às mulheres gestantes e às mulheres que recém pariram e seus bebês, reunindo saberes sobre o ciclo reprodutivo humano, as doulas de Santa Catarina vêm aglutinando forças e colecionando conquistas. A maior conquista de todas tem sido dar voz, expressão e acolhimento a cada uma das mulheres acompanhadas acerca da experiência de gestar e trazer ao mundo um outro ser humano.

E não há nada aqui do clichê de Maria com o Menino nos braços em propaganda de dias das mães. A organização das doulas existe para contrapor poderes e dar voz às mulheres. Nunca esqueço de um trecho de uma entrevista de Gabriela Zanella, hoje presidente da Adosc (Associação de Doulas de Santa Catarina), quando falava da frequente incapacidade da recém mãe de dar linguagem às experiências do parto. “- Muitas vezes sobra apenas um sentimento de mal estar, uma sensação ruim, uma coisa lá dentro, que incomoda”. A atomização da vida moderna, as famílias nucleares superindividualizadas romperam o ciclo de transmissão das experiências da maternidade. A indústria do parto, legitimada pelo discurso da especialização médica, impõe barreiras para a compreensão da própria fisiologia da mulher. A transmissão do saber-poder médico, que obedece a todas as regras de reprodução de uma oligarquia, traz consigo toda a carga de preconceitos contra as mulheres: ou porque são pobres, ou negras, ou índias, ou mesmo porque estão grávidas e isso, por si só, já seria uma prova de que são putas. No alvo desses poderes a mulher é uma bárbara, desprovida da linguagem, sozinha com sua cria.

O poder, ah o poder!, o poder em suas múltiplas expressões, seus inúmeros códigos, suas máscaras, sua intensidade, o dominador e o submetido, as heranças do poder, suas fantasias e realidades, o poder de libertar-se.

Por que esses bebês não se rebelam mais tarde? Por que não vemos hoje os homens nascidos a fórceps lutarem pela humanização do parto? Quanta carga de dor essas crianças carregam ao longo de suas vidas, seja pelas ações e protocolos violentos, seja pelo sentimento de violência sofrido pela mãe?

Pois as doulas e as mulheres, colecionando dados e denúncias de violência, conseguiram sensibilizar o legislador catarinense para criação de lei e decreto (Lei 16.869/2016 e Dec. 1.305/2017) para que nos partos fosse garantida a presença e companhia da doula. Ao trabalho pré e pós-natal viria se somar o acompanhamento da doula no parto: uma massagem para aliviar as dores, um olhar e aperto de mãos entre mulheres, os cuidados com o bebê e a pegada na amamentação seriam algumas ações da doula naquele momento.

Não é incomum, porém, no reino animal aqueles que devoram as crias, os ovos, ou mesmo a fêmea que está parindo. Não é à toa que as mamíferas se recolhem para parir. A fragilidade do parto exige um cuidado adicional com os predadores. No reino dos animais humanos, onde as fêmeas deixam seus ninhos para parir, os médicos, incomodados com o apoio das doulas na hora do parto, ajuizaram uma ação para anular a Lei das Doulas. Definitivamente será mais custoso para o predador abocanhar uma presa mais fortalecida.

Bons dias, boas tardes ou boas noites!

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Thiago de Castilho SoaresDésceo Machado é repórter em Florianópolis.

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