Os perigos da leitura

Por Magali Moser.

Você é capaz de imaginar uma sociedade sem livros? A pergunta na capa do DVD intrigava: O que seria da sua vida se você não tivesse o direito de ler? Um texto do querido e fabuloso amigo Viegas Fernandes da Costa me levou a conhecer Fahrenheit 451, o único filme do diretor francês François Truffaut em inglês. O longa, de 1966, é inspirado no livro do escritor norte americano Ray Bradbury e propõe uma reflexão sobre um futuro em que os bombeiros, a mando da ditadura, existem para queimar livros. As obras literárias são proibidas por serem vistas como um perigo iminente para o “bem-estar” naquela sociedade totalitária.

Desde que assisti ao filme não consegui me desligar do enredo. Ler é uma droga! É o sugestivo título do novo livro do escritor Maicon Tenfen que reúne 49 crônicas sobre este vício terrível. O nome ambíguo dá a dimensão que a leitura pode assumir na vida de um leitor compulsivo. Ler também pode se tornar um vício. E a leitura pode ser um obstáculo para conformismo e o “bem estar” social à medida que nos confronta com questionamentos. É um processo irreversível. Como provoca Tenfen: “Ler é uma droga, pronto. Um prazeroso vício que nos rouba tempo e sossego, que pode nos jogar na sarjeta, no fundo do poço. Tá a fim?”

A leitura nos transforma, por isso é tão perigosa. Amplia nossa imaginação. Não nos proporciona apenas a aquisição do conhecimento, mas os elementos necessários para a reflexão, a contestação, a provocação, o questionamento. Em Por que Ler os Clássicos, o italiano Italo Calvino elenca 14 motivos para lê-los. Defende que “os clássicos servem para entender quem somos e aonde chegamos (…). A única razão que se pode apresentar é que ler os clássicos é melhor do que não ler os clássicos”.

Participei sábado da 6ª edição da Feira do Livro, de Jaraguá do Sul. Foi uma oportunidade incrível poder ouvir e questionar o escritor paulistano Lourenço Mutarelli, que falou sobre a relação entre Quadrinhos, Cinema e Literatura. Impressionante a maneira como ele lida com diferentes linguagens. Além de escritor, Mutarelli também é ator, quadrinista e dramaturgo. O auditório esvaziado, no entanto, fez eu me perguntar se estamos realmente valorizando as oportunidades que dispomos. Numa tenda improvisada na praça central, Mutarelli falou sobre suas descobertas na literatura, de como a leitura de A metamorfose, de Kafka, mudou sua relação com os livros, ainda na adolescência. Antes de conhecer o escritor de Praga, Mutarelli não gostava de ler, justamente por enxergar a leitura como uma “obrigação”, imposta pela escola. Uma das frases ditas por ele naquela noite me marcou: “eu escrevo livros pra quem não gosta de ler”, ao falar sobre o processo de produção de suas obras, por preferir narrativas objetivas e visuais.

A Feira do Livro de Jaraguá já trouxe para a cidade nomes de peso da literatura nacional desde a primeira edição, quando Marçal Aquino participou. Eis aqui uma outra inevitável pergunta: por que Jaraguá do Sul, com a metade da população de Blumenau, dá exemplo de determinação e chega a 6ª edição de uma feira do livro consolidada, com escritores reconhecidos, e Blumenau não consegue se mobilizar nessa área? Será que a questão se refere apenas à boa vontade e interesse? Será que as escolas estão ensinando sobre o prazer de ler?

Na entrada da Feira do Livro de Jaraguá do Sul, ao lado da prefeitura antiga, painéis despertam curiosidade sobre a trajetória dos livros, desde a Grécia Antiga. A exposição, assim como o filme de Truffaut, deixa claro que, os livros podem se reinventar, ganhar novos formatos… Mas é impossível pensar numa sociedade sem essa forma de aquisição de conhecimento.

Visite: http://jornalistamagalimoser.wordpress.com/

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