Ontem, Dia das Mães, não foi dia de comemorar. Por Elenira Vilela.

Imagem: Pixabay

Por Elenira Vilela, para Desacato.info

Solidariedade!

Ontem foi Dia das Mães, eu tenho a minha mãe, uma mulher de luta, que teve as filhas em situação de clandestinidade lutando contra a ditadura. Eu tenho meus filhos, uma escolha, dois grandes carinhas, em formação, desabrochando, cada um escolhendo seu caminho, me dão orgulho, representaram e representam muito desafio, mas a maternidade sempre foi uma parte muito interessante da minha vida. Aprendi com a Dona Jussara a fazer de tudo pra ser mãe sem deixar de ser eu, sem diluir minha identidade e meu sonhos, minha luta na maternidade. Ser mãe é algo extraordinário, mas é completamente comum.

(Quase) Todo mundo nasceu de uma mulher (pode ter sido de um homem trans). Uma boa parte das mulheres coloca filhos no mundo.

Eu tenho muito a comemorar. A exaltar minhas avós Djanira e Lila, duas mulheres que – de maneira bem diferente – eram bem a frente do seu tempo, que criaram suas filhas para a liberdade, mesmo vivendo enormes contradições e que infelizmente não tenho mais por aqui.

Apesar disso parecia que eu não podia comemorar, que não havia como falar em maternidade sem pensar nas mulheres que perderam seus filhos pra pandemia, pra violência de Estado que não parou com a calamidade (vejam os seis jovens assassinados e suas mães e avós na luta por justiça que tiveram o pior dia das mães de suas vidas, provavelmente), que estão perdendo seus filhos pra fome. Pensei nos filhos que perderam suas mães e avós pra pandemia, pra ausência de políticas públicas que assegurassem o isolamento, pra irresponsabilidade de quem nega a ciência. Passe o dia pensando em como alguns caras que vejo da minha janel, passam as manhãs de sábado tomando cerveja, fumando e petiscando com seus parças, sem máscara ou com a máscara no queixo pra poder papear ou fumar, que se cumprimentam e vão alegremente levar o vírus pra morrer ou pra matar suas mulheres, mães, filhxs…

Pensando nas famílias de indígenas que estão vendo montes dos seus perdendo a vida devido aos assassinatos, à proliferação da pandemia, a qual sempre atinge mais a essa população. Nossos povos originários sendo atacados por todos os lados e perdendo os seus de maneira devastadora.

Famílias destroçadas e nós vamos comemorar…? Dar presentes, manter a economia, segunda data que mais movimenta o comércio…

Eu nunca gostei dessas datas, mesmo eu tendo sempre minha mãe por perto, quando estudava na escola pública estadual em Niterói (RJ) nos tempos de Brizola Governador e Darci Ribeiro secretário de educação, lembro da gente ensaiando “mamãe, mamãe, mamãe, eu te lembo o chinelo na mão, o avental todo sujo de ovo” e lembro de colegas que não tinham mães e que a data parecia servir pra futucar feridas, eles tinham o olhar vazio. Lembro daquelxs que ficavam frustradxs porque as mães trabalhando não conseguiam vir pra apresentação e me lembro quando eu mesma não pude ir. Trabalhei em escolas que faziam o “Dia da família” ou algo semelhante, onde as muitas configurações familiares do nosso país apareciam, ou em escolas que decidiram abolir as atividades de datas comemorativas (dia da mãe, dia do pai, dia disso e daquilo) pra privilegiar um aprendizado de muita qualidade e estruturados a partir do contexto das crianças e jovens, da ciência, da arte e da filosofia.

Também sempre me incomodou a idealização da maternidade que costuma vir com a comemoração da data: a supermãe. Aquela que substitui todas as profissões, que dá a própria vida para os filhos e família, aquela incansável e capaz de resolver tudo. Apagando muitas verdades de mulheres que vivem sobrecarregadas, tristes, inseguras, desamparadas e que silenciam ao sofrer muitas violências, as que aturam fazendo com pouca ou nenhuma colaboração todo o trabalho não remunerado de gerar e cuidar, sem reconhecimento (a não ser em um dia ou outro que recebem umas flores ou um cartão) ou remuneração.

Mas ontem me foi impossível escrever mesmo a mensagem mais protocolar. Não por falta de reconhecimento da importância dessas mulheres ou das mães da minha vida, ou da importância da maternidade em si. Mas porque me sentia atingindo ainda mais fundo o sofrimento de tantas pessoas que não tinham o que comemorar, que não podiam comemorar e que eu sei estavam chorando enquanto viam as comemorações comerciais ou reais, já que ninguém é capaz de duvidar da importância que as mães tiveram na vida de quase todxs nós.

Eu resolvi não publicar nada no próprio dia, mas hoje quero dizer que precisamos do DIA DA SOLIDARIEDADE. A solidariedade a todxs que não tem o que comemorar.

#TodasAsVidamImportam

#VidasAcimaDosLucros

#DoLutoALuta

Elenira Vilela é professora e sindicalista.

A opinião do/a autor/a não necessariamente representa a opinião de Desacato.info.

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