Olimpíadas e Copa do Mundo: arenas de um neoliberalismo de choque

olimpíadas neoliberalismoPor Olivier Petitjean, Basta Magazine.*

As grandes competições esportivas planetárias custam cada vez mais caro. O Comitê Olímpico Internacional e a FIFA, que comercializam estes produtos do entretenimento mundial, tornaram-se verdadeiras holdings isentas de qualquer controle. Resultado: suspeitas de corrupção, gordas isenções fiscais, violações dos direitos trabalhistas, expulsão de populações pobres para dar lugar a infraestruturas muitas vezes inúteis e até o questionamento da democracia costumam acompanhar estes eventos. Para grande satisfação e lucro destas holdings e de seus patrocinadores – e com a aclamação dos estádios.

Na definição de Fabien Ollier, diretor da revista francesa Quel Sport? e colaborador do livro La coupe est pleine ! Les désastres économiques et sociaux des grands événements sportifs (sem tradução no Brasil), o Comitê Olímpico Internacional e a FIFA são “holdings transnacionais que pagam impostos como se fosem meros jogadores de várzea”. Os principais produtos destas holdings são os Jogos Olímpicos de Verão e de Inverno para o COI, e a Copa do Mundo para a FIFA. Para organizar esses eventos e vendê-los em todo o planeta, tudo, ou quase tudo, é permitido. Considerados momentos festivos e consensuais, estas grandes competições esportivas tornaram-se sinônimo de desperdício de dinheiro público, expulsões em massa de pobres moradores das cidades-sede, deterioração das condições de trabalho no setor de obras públicas, hipersecurização dos espaços públicos e massacre publicitário em grande escala.

Nem a FIFA nem o COI tem nenhuma obrigação de transparência financeira. Com sede em Zurique, na Suíça, como a maioria das instituições desportivas internacionais, a FIFA emprega cerca de 300 pessoas e obteve, em 2012, um lucro de 89 milhões de dólares. Suas reservas financeiras, não tributáveis por causa de seu status de organização sem fins lucrativos, atingiriam 1,378 bilhão de dólares. A opacidade das suas operações internas e de sua governança é frequentemente criticada, especialmente pela ONG Transparência Internacional.

“Um nível mais baixo da democracia é às vezes preferível”

A FIFA já esteve envolvida em vários escândalos de corrupção, de fraudar resultados e de desvio de verbas. Presidente dede 1998, Sepp Blatter renunciou em 2015 por denúncias de corrupção. Uma investigação feita pela justiça suíça sobre a empresa ISL, parceira de marketing da FIFA, terminou em várias acusações. Também obrigou o ex-presidente da organização João Havelange e seu genro Ricardo Teixeira, ex-presidente da CBF e do Comitê organizador da Copa do Mundo de 2014, a renunciar a seus cargos. A atribuição da organização dos Mundiais de 2018 e 2022 à Rússia e ao Catar também suscitou alegações de corrupção e levou a conflitos internos, obrigando vários membros do comitê executivo a renunciar. Mas a FIFA pôde lavar a sua roupa suja em casa: as autoridades suíças descobriram que, graças aos privilégios e ao estatuto especial concedido à organização, não tinham meios legais para processar seus líderes acusados de corrupção e tráfico influência…

A forma como a FIFA concebe a organização das Copas do Mundo é coerente com seu status extraterritorial e com a forma como esconde o interesse financeiro sob um véu de prestígio simbólico. A organização impõe aos países-sede um regime de exceção draconiano: isenções fiscais para a FIFA e seus parceiros comerciais, compromissos rigorosos para a construção de infraestruturas e equipamentos esportivos, liberdade total de exportação de conversão de divisas, suspensão de obrigações de visto, exceções aos direitos trabalhistas, delimitação de “zonas comerciais exclusivas” para os patrocinadores multinacionais, protegidas por uma “polícia de marcas”… Como explicou ingenuamente Jerome Valcke, secretário-geral da FIFA, “Vou dizer uma loucura, mas um menor nível de democracia às vezes é preferível para organizar uma Copa do mundo. Quando há um homem forte na liderança de um país, que tome as decisões (…), é mais fácil para nós, organizadores”.

18 bilhões para a Copa no Brasil, 36 bilhões para as Olimpíadas de Sochi

Este pacote de medidas produz um verdadeiro buraco negro financeiro, à custa das finanças públicas e em benefício da FIFA, de seus parceiros comerciais e de certos setores de atividade locais (imobiliário, construção, segurança). Se os excessos orçamentários, temperados com fortes suspeitas de corrupção, que caracterizaram a organização dos Jogos Olímpicos em Sochi renderam páginas de cobertura e críticas, as derrapagens orçamentais não são a exceção, mas a regra, quando se trata de grandes eventos esportivos. O orçamento da Copa da África do Sul, por exemplo, saltou de 240 milhões para 4,1 bilhões de euros – um aumento de 1.709%! Enquanto isso, a FIFA pôde repatriar tranquilamente para a Suíça vários milhões referentes a lucro não tributável. Da mesma forma, os estouros de orçamento dos Jogos Olímpicos de Atenas, em 2004, contribuíram para a crise financeira que atingiu a Grécia, em seguida (estimado inicialmente em 5,5 bilhões de euros, o orçamento final dos Jogos de 2004 nunca foi tornado pública, mas foi estimado em 20 bilhões de euros).

Já os benefícios econômicos para o país-sede nunca são avaliados de forma realmente precisa. Um economista estimou em 24 bilhões de euros – três vezes mais do que o inicialmente previsto – o orçamento dos Jogos Olímpicos de Londres (fora as instalações esportivas), e em apenas 6 ou 7 bilhões os benefícios (já o governo britânico falou em 17 bilhões de dólares) – tudo isto num período de austeridade fiscal draconiana. Para a Copa do Mundo de 2014, no Brasil, o investimento total seria de 18 bilhões de dólares, sendo 95% do montante de origem pública, para receitas fiscais de cerca de 6 bilhões de dólares. Para os Jogos Olímpicos de Inverno em Sochi, na Rússia, as estimativas de gastos variam entre 17 e 36 bilhões de euros (este último valor de acordo com um vice-premiê russo). Os grandes eventos desportivos trariam também uma série de benefícios econômicos indiretos e intangíveis, mas eles parecem muito incertos em relação aos montantes investidos.

Por que, nestas condições, os líderes políticos desejam tanto presidir a organização de grandes eventos esportivos? Por razões de prestígio, de coesão nacional e de legitimidade de seu poder, certamente. O “produto” é atraente e popular. Mas também em nome de uma determinada concepção de desenvolvimento. Os líderes políticos parecem às vezes não ter outra visão econômica além de captar a atenção das forças intangíveis da globalização (os investidores, o capital, o turismo, o “talento”…), no contexto de uma competição entre cidades “de padrão mundial”. Os eventos esportivos tornam-se então o pretexto para extensas operações de renovação e de construção de infraestruturas que, muitas vezes, se assemelham a uma limpeza urbana, onde as camadas mais pobres são, invariavelmente, as vítimas.

“Pior que o regime do apartheid”

No Brasil, a “Copa do Mundo levou a violações dos direitos humanos, como o direito à moradia, o direito à liberdade de reunião e movimento, e o direito ao trabalho”, acusaram os organizadores dosPublic Eye Awards, o “prêmio da vergonha” das grandes empresas globais, para o qual a  FIFA foi indicada em 2014, junto com as fabricantes de agrotóxicos BASF, Syngenta e Bayer, a marca de roupas Gap, o banco HSBC ou a petrolífera russa Gazprom (esta último foi escolhida a “vencedora” pelos internautas).

Tais violações estão diretamente relacionadas às exigências da FIFA. A Relatora Especial da ONU Raquel Rolnik estimou em 150 mil o número de famílias ameaçadas de expulsão em cidades que sediarão a Copa do Mundo. Na África do Sul, os habitantes expulsos dos locais reservados à construção dos “espaços FIFA” foram amontoados em áreas de realojamento temporário. Comentários de um militante: “Eles fazem pior do que o regime do apartheid! Na época, havia pelo menos direito a uma casa de tijolos”. Um relatório do Centro para o Direito à Moradia contra Despejos (Centre for Housing Rights and Eviction – COHRE) estima, por sua vez, que os Jogos Olímpicos tenham causado, entre 1988 e 2008, a expulsão direta ou indireta de dois milhões de pessoas, metade delas apenas para os Jogos Olímpicos de Pequim.

Rumo aos quatro mil trabalhadores mortos no Catar?

A “renovação” das cidades é acompanhada por um processo de privatização e segregação espacial idealizado para sobreviver por muito tempo após o encerramento do evento. Os grandes projetos inúteis abundam: ou as estruturas construídas são abandonadas após o evento, ou permanecem cronicamente subutilizadas, tanto as estruturas esportivas – como grandes estádios – ou de transportes, tais como o aeroporto de Durban ou o trem de alta velocidade de Johanesburgo, construídos para a Copa do mundo de 2010. Claro que os países-sede agora prometem organizar os eventos esportivos mais “verdes” da história. Pretensões que podem resultar na concepção de alguns equipamentos “exemplares” do ponto de vista ecológico, mas pouco convincentes em termos de impacto global e de modo de consumo. Com os Jogos Olímpicos em Sochi, o greenwashingalcançouníveis absurdos.

A construção em marcha acelerada de estádios e outras infraestruturas, nos prazos curtos impostos pela FIFA, tem graves consequências em termos de segurança e degradação das condições de trabalho dos operários. Desde 2011, sindicatos haviam denunciado as condições de escravidão moderna dos trabalhadores migrantes nos canteiros de obras da Copa do Mundo do Catar. Os relatos da imprensa internacional, com destaque para o diário britânico The Guardian, e as missões da Organização Internacional do Trabalho (OIT) e da Confederação Sindical Internacional (CSI),trouxeram à tona um fenômeno que permaneceu em grande parte invisível nas edições anteriores. Sindicatos calcularam que, se ritmo de acidentes não mudar, cerca de quatro mil trabalhadores – a maioria de origem indiana ou nepalesa – terão deixado suas vidas em canteiros de obras da Copa do Mundo. Da mesma forma, na etapa brasileira do Mundial, repetidos acidentes com mortes ganharam as manchetes da imprensa internacional no fim de 2013 – por trás dos acidentes estava a aceleração no ritmo de trabalho para que as obras fossem concluídas a tempo.

McDonald’s alimenta, Coca-Cola refresca e Visa garante as compras

Para os administradores e acionistas de empreiteiras, no entanto, os benefícios são claros: por ocasião da Copa do mundo Sul-africano, eles não apenas aumentaram seus lucros 12 vezes em relação aos anos precedentes, mas também aproveitaram a oportunidade para intensificar o trabalho (o número de empregos criados não foi proporcional à carga de trabalho) e para acentuar as diferenças de remuneração entre os trabalhadores e os diretores. Uma vez o trabalho concluído, a maioria desses trabalhadores volta ao desemprego.

No fim das contas, as várias medidas excepcionais impostas pela FIFA resultam na criação, dentro do próprio evento, de bolhas comerciais hipersecurizadas, espécie de Disneylândias esportivas, onde cada aspecto do evento torna-se mercadoria, para benefício de patrocinadores multinacionais. McDonald’s alimenta, Coca-Cola refresca e Visa garante as compras. Em todos os lugares, sua atenção é capturada pela publicidade onipresente.

Esta utopia comercial custa caro. As grandes celebrações esportivas escondem sob uma superfície consensual e festiva uma violência subjacente e um conflito generalizado. Por um lado, os esquecidos da “festa” e os removidos se reúnem em protestos – fenômeno amplamente ignorado pelos meios de comunicação, para não estragar a diversão. Muitos especialistas veem nos motins do verão de 2011 em Londres uma consequência das políticas urbanas implementadas em função dos Jogos Olímpicos. Por outro lado, a própria “festa” incentiva formas mais ou menos sublimadas de violência, muitas vezes de inspiração nacionalista. Sem falar na explosão do tráfico de drogas e da prostituição.

Drones, mísseis e porta-aviões para os Jogos Olímpicos de Londres

Daí a necessidade de securizar o evento, interna como externamente. Com a aproximação da Copa do Mundo, o Brasil reforçou a sua política de “pacificação” brutal das favelas, com as chamadas UPPs. Como já ocorrera antes na África do Sul, os vendedores de rua são perseguidos e expulsos pela polícia, para não interferir no monopólio comercial dos parceiros oficiais. Nos espaços do Mundial ou dos Jogos Olímpicos, uma “polícia de marcas” monitora o respeito à exclusividade publicitária dos patrocinadores. O desejo de proteger os turistas ricos e prevenir uma ameaça terrorista leva à implantação maciça de tecnologias de monitoramento e controle. Drones, mísseis e porta-aviões foram mobilizados para as Olimpíadas de Londres, em 2012. A organização de grandes eventos esportivos constitui ao mesmo tempo um laboratório e um formidável aporte financeiro para a indústria de segurança: o orçamento para a segurança dos Jogos Olímpicos de Sydney foi de apenas 180 milhões de dólares, quatro anos mais tarde, foi multiplicado por oito em Atenas, com 1,5 bilhão de dólares, atingindo 6,5 bilhões de dólares em Pequim, o recorde até hoje.

Aspiração a um status “global”, desigualdades, conivência entre os meios políticos e econômicos, crença em uma modernização acelerada em nome do “desenvolvimento”… Fatores que provavelmente explicam a predileção das instâncias esportivas internacionais, nos últimos anos, pelos países emergentes, democráticos ou não. (O Brasil sediou a Copa de 2014 e sedia as Olimpíadas de 2016; a Rússia os Jogos Olímpicos de Inverno de 2014 e a Copa do Mundo de 2018; a China os Jogos Olímpicos de 2008, África do Sul, a Copa do Mundo de 2010, o Catar, o Mundial de 2022. Somem-se os Jogos da Commonwealth, realizados na Índia em 2010. A Coreia do Sul vai sediar os Jogos Olímpicos de Inverno de 2018 e o Japão os Jogos Olímpicos de verão, em 2020). Alguns países-sede tentaram negociar condições menos draconianas com a FIFA ou o COI, mas estes esforços não parecem ter peso suficiente frente aos interesses comerciais.

Emergência de movimentos sociais

Os grandes eventos esportivos também favoreceram muitas vezes o aparecimento de importantes movimentos sociais. Foi o caso dos grandes protestos anticorrupção na Índia, em 2011 e 2012 – em parte causados pela má gestão financeira dos Jogos da Commonwealth de 2010 – ou das manifestações brasileiras de 2013 por mais serviços públicos e contra a corrupção. Dois movimentos que fazem eco ao fenómeno global dos “indignados”. Um exemplo raro: em Chicago, a sociedade civil organizou a campanha No Games Chicago, e conseguiu forçar a cidade a abandonar sua candidatura para sediar os Jogos Olímpicos de 2016, que contava com o apoio de Barack e Michelle Obama.

Em outro campo, o movimento sindical se esforça para aproveitar a organização das Copas do Mundo para fazer avançar os direitos dos trabalhadores nos países-sede, valendo-se da cobertura da mídia sobre o evento, mas também da vulnerabilidade dos organizadores. Um capítulo do livro La coupe est pleine !  detalha a campanha organizada pela Confederação Internacional da construção e os Sindicatos da África do Sul no Mundial de 2010, assim como os progressos alcançados. Os mesmos atores prepararam-se para repetir a operação no Brasil, em 2014. A Copa da África do Sul foi marcada geralmente por uma série de greves bem sucedidas em vários setores críticos, como as greves dos estivadores ou dos trabalhadores do setor de segurança (a greve dos jogadores franceses não vem ao caso). Os canteiros de obras dos estádios brasileiros também fizeram várias greves.

Neoliberalismo de choque

Estas campanhas têm forçado a FIFA a se solidarizar – verbalmente, mas de forma explícita – com os sindicatos e sua campanha pelo respeito aos direitos dos trabalhadores. Na África do Sul, a organização expressou sua “preocupação” com a situação dos trabalhadores, salientando não ser diretamente responsável pelos problemas denunciados. Em 2013, diante das revelações das condições de vida e trabalho dos operários do Catar, o discurso foi o mesmo: “A FIFA não pode interferir nos direitos trabalhistas de nenhum país, mas também não podemos ignorar”, explicou Sepp Blatter. Com tal reticência, parece que será longa a espera por medidas concretas. Para os sindicatos, a FIFA ainda não foi suficientemente pressionada. Quanto aos países-sede, a Suécia, candidata a sediar os Jogos Olímpicos de Inverno de 2022, se comprometeu a pôr em prática padrões elevados de proteção dos direitos dos trabalhadores, e assinou um acordo com organizações sindicais internacionais. Resta saber se o caminho será seguido pelos organismos esportivos internacionais.

Não é de hoje que vozes críticas condenam a conivência da ideologia esportiva com o nacionalismo, o sexismo ou o elitismo. A base do problema está no papel socioeconômico que têm esses grandes eventos. Hoje, eles funcionam como uma dessas “terapias de choque” sociais que permitem que as elites políticas e econômicas acumulem lucros e remodelem as sociedades de acordo com os seus interesses – assim como os planos de austeridade fiscal, a criação de zonas francas oferecidas às multinacionais pelos governos do hemisfério Sul, ou ainda as catástrofes naturais. Mas, neste caso, com o apoio de estádios lotados.

Tradução de Clarisse Meireles

*com Observatoire des multinationales/ Texto publicado originalmente em fevereiro de 2014 

Cf. o livro de Naomi Klein, A Doutrina do Choque – A Ascensão do Capitalismo do Desastre; Nova Fronteira, 2008.

Foto: Roberto Castro/ Brasil2016.

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