Ocupação Vulcanica: lançamento do 23º episódio Desaquenda e da publicação Hay para Ler

Imagem: Reprodução

Por Kamilla Nunes.

Na coluna Ttéia de hoje vamos conhecer um pouco sobre a produção da performer, poeta, artista e produtora cultural Vulcanica Pokaropa! Além do texto essencial que ela apresenta sobre sua obra e seu percurso como artista e ativista, estamos lançando o 23º episódio do Desaquenda e a publicação HAY PARA LER, confira:

***

PESSOAS TRANSEXUAIS, TRAVESTIS E NÃO BINÁRIAS NA PERFORMANCE E TEATRO: NÃO DÁ MAIS PARA FINGIR QUE NÃO PRODUZIMOS.

Por Vulcanica Pokaropa.

Sou Vulcanica Pokaropa, uma travesti nascida em 1993 em Presidente Bernardes, uma cidade de 15 mil habitantes no Oeste Paulista onde o agronegócio, igreja católica/evangélica e a polícia monopolizam tudo até hoje, não permitindo que chegue arte, que a cultura da reflexão se faça possível nesse ambiente, fazendo permanecer como lazer apenas eventos organizados pela igreja católica e rodeios. Foi nesse ambiente que vivi por 20 anos, tendo como referência poucas corpas que fugiam da hetenorma imposta na nossa sociedade, dentre essas pessoas, a única travesti que aparecia pela cidade vez em quando chamada “Dara”, travesti não branca, não higienizada, alcoólatra, que vivia pedindo dinheiro para as pessoas e sempre encontrada dormindo pelas ruas da cidade. Lembro que a segunda travesti que tive contato foi uma prima distante, chamada “Paloma”, isso eu já devia ter uns 13 pra 14 anos, nos encontramos em um final de ano onde reuniram a família de minha avó materna e lá estava ela.

Faço esse apontamento pelo fato de ser cruel com a nossa população não ter referências de semelhantes, e isso não é sobre não ter travestis, transexuais ou pessoas não bináries ao meu redor na minha infância e adolescência, é sobre saber que elas existiam e existem mas que não têm coragem de se colocar por medo da exclusão social, por falta de referências, por medo de serem rejeitades pela família, por ser negade o direito ao mercado de trabalho formal, a qualidade de vida, a vida. Isso porque sei que da minha geração mais três pessoas da minha cidade transicionaram após saírem de lá. E eu me incluo nessa, iniciei minha transição na cidade, mas só consegui realmente me posicionar de fato quando saí novamente de lá. Sei que ainda existem pessoas por lá que talvez não terão o privilégio de sair, terão que se manter a vida toda dentro do armário? Como é que a gente lida sabendo  disso? Até quando essas regras que a branquitude cis criou vão permanecer?

Já passou da hora dessa branquitude cisgênera se rever e debater sobre si, sobre a estrutura social genocida que seus antepassados construíram e que essas pessoas mantêm, mas pelo visto não querem. É como diz Caio Jade em seu episódio da Série Desquenda: a branquitude cis não se marca, se coloca como transparente, universal, necessário, verdadeiro, essencial e que transita, e hipermarca outros corpos para que eles não consigam transitar, não consigam passar. Basicamente essa é a regra da colonização que se mantém e se reinventa, se reencena.

Dados da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (ANTRA) estimaram que 90% da população Trans trabalha na prostituição. Esses números foram coletados em encontros nacionais que realizam a cada ano. Essa média ainda é muito atual, com uma leve oscilação para menos, pois se por um lado algumas dessas pessoas ingressam num trabalho formal outras nascem e experimentam a prostituição como a forma inicial, às vezes muito precocemente pela exclusão familiar e social, para ter o seu próprio sustento — já que o poder público não desenvolve ações para incluir nossa população em ocupações profissionais formais e as instituições que trabalham com a gente também não dispõem de recursos e iniciativas que pensem em ações mais efetivas. É muito cômodo para uma sociedade excludente tapar seus olhos para esses seres “abjetos” à sua própria sorte e naturalizar as violências físicas e letais sofridas por nós.

#23 DESAQUENDA já está no ar, assista agora!

Por rolar muito silenciamento e apropriação do que somos, resolvi falar sobre corpas T no circuito do teatro e performance. A intenção é visibilizar nossas vidas, nossas potências e trazer referências para nós mesmas e para o mundo cisgênero, acessando a pluralidade de linguagens e discursos que temos explorados e vivido dentro do campo das artes. Cansamos do apagamento e da desvalorização, por isso esse trabalho conta com uma série de vídeos chamada Desaquenda, que está disponível no YouTube para que possamos nos ver e criar pontes, identificações entre nós. A série fala sobre performance, teatro, vida, militância, desejos, raça, classe, humanidade. Precisamos refletir sobre o modo de educação e referencial que temos tido até o momento e o que já não dá mais para suportar. Também pensar sobre a má distribuição de renda e os trabalhos que circulam nos meios artísticos e de formação, não se esquecendo que pessoas T também estão produzindo materiais de extrema qualidade.

A escolha de produzir um material em vídeo é a tentativa de que não se tornasse apenas apontamentos meus e que pudessem ser acessadas mais facilmente por diferentes públicos já que, honestamente, espero que isso não se perca na história do teatro e da performance no Brasil. Em 2020, três vídeos da série entraram para o Acervo do Museu de Arte Moderna (MAM) de São Paulo, me tornando a primeira artista trans/travesti a ter trabalho no acervo da instituição.

Clique na imagem acima ou neste link e baixe a versão online e gratuita da HAY 9 PARA LER!

Somando a isso, há o fato de eu estar cansada de ouvir de bocas cisgêneras que nós não estamos produzindo, que nós não estamos qualificadas, e que não nos conhecem como ouvi, por exemplo, no encontro da Rede Brasileira de Teatro de Rua. O Brasil é o país que mais mata pessoas trans e travestis no mundo. Diante disso, esse trabalho surge também do medo de perder essas pessoas no meio do caminho sem termos registros delas falando por elas. Sempre que encontro alguém e não consigo registrar aquela pessoa falando em vida, fico com medo de não ter outra oportunidade, ou de ser morta também e não conseguir continuar com meu trabalho. Desaquenda é sobre vida, sobre encontros, é sobre estarmos vivas e produzindo, sobre estarmos trilhando caminhos que até então a sociedade não quis e não quer que façamos.

Desaquenda é meu principal trabalho de Mestrado em Teatro pela Udesc, e o primeiro trabalho avaliado dentro da pós-graduação em Teatro não sendo o texto a principal fonte, e isso é uma coisa que temos que refletir também. Com essa produção audiovisual consegui passar em um edital de Arte Contemporânea onde realizei minha primeira exposição individual em 2019, no Memorial Meyer Filho, em Florianópolis – SC, que tentaram censurar, mas não conseguiram. Fui chamada para expor no 36º Panorama de Arte Brasileira: Sertão, que aconteceu no MAM / SP também em 2019. Bateu recorde de visitação na história do Museu com mais de 2 mil pessoas, sendo que eu (Vulcanica Pokaropa) e Rosa Luz somos as primeiras travestis a expor trabalhos naquele espaço — o Museu tem 70 anos. Sou a primeira travesti a expor trabalho na vitrine do museu, que é o único lugar possível de ser visto estando fora do prédio.

O título Desaquenda vem de uma palavra do pajubá, a língua das travestis, criada na rua como estratégia de resistência e enfrentamento às violências sofridas. O pajubá sempre foi ensinado na oralidade, uma mana passando para outra. A palavra Desaquenda tem vários significados, entre eles “fala mesmo, bota pra fora”.

Que a Furya Travesti continue em nós! Tuda nossa e nada deles!

* Esse texto é um fragmento da Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Teatro do Centro de Artes, da Universidade do Estado de Santa Catarina, como requisito parcial para obtenção do grau de Mestra em Teatro, área de concentração Teorias e Práticas Teatrais, na linha de pesquisa Linguagens Cênicas, Corpo e Subjetividade, em 2019.

***

A Hay em português foi uma publicação produzida entre 2012 e 2019 e disponibilizada pela plataforma par(ent)esis em versões impressa e digital para leitura. Hay 9 foi produzida no Programa de Pós-Graduação em Artes Visuais do Centro de Artes, coordenado por Regina Melim e ministrado por Lívia Aquino, durante os meses de abril, maio e junho de 2019. Agradecimentos especiais a Vulcanica Pokaropa que gentilmente aceitou o convite para participar desta edição. No contexto dessa Hay, para ler há um seminário de pesquisa para o qual a proposição foi investigar a leitura como elemento e ação nas artes visuais, explorando seus usos, sentidos, formas e materialidades. A partir de autoras – artistas, escritoras, críticas, filósofas, educadoras, comunidades. O que apresentamos nessa edição da Hay é o resultado desse laboratório de leituras, de sobreposições do texto escrito e falado, de desconstruções conceituais, de convites a participação, de traduções da linguagem e de contextos, da presença dos corpos que leem. Assim, além dos texto disponibilizamos alguns áudios que fazem parte igualmente dessas experimentações. Para ler e também escutar. Participam desta edição Carolina Moraes, Daniela Avelar, Daniela Castro, Daniel Leão, Djuly Gava, Fabio Morais, Gabi Bresola, Gabriel Coelho, Gustavo Reginatto, Iam Campigotto, Jaymini Pravinchandra Shah, Kamilla Nunes, Marcos Gorgatti, Marcos Walickosky, Michal Kirschbaum, Mônica Hoff, Pablo Paniagua, Patrícia Galelli, Sandramara Goulart dos Reis, Sarah Uriarte e Tina Merz. Agradecimentos especiais a Vulcanica Pokaropa que gentilmente aceitou o convite para participar desta edição.

Vulcanica Pokaropa é travesti formada em Fotografia, Mestra em teatro pela UDESC e sua pesquisa aborda a presença de pessoas Transexuais, Travestis e Não Bináries no Teatro e Performance, onde a série “Desaquenda” foi seu principal trabalho e está disponível no youtube pelo canal da “Cucetas Produções”. Três vídeos da série “Desaquenda” fazem parte do acervo do Museu de Arte Moderna de São Paulo. Pesquisa bambolê, contorção e comicidade, integra Cia Fundo Mundo, cia de circo formada exclusivamente por pessoas transexuais, travestis e não bináries que tem circulado com o espetáculo “Sui Generis” utilizando da comicidade para tratar da realidade que pessoas trans vivem no Brasil. Performer, Poeta, Artista Plástica e Visual, Produtora Cultural.

EXPO | TRANSvisual

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.