O telhado de cada pessoa

Por Paulo Pappen, para Desacato.info.

As pessoas são que nem casas. Cada uma tem um teto diferente.

Umas têm o telhado de zinco, que repercute tudo exageradamente. Uma simples chuvinha parece um temporal. Uma mini pedrinha parece um bombardeio.

Outras têm teto de telha, que aguenta bem as intempéries no início, mas aos poucos vai criando musgo, acaba rachando e começa a pingar bem em cima do fogão à lenha.

Tem também aquelas que têm telhado de brasilit, hoje em dia mais conhecido como amianto, que uma vez era uma grande inovação tecnológica pra acabar com todos os problemas telhadais só que depois descobriram que dá câncer.

E tem aquelas que o telhado é uma laje, boa de estender roupa em cima e ficar no sol tomando mate. Esses tetos aguentam firme, dá pra dançar funk em cima que a laje malemal treme. Só que quando chove a água vai empoçando e infiltrando e pinga também em cima do fogão.

Mas nada se compara com aquelas que têm telhado de palha, um sistema orgânico em harmonia com o meio ambiente, que o sol entra em feixes pelas frestas e a água, então, flui que é uma beleza.

E aquelas que têm teto de lona? No calor é um forno, no frio é uma geladeira auto-descongelante, o que não é exatamente uma vantagem nesse caso. Sem falar que a água vai acumulando e daí precisa ficar erguendo a lona com uma vara pra ela escorrer pros lados e não desabar dentro do lar.

Diz que o tipo de telhado mais sensível é o telhado de vidro: que qualquer pedrada quebra e se alguém sobe em cima vê tudo que acontece dentro da casa. Mas mais sensível mesmo é o telhado de papelão, que no sol resseca e pega fogo e na chuva empapa e se desmancha.

Devido a essas diferentes características, existem pessoas que precisam consertar o telhado uma vez a cada década e outras que precisam consertar o telhado a cada dez minutos. Por aí já dá pra perceber a variação entre a ansiedade de umas e outras.

Dizem que o casamento é uma forma de morar debaixo do mesmo teto. Mas é mentira, já que cada pessoa tem um telhado só dela. É por isso que raramente dá certo.

Por exemplo, o caso de uma pessoa com telhado de zinco e uma pessoa com telhado de telha: quando chove, a do teto de zinco fica apavorada achando que vai acabar o mundo enquanto a que tem teto de telha percorre a casa toda distribuindo baldes, canecas, bacias e gamelas onde tem goteira. E não é que quando tem sol fica tudo bem. Pelo contrário. Quando tem sol, aquela que tem teto de telha sobe no telhado pra trocar as telhas rachadas enquanto a que tem teto de zinco fica embaixo dizendo “viu, eu te falei que era pra ter teto de zinco”, como se a pessoa do teto de telha pudesse escolher, como se fosse simplesmente o caso de ir na loja comprar material e trocar o teto da própria casa. E como se fosse de fato melhor ter teto de zinco pra ficar surdo toda vez que cai uma garoinha.

Mas ter o mesmo tipo de telhado não significa que o casal vai se dar melhor. Por exemplo, as pessoas que têm telhado de lona vão sofrer cada uma no próprio forno, e as pessoas que têm teto de vidro vão ficar expostas cada uma na própria intimidade, e aquelas que têm laje vão querer fazer festinhas diferentes ao mesmo tempo cada uma na própria laje.

Isso tudo sem falar que, quando chove na casa de uma, não dizer que chove também na casa da outra. Cada pessoa, além do próprio telhado, têm também a própria atmosfera, umas com a camada de ozônio mais furada do que as outras.

Seria preciso, e bota preciso nisso, um sistema meteorológico que desse conta de prever quando é o melhor momento das pessoas se ajuntarem e quando é o melhor momento das pessoas se separarem. Mas o melhor, melhor mesmo, seria poder sair da própria casa de vez em quando e ser recebido com mate e rapadura na casa de outra pessoa com um telhado melhor que o nosso.

 

Paulo Pappen é de Caxias do Sul, torce pro Caxias e gosta de literatura, anarquia e marcenaria.

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