O ser humano sufocado em sua vontade de ser

foto: Celso Martins
foto: Celso Martins

Por Míriam Santini de Abreu.

Ontem, a caminho do TRT, na rua Esteves Júnior, eu parei para ouvir um homem que se colocou à minha frente. Ele estava vestido com calça de tergal, camisa branca e se movimentava com o auxílio de duas muletas. Contou, com jeito de quem estava com lágrimas prontas a rolar dos olhos, que estava na perícia e o INSS ainda não havia liberado seu pagamento do mês. Precisava de uma cesta básica e de um bujão de gás para levar para casa.

Eu não tinha dinheiro, mas me lembrei de um cheque meio amassado no fundo da bolsa e o preenchi com o valor de um bujão. O homem, pai de dois filhos, começou a chorar, falando de seu constrangimento por estar a pedir na rua, de sua experiência de estar se sentindo humilhado. Quis beijar a minha mão, gesto que repeli. Sentei-me ao seu lado, nos pegamos as mãos e eu afirmei que tudo ficaria bem, que tudo iria melhor.

Falei sem fé, porque as coisas não mudam por ato de nossa vontade. Não no mundo capitalista. E por assim pensar, logo me levantei para não me sentir ainda mais hipócrita e para não chorar ali com ele, cada um com a sua miséria.

Disse a ele para descontar o cheque no banco, mas ele respondeu que preferiria pagar as compras direto no mercado.

– Mas no mercado vão pedir o meu doc… – avisei. Antes mesmo que eu terminasse a frase, ele exclamou, puxando uma pilha de papéis do bolso:

– Eu tenho, eu tenho os meus documentos!

Lembrei-me então de uma notícia em um jornal local, sobre duas mortes na Via Expressa, que liga a ilha ao continente. Um dos mortos foi um indígena que trabalhava como servente. Ele atravessava a via para comprar alimentos para o jantar dos filhos. Minutos depois a esposa o viu coberto por um plástico. Segundo a notícia, o homem não sabia ler nem tinha carteira de identidade.

Aquele gesto do homem com que eu falava, de tirar os documentos do bolso, e justamente ali, na frente do Tribunal do Trabalho, foi de uma tristeza insuportável.

Pena é que, como disse José Saramago, Deus não existe fora da cabeça das pessoas que nele crêem. Mas o fato é que, nesse mundo, ser ateu também não é para qualquer um.

Recordo de um texto do jornalista Marcos Faerman, no Manifesto de libertação da palavra:

A busca de uma realidade exige uma linguagem capaz de captá-la. Esta linguagem não é uma fuga (tese dos populistas chulos, contra os revolucionários chucros). É o único caminho para nos levar à débil captação de uma sociedade e de suas contradições. E da única coisa que interessa: o ser humano sufocado em sua vontade de ser.”

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