O Racismo Construído

Publicado em: 15/11/2011 às 10:53
O Racismo Construído

Por Raul Longo.

Para Edson Braga – O Anjo Provocador

Das 4 oligarquias que monopolizam as comunicações no Brasil, 3 são de origem judaica: Marinho, Civita e Mesquita.

A pseudociência e a imprensa internacional citam uma etnia judaica. Isso é falácia. Nunca existiu.

Havia os hebreus e diversas outras tribos e clãs de uma única etnia: os Semitas. Se não todos, praticamente todos os semitas eram nômades que acossados por hititas e persas vagavam abaixo da Anatólia (atual Turquia) entre o Mediterrâneo (atuais Síria, Líbia, Palestina e Jordânia), estendendo-se pela Mesopotâmia (atual Iraque). Ao sul se limitavam entre o Mar Vermelho e o Golfo Pérsico na grande Península Arábica.

Voltando à atualidade, os semitas judeus, antes hebreus, não comandam apenas os grandes meios de comunicação do Brasil. Rupert Murdoch, o maior empresário de comunicação do mundo, que através da News Corporation detêm a Fox, a Sky, Direct TV, New York Post e as publicações que o governo Britânico tirou de circulação por escândalos de investigações indevidas e corrupção; também é filho de judeus.

Desde o final da Segunda Guerra Mundial, por todo o mundo as corporações capitalistas judaicas estimularam, incentivaram e apoiaram seus patrícios a investirem no setor de comunicações, tornando-os os grandes formadores da opinião pública internacional. Seja em nível mundial, como no caso de Murdoch, ou regional, como no caso de Maurício Sirotsky que além de repetir a TV Globo, monopoliza toda a imprensa falada e escrita nos estados do sul do Brasil.

Considerando que por milênios os judeus foram sem dúvida as maiores vítimas da difusão de preconceitos, sejam raciais ou religiosos, seria de imaginar que essa ampla rede internacional de comunicação e produção cultural se pautasse no combate a torpe manipulação de preconceitos e racismos.

Para entender o fundamento desse raciocínio, convém revisitar um pouco mais a história lembrando que os europeus se exterminariam por si mesmos, soçobrando à violência e a ignorância insuflada entre os povos daquele continente desde a Idade Média.

Observando-se os registros da história européia, se conclui que não existiria o que hoje se aponta como Civilização Ocidental se os mouros não houvessem aceitado o pedido de socorro do Bispo Olião.

Olião recorreu à aliança do Califa de Marrocos contra Roderick, rei de Toledo na Ibéria ocupada pelos visigodos. Bárbaros de origem germânica, os visigodos converteram-se ao catolicismo, mas alguns, como Roderick (ou Rodrigo em espanhol) adotaram os princípios da não consubstancialidade entre Cristo e Deus, difundidos pelo Bispo Ário, de Alexandria (Egito) que, por volta de 319, pregava contrariamente a concepção divina de Jesus, afirmando Deus como mistério único e renegando o da Santíssima Trindade.

Muito mais tarde, já no século IX, essa polêmica também alimentou o chamado Grande Cisma do Oriente, uma disputa política que dividiu a Igreja Católica em Apostólica Romana e Ortodoxa. Essa divisão ainda hoje permanece e dá continuidade a milenares conflitos de interesses que levaram ao declínio dos Césares da Antiguidade, substituídos no Império Romano do Oriente, sediado em Constantinopla, e o do Ocidente, em Roma, pelo Sacro Império Católico Germânico quando o também Carlos Magno (Karl der Gro ße) obrigou os de sua etnia à conversão ao Cristianismo, assegurando-lhes a ocupação do sul da Alemanha, então Francônia, e, ao finalizar a expulsão dos celtas gauleses iniciada por César, compôs a hoje França, onde se criou e desenvolveu o idioma neolatino ali empregado.

Esses fatos bem demonstram quanto à promoção e utilização dos preconceitos em geral e religiosos em particular, por interesses de grupos políticos e econômicos, se responde com o impedimento da evolução humana, pois os conflitos entre as Igrejas Católicas, Romana e Ortodoxa, que já foram sangrentos, desmentem a hipócrita adoção do conceito de igualdade entre os homens.

Se as predigas atribuídas a Cristo não nos salvou da promoção da intolerância, promovida pelos que se dizem seus representantes; em seu intuito de unificação das diversas tribos semitas, o profeta Maomé responsabilizou seus seguidores pela proteção dos Povos dos Livros Sagrados: a Bíblia cristã, o Torá judaico e o próprio Alcorão islâmico.

Dado o então desinteresse da Igreja Romana em intervir nos conflitos regionais que eclodiram entre os reis visigodos da Ibéria, o Bispo Olião, versado em árabe e conhecedor dos preceitos islâmicos, recorreu ao Califa por interesses políticos/territoriais denunciando as crueldades praticadas por seus oponentes, ainda que patrícios, contra judeus e cristãos não arianos (ou não seguidores daqueles antigos preceitos do Bispo Ário).

E assim, através do General Tarik, em 711 se deu o que seria chamado de Invasão Moura. Quando a Igreja Católica Romana assustou, os judeus já haviam aberto os portões de Toledo à Tarik.

Percebendo que os Povos dos Livros Sagrados da Ibéria eram igualmente perseguidos e explorados por todos os reis visigodos e católicos (dos quais ainda hoje descendem as elites hispânicas e lusitanas), Tarik e seus posteriores ali permaneceram por 8 séculos.

Neste período os Mouros, assim chamados pela cor da pele herdada dos berberes — não considerados etnia por provirem da miscigenação de diversas ascendências de povos nômades africanos, inclusive negros – implantaram na Europa inovações até então desconhecidas e impedidas pela Igreja Católica.

A primeira delas foi a tolerância às divergências religiosas, conforme documentado numa rua de Toledo onde ainda permanecem, lado a lado, uma igreja católica, uma sinagoga e uma mesquita.

A frágil civilização europeia se extinguia nas guerras dos povos bárbaros e divergências territoriais de católicos entre si, dizimando-se também pela ignorância e falta de higiene que promoveu inúmeros surtos epidêmicos como o da Peste Negra que no século 14 reduziu em 1/3 a população do continente.

Se não houve mais vítimas na Europa foi porque em Córdoba, capital do califado ibérico, institui-se as primeiras faculdades de medicina do continente, a primeira Universidade, bibliotecas, sistemas de saneamento, noções de urbanismo e arquitetura mais arejada e salubre.

Ali também se desenvolveu o movimento de arte Moçárabe que reunia artistas cristãos e islâmicos, além de se resgatar filósofos e autores da antiguidade grega proscritos pela Igreja Católica Romana, e nos quais mais tarde se fundamentou o florentino movimento Renascentista.

Alguns autores tentam justificar a imunidade ibérica às pragas que grassavam por toda Europa, através de ilações sobre um inexistente isolamento durante os 8 séculos de ocupação moura. No mínimo trata-se de total desconhecimento da matéria de que se pretendem especialistas, posto que Córdoba foi então a mais visitada e frequentada cidade do mundo, além de a mais populosa do hemisfério norte. Centro do comércio internacional, sua moeda era a mais valorizada entre as que então existiam.

Pelas universidades ibéricas se destacavam os maiores cientistas da época, sobretudo matemáticos judeus que assimilaram a ciência dos Babilônicos que por sua vez a haviam herdado dos sumérios.

Paralelamente, no restante da Europa o Sacro Império Romano difundia o movimento dos Flagelantes que queimaram vivos leprosos e judeus, acusando-os de responsáveis pela disseminação na Peste Negra.

A Peste Negra também atingiu o norte de Portugal onde se concentrava a resistência à ocupação mourisca e, em 1569 atingiu Lisboa promovendo cerca de 600 mortes por dia.

Apesar de imunes ao longo dos séculos da ocupação moura, um milhão de espanhóis vieram a sucumbir à chamada Peste Espanhola entre 1596 e 1602.

Com a reconquista cristã da Ibéria em 1492 os mouros retornaram à África no mesmo ano em que o herdeiro de suas artes de navegação, Colombo, descobriu as Américas; confirmando não ser nenhum exagero conferir às peles escuras daqueles africanos as luzes que iluminaram os caminhos seguidos pela civilização ocidental nos séculos posteriores, desde o Renascimento.

Bem verdade que os preconceitos religiosos continuaram provocando massacres e selvagerias como o da Noite de São Bartolomeu em 1572 quando, em França, os cristãos católicos assassinaram a 100 mil huguenotes (cristãos protestantes). Ou o da Semana Santa do ano de 1506, quando em Lisboa frades dominicanos prometeram absolvição de pecados a quem matasse os hereges (judeus) promovendo 3 dias de violações, torturas e assassínios.

Todos estes registros históricos suscitam grande estranhamento quando uma Editora Abril, fundada pelo judeu italiano Victor Civita, nascido em Nova York e de dupla nacionalidade, brasileiro e estadunidense, recorrentemente promove e divulga racismos não apenas contra semitas árabes, mas também contra negros, estendo-os aos nordestinos.

Não por acaso a Abril se associou ao grupo Naspers, um dos maiores conglomerados de empresas no setor de comunicações e telecomunicações em praticamente todos os países do mundo capitalista e até mesmo na China. O grupo Naspers foi um dos sustentáculos do regime racial de apartheid da África do Sul, derrocado pela liderança de Nelson Mandela.

Entre outros, Pieter Botha, o último e mais radical dirigente do país no apartheid e o mais acirrado inimigo de Mandela, também foi diretor da Naspers.

No entanto, convém lembrar que entre os anos de 1966 e 1976 a mesma Editora Abril publicava a saudosa Revista Realidade. Primeira publicação brasileira a desmistificar diversos tabus de nossa sociedade, já em 1968, com a promulgação do AI 5 da ditadura militar, a Realidade perdeu a tônica investigativa que revolucionou o jornalismo brasileiro, abordando de forma contundente temas como o coronelismo, a política eclesiástica de Roma, a mulher brasileira e o racismo num país que já então se mentia como Democracia Racial,

Ao nos depararmos com a capa de uma edição de agosto de 2006 da Revista Veja, da mesma Editora Abril, associando à foto de uma mulher negra à legenda: “Nordestina, educação média, 450 reais por mês, Gilmara Cerqueira retrata o eleitor que será o fiel da balança em outubro”, se pergunta o que foi feito da Revista Realidade que ao tratar do tema produziu a montagem de duas metades de rostos femininos a formar um único, ainda que um lado de mulher negra e de outro de mulher branca.

Quem são os judeus: os donos da Editora Abril ou os frades dominicanos da Lisboa de 1506? Será a Gilmara, apontada como ignorante e responsável pelo que os editores da revista consideram a Peste Negra brasileira?

Lendo as páginas de uma edição do O Estado de São Paulo, fica difícil discernir quem mente a história da família Mesquita. Serão os donos do jornal ou Lucia da Mota no resumo de sua dissertação de mestrado em filosofia pela USP, contando que em 1682, o cristão-novo (judeu forçosamente convertido ao cristianismo) Gaspar da Costa Mesquita foi preso nos cárceres da inquisição em Lisboa?

Se em 1683, como conta Lucia da Mota, a filha de Gaspar, Michaela Mesquita, foi presa com 16 anos de idade e, para escapar ao Santo Ofício, seus irmãos emigraram para Piratininga, trocando a situação de filhos de “importante família do círculo financeiro português” para de lavradores; por que o Jornal O Estado de São Paulo não denuncia o sistemático massacre de jovens e crianças semitas na Palestina, pelo governo sionista de Israel?

Por que não denuncia a inquisição do Governo de Geraldo Alckmin, adepto da Opus Dei (ordem católica que dirigia o Santo Ofício na Europa) contra as comunidades pobres da capital e do estado de São Paulo, em sua maioria formada por cidadãos negros?

Por que os telejornais da TV Globo não denunciam as associações dos especuladores de petróleo com a Al Qaeda? Com Sadam Hussein? Com Muammar Kadhafi? Com Hosni Mubaraki e demais sheiks tirânicos dos emirados árabes?

Num país onde a miscigenação entre negros e brancos é tão evidenciada e admirada por todos que aqui chegam, por que na programação de todas as emissoras do país, nas páginas de publicações de todas as editoras, tanto se evidencia a omissão dessa realidade social?

Como detentores das maiores empresas de comunicação do Brasil, essas famílias de descendentes de judeus não teriam a responsabilidade histórica de influir na promoção da tolerância, compreensão e assimilação de nossas diversidades culturais?

Não contribuiriam, como formadores da opinião pública brasileira, para evitar que aqui se venha a desenvolver a construção do racismo difundido entre os povos germânicos pelo regime nazista?

Ou fora da lógica e paradoxal seriam as conclusões do raciocínio de meu anjo provocador, Edison Braga, quando me influiu ao desenvolvimento de roteiros como o deste 3º episódio de “Orixás”, em anexo?

3º Episódio – ZARATEMPO IROKO!

Projeto de Édison Braga                                                Roteiro de Raul Longo

Novos Personagens:

Nadinho: Homem mentalmente infantil apesar da maturidade física.

Daniel: Negro forte, grande. Sereno, sério e respeitoso. Pescador, correto e sem malícia.

 

Mestre João: Homem velho de olhos verdes. Sarará de pele clara, mas crestada de sol, barbudo. Magro, mas forte. Tipo sábio e estoico.

Cena 1 – Penumbra de interior iluminado por nesgas de luz incidentes de fora. Tomada através de frestas de veneziana

Adentrando o aposento, Girce envolvida em uma toalha, com outra sobre a cabeça. Senta-se sobre uma cama e desata a toalha dos cabelos, pressionando-a aos cachos se derramando pelos ombros. Um ruído contra a veneziana a faz sentir-se observada e volta-se com sorriso malicioso.

 

Cena 2 – Externa sob a mangueira

Meio desajeitado e evidenciando algum desvio mental, Nadinho salta da garupa de bicicleta assim que avista o grupo do episódio anterior sentado à sombra da árvore. Traz uma escultura entalhada em madeira nas mãos. Enquanto Daniel apoia a bicicleta mais adiante, aproxima-se ao grupo.

     Nadinho

É Pai Tempo! Pai Tempo… Daniel quem fez!

Andrew

Uou! Very beautiful!

Tenente

Que Pai Tempo é esse, Nadinho?

Nadinho

Pai Tempo… Pai de Mãe Edite. Pai de Daniel. Foi pro mar…

Bibi

Pai Tempo era o pai de Mãe Edite?

Daniel

(achegando-se à mesa)

Não. Era o homem de Mãe Edite. Também não foi meu pai, não. Era meu mestre. Um grande mestre.

Tenente

Você é Daniel?

Daniel

Esse mesmo!

Andrew

Quanto custa esso?

 

Daniel

Não custa nada não, moço. Não tá a venda.

Tenente

Sente aí Daniel!… Precisamos conversar. Nós estamos com um problema sério.

Bibi

Põe sério nisso! É um problemão! Envolve relações internacionais, pode desencadear um bloqueio internacional à Bahia e até intervenção armada norte-americana! Uma guerra!

Andrew

Eu pága em dólar.

Daniel

        Mas esse não vai dar não, moço. Só se for outro. Esse eu fiz pra Mãe Edite. É presente.

Tenente

Você esteve no afoxé de Exu ontem, Daniel? Esteve lá na praia?

Daniel

Acompanhei um pouco, mas não fiquei na praia, não. Voltei logo pra casa, pra terminar a estaltua aí.

Andrew

Eu quero esso! Eu vai comprar esso!

Tenente

Aconteceu o seguinte, Daniel…

Cena 3 – Mesmo interior da Cena 1, ainda entrevisto pelas frestas de persiana.

Girce aproxima-se da janela, entreabrindo e prendendo novamente a toalha, permitindo por rápido momento a visão de seus seios. Ao abrir repentinamente a persiana bate em algo e Girce finge espanto. Dodô Excelência leva a mão à cara atingida e geme de dor.

 

Girce

Seu Dodô! Lhe magoei? Me perdoe! Ô meu pai Oxalá! Deixa eu ver! Vou esquentar uma água pra por com sal, antes que isso vire um calombo!

Dodô

Não é nada, não. Deixe! Vim aqui pedir…

Girce

        Ô Iansã, minha Santa Bárbara! Eu achando que fosse Zué!

Dodô

Quem é esse? Seu namorado?

Girce

Imagine Seu Dodô! Sô muito criança pra isso de namoro, não vê? Sô uma menina ainda! Esse Zué também é moleque, mas muito do safado. Vive me espionando no escondido, num sabe? Achei que fosse ele! Não ia imaginar que fosse o senhor. Um homem na sua idade, num ia se dá a esse desrespeito, não é mesmo?

Dodô

(já se afastando)

É… É que chegaram, num vê? Então vim pedir uma cerveja, se tiver. E uns copos. Devem estar com sede.

Girce

Tem sim. Fique descansado, que já levo ali. Não dói, mesmo?

Dodô

Não, não. É só levar a cerveja que sara.

Com sorriso maroto Girce torna a fechar a janela.

Cena 4 – Externa sob mangueira

Dodô chegando à mesa sob a árvore, em meio à conversa.

Bibi (para Andrew)

Ixe! Mas que chateação! Ele já disse que não quer vender. Nem tudo é dólar não, seu moço. Mas se gostou desse, ele faz outro, não é Daniel?

Daniel gesticula assentindo.

 

 

Bibi

(cochichando para Daniel)

Depois você me passa o preço que eu acerto com o gringo. Ponho 10% em cima, que tem aí a comissão de marchand.

Tenente

Pronto Dodô! Resolvido! Mestre Daniel aqui disse que podemos ficar tranquilos. Assim que encontrar a nossa Iemanjá, vai despachar ela direto pro hotel. É só o Mister Tower aguardar que hoje mesmo ele tem a sereia de volta.

Dodô

Que conversa é essa? Vamos é buscar a moça agora mesmo. Chame        sua tropa e vamos aí com o Daniel bater de barraco em barraco.

Tenente

Pega leve Dodô! Não é assim. O Daniel aqui é uma liderança da comunidade. Ele não tem ideia de com quem a loira pode estar, mas já vai sair falando com um por um, explicando quem é a    moça. Claro que não vão querer arrumar encrenca pra comunidade e eles mesmos vão levar a moça pra casa. O único risco é ela ter gostado da coisa preta e querer levar pros Isteites.

O Tenente ri, olhando em volta e pedindo coro, mas Bibi tira linha com Daniel que, alheio, não se dá conta. Andrew continua admirando os detalhes da imagem entalhada. Só Nadinho é quem comenta soturno:

Nadinho

O diabo quis me cegar lá nos Isteites. O que diabo não sabe é que passo o dia olhando pro sol.

Dodô

Eu tô dizendo! Foi só acabar a ditadura e esses polícia da Bahia ficarô tudo froxo! É saí invadindo barraco e resgatá a mulé agora!

Tenente

Calma Dodô! Não é assim! Mesmo na ditadura a comunidade aqui sempre foi respeitada. São todos pescadores, gente que lida muito bem com peixeira e todos bons de capoeira. Arrumá guerra com eles não vai prestar. Além do mais, você mesmo testemunhou que a moça foi por gosto. Se fosse uma brasileira, tudo bem. Mas é gringa e famosa. Vai que resolve por a boca no mundo e processa a gente pelos seus direitos civis! Sabe como essa gente de lá tem dessas manias, são tudo cheio dos direitos civis. Até os negros.

Daniel

(levantando-se)

Pois então vocês resolvam. Se preferir ir pela paz, é como eu disse: falo com a rapaziada e, se preciso, nós mesmos levamos a moça em casa. É só deixar o endereço. Mas se é pra ir pras cabeça, tô saindo pra avisar meus camaradas porque meu lugar é do lado de minha gente.

Girce

(surgindo com copos e garrafas de cerveja em bandeja)

Vai onde Daniel? Espera homê! Dodô foi até ali só pra me pedir a cerveja que tá pagando pra vocês, e tu já se     qué i s’imbora? Vá não, fique. Hoje ainda vem Marli.

Daniel

Marli? Pois agora é que vou saindo mesmo.

A ameaça da saída de Daniel provoca gesticulares de Bibi e do Tenente para Dodô, pedindo calma. Andrew tenta reter a peça que Daniel quer retirar de suas mãos. Girce serve os copos, começando por Daniel:

Girce

Oxê! Até parece que você não é derrubado de dengo por Marli. Fique! Tome sua cerveja sossegado. Se ela vier é só mais tarde. Cê conhece Marli! Diz que vem, mas nunca se sabe.

Andrew

Você no vai mesmo querer vender for me?

Daniel

Essa não posso não.

Bibi

Mas pode deixar que ele faz outro igualzinho pra você. Não é mesmo Daniel? Olhe Dodô, que lindeza.

Girce apanha a peça e se debruça para mostrá-la a Dodô à frente de seu decote.

Girce

Não é mesmo uma beleza, painho?

Andrew

Um Iemanjá, você pode fazer?

Daniel

É a imagem que mais gosto de fazê…

Bibi

Iemanjá é mais difícil. É mais caro.

Andrew

Você pode fazer um Iemanjá de um pessoa?

Daniel

Como é? Não entendi.

Andrew

Este você diz que é um pessoa, o homem de Edite…

Dodô

Esse não é o João da Jangada?

Daniel

Esse mesmo! Meu mestre João.

Bibi

Você conheceu Dodô?

Tenente

E não é que é mesmo? Agora que disse é que reparei. É João da Jangada todinho!

Dodô

E quem não conheceu João, o último jangadeiro da Bahia! Então ele era o homem da Mãe de Santo? Isso eu não sabia.

Bibi

Oxente! E Bahia teve jangada tumém, é?

Andrew

Este! Este que eu quero! Um Iemanjá que pareça a este pessoa que você vai procurá. Este mulher ator: Nelly.

Daniel

É… Ali é Tempo, o orixá do Mestre João. Então eu fiz como se fosse Mestre João, que parecia mesmo o senhor do tempo. Dá pra fazer, mas precisa ver se a moça se parece com Iemanjá.

Bibi

Todinha! Ela é Iemanjá, todinha. Mas aí é mais caro, visse Mister! Porque isso de fazer retrato, sabe como é, é sempre mais complicado.

Andrew

        No tem problema. Esto quem vai pagar é Dodou!

Dodô

Eu? Oxente! E por que eu?

Andrew

Porque vai ser seu presente pra Mister Tower: um Iemanjá com     cara de Nelly que ele perdeu por seu causa.

Dodô

        Pois eu quero que se lasque.

Andrew muda-se de lugar para sentar próximo a Dodô que observa Girce conversando com Daniel e Bibi, abraçada a Nadinho.

Cena 5 – Andrew, Dodo e Tenente em primeiro plano, com o restante do grupo à frente e ao fundo

Andrew

You don’t know the movie actriz of Hollywood. Vive de escandoulos for the mídia. Em North América vai dizer que foi abandounada em Brazil por Mister Tower and your brazilian partner.

Tenente

Grande ideia Dodô! Assim você amansa os gringos! (dando-se conta, para Andrew): Ô… Desculpa aí, é só um jeito de falar.

Girce

(retornando para Dodô)

Por falar nisso, vai querer um camarãozinho pra tira-gosto, meu rei?

Dodô

(cochichando só para Girce):

De você eu quero tudo!

Girce

Então tá! Duas porções bem servidas de camarão, e um, dois, três, cinco caldo de lambreta que tá uma delíça. Vai uma cachacinha que tem aí, da Chapada, mutcho boa? E mais cerveja? Quantas? Duas pra agora e duas pra depois, num tá? Depois, se quizé mais é só pedir, mas vamo pôr aí mais uns acarajé e uns abará que é do gosto de Daniel. Fechando até aqui dá 270 que pode pagar aí pro Nadinho. (saindo): Nadinho! Receba o dinheiro de Seu Dodô e leve pra Mãe Edite. Venha logo que é pra trazê o camarão. (para Dodô) Obrigada, visse painho.

Girce volta para a casa. Dodô questiona o Tenente:

Dodô

4 cervejas e uma porção de camarão, 270 pratas?

Tenente

São duas porções, ela falou.

Bibi

É… E tem a cachaça, o acarajé, abará. E teve o licor, Mãe Edite deslocou o pessoal todo pra ajudar a gente.

Tenente

        Tá certo Dodô! Importante é que resolvemos o problema. Se não fosse o Mestre Daniel aqui, a gente nunca que ia achar nossa Iemanjá, não é Mestre? (para Daniel, ainda em pé) Mas pêra lá! Então você foi discípulo de Mestre João, o último jangadeiro da Bahia! Senta aí e conta essa história.

Daniel

A gente ajuda no que pode. Mas agora tenho de ir… Não quero encontrar essazinha que vem aí.

Bibi

Ixe homem! Quê medo de mulé é esse? A menina já disse que não vem agora. Se é que vem!

Tenente

Isso mesmo. Fique e conte direito isso de ser discípulo de Mestre João, o último jangadeiro da Bahia.

Meio contrafeito, mas cedendo, Daniel acaba sentando.

                                               Daniel

Mestre João foi dos maiores pescadores que a Bahia já…

A fala de Daniel fica de fundo

Cena 6 – Nadinho de mão estendida, cobrando Dodô

Dodô puxa algumas notas da carteira e entrega a Nadinho que confere e volta a estender a mão, sempre impositivo:

Nadinho

Faltô os 10% e a gorjeta.

Dodô

10% ou gorjeta?

Nadinho

10% de Girce, gorjeta de Nadinho.

Dodô entrega mais notas e moedas. Enquanto Nadinho confere em silêncio, ouve-se a voz de Daniel.

Daniel (em off)

Fui o único a se despedir do velho João, meu Mestre…

Nadinho guarda o dinheiro e vai sair, mas volta e tira bruscamente a imagem das mãos de Dodô, falando como se numa advertência de quem exige respeito:

Nadinho

Pai Tempo.

Cena 7 – Externa. Dia

Céu nublado com nuvens escuras no horizonte de um mar agitado. Na praia um homem tomado pelas costas. Loiros e de longos cabelos revoltos pelo vento, embarca apetrechos de pesca sobre os troncos de uma jangada.

Voz de Daniel (off)

            Quê que há Mestre João?

Mestre João se volta com sua barba branca. Olhos claros e esgazeados, tez enrugada. Apruma-se, mas não responde, limitando-se no preescrutar o vento.

Camisa farfalhando, mais jovem do que nas cenas anteriores, aproxima-se Daniel caminhando sobre a areia que lhe foge dos passos, levada pelo vento.

 

Daniel

            Mestre! Nenhum barco sai hoje.

 

Mestre João não responde. Continua a recolher as tralhas de pesca espalhadas sobre a areia, colocando-as sobre os troncos da jangada. Num momento se volta, apruma-se novamente, mas já com olhar sereno, olhando adiante de Daniel.

Cena 8 – Fusão de close em Daniel

Daniel

É como o povo dizia: Mestre João num falava cum a boca… Falava cum os zóios.

 

Cena 9 – Praia com jangada em primeiro plano. Ao fundo e no alto, ranchos de pesca

Mestre João de costas e além do jundu grupo de homens olhando. Mulheres nos afazeres, crianças brincando. Todo o diálogo que segue é entrecortado por longos silêncios do Mestre João, realçados no constante zunido do vento.

 

Mestre João

            É o que tão dizendo aqueles uns, num é?

Daniel (em off)

Via sem olhar e escutava sem ouvir… Como diziam: alma de Holanda e espírito de África o fizeram meio bruxo, meio louco. Sabia de tudo, e mais:

 

Mestre João

Pois num carece de mandar uncê pra me dizer o que sei.

 

Daniel

Quem disse que num sabe? Pois se num foi o sinhô quem me ensinô e ensinô a maioria de nóis a ler o céu? Foi mesmo o inhô que ensinou os segredos de Iroko.

 

Mestre João

            Apois.

 

Daniel

Mas o Sinhô ‘inda num me ensinô tudo, Mestre. ‘Inda num posso sê um pescadô cumu o Sinhô. Fique Mestre! Não paga à pena se matar pru causo duma besteira dessa.

Mestre João

        Pior é a vergonha de ver ansim, du jeito que tá.

Daniel

            Mas Mestre, a regata continua sendo dos pescadô.

 

Mestre João

            Sim… Agora. Mas num muito. Di logo vai sê só deles.

 

Daniel

Si a gente num dexasse eles entrá, a Prefeitura também num ia dexá a gente continuá a regata. O Sinhô bem sabe disso tudo!

 

 

 

 

 

Cena 10 – Fusão de Daniel relatando aos demais, em volta da mesa sob a árvore

 

Daniel

Mestre João era mesmo aquilo: uma mistura de teimosias de Holanda e orgulhos de África:

 

Cena 11 – João e Daniel em close, contra fundo de céu em formação de tempestade

 

Mestre João

Sei não! Sei nada disso, não! Sei é que a Prefeitura só não ia dá prêmio. Pru causo dessa bosta de prêmio é que ocês vão fazê a regata na praia dos ‘barão’, pros ‘barão’ participá. Nem percebe que eles só tão usando ocês de isca, pra fazê figura. Adespois, eles vão botando ocês pra fora e o brinquedo fica só deles mesmo.

 

Daniel

            Aí a gente volta a fazê nossa regata no Rio Vermelho.

 

Mestre João

Aí é que não! Tá achando que eles vão dexá ocês concorrê?

           

Daniel

No menos a gente ganha o prêmio. Eles num entende de saveiro cumo a gente.

           

Mestre João

Oi qui rapaz: se tu tá querendo se enganá, qui si ingane suzinho! Tá achando qui num sei que vão concorrê de veleiro e escuna?

 

Daniel

Mas é outra catigoria, Mestre! Na catigoria saveiro o prêmio é nosso. Mas sem o inhô, suzinho, num consigo ganhá.

 

Mestre João

I pra que serve esse prêmio?

 

Daniel

            Vai dá pra nóis pôr motor no saveiro.

 

Interrompendo o que faz, Mestre João olha duro e ríspido para Daniel. Depois retorna às providências, cuspindo as palavras.

 

 

Mestre João

Sei como é! Dá pra pôr motor no saveiro e comprá essas redes de nailo. Aí é só vendê pras indústrias e pros mercados… Sei como é: o tempo mudô… Agora ninguém mais qué vendê seu            peixe, tudo qué sê empregado. É tudo pescador pescado.

 

Cena 12 – Close em pé de Daniel riscando semicírculo na areia

Abre enquadrando um Daniel envergonhado, observando a onda sorver sua meia lua inconsciente. Aproxima-se novamente inventariando os objetos da jangada. Em meio às tralhas de pesca, entremeada à rede, uma foto de Edite e a Menina do 2º Episódio, ainda criança. Daniel desperta à voz do Mestre:

 

Mestre João

            O tempo mudô…

 

Daniel segue o olhar do Mestre para adiante do jundu. Entre as pessoas se reconhece uma Edite jovem, acompanhada de uma criança na qual se reconhece a menina do 2º Episódio. Outras crianças, alheias, giram capoeira, jogam bola e empinam pipas que, ensandecidas, desenham incontroláveis espirais ao vento.

 

Daniel

E Dona Edite, Mestre? E a menina? Vão ficá aí suzinhas, no mundo? Pense um pouco Mestre!

 

Mestre João

São gente desse tempo. Quem vive no seu tempo nunca tá suzinho. Suzinho tô eu que tô mais velho que ninguém! Ninguém daí é mais velho que eu. Edite é nova, se faz. A menina tá se pondo moça e já num guenta minha rezinga. Tô muito velho e fora de meu tempo. Meu tempo já passô. Já sô estrovo e tá em minha hora de í!

 

Daniel

Maluqueira! Essa sua mistura de Holanda e África deu é nisso! Se não for a mistura, é a veeira! Cê tá maluco véio? Num tá vendo a tempestade aí? Num tá vendo que vai morrê?

 

Mestre João volta-se lento para Daniel. Olham-se nos olhos. Agora os do velho é que são calmos, desconcertando a exaltação do rapaz.

 

Mestre João

Pode di sê. É… Pode! Acuntece que vivi muito tempo no outro tempo. Agora o tempo mudô. ‘Tá tudo muito apressado, demais de corrido. Sei não… Eu acho mesmo que mudô foi nada, só mudô a cabeça do povo.

 

Daniel

Mas também num carece de se matá pru causo disso! O Sinhô ‘tá véio, se respeita. O Sinhô pesca seu peixe e vende aí, cumu    sempre foi.

 

Mestre João

            Oxente! E vô pescá suzinho?

 

Cena 13 – Seqüência de imagens de arquivo sobre atividade pesqueira

Pesca e comércio de pescados em diferentes épocas.

            Mestre João (em off)

Vô trazê arrastão suzinho? I se pego na linhada, no anzol, onde vendê o peixe? O povo agora só qué comprá de mercado.

Daniel (off)

Apois meu Mestre! Cuma é que se vai vendê o peixe, si o povo num compra na nossa mão?

 

Mestre João (off)

Num compra pruque num si vende! Antes de todo mundo virá      empregado, o povo sabia que pra comprá peixe tinha de sê na nossa mão. Agora ‘tá se habituando a comprá em mercado.           Num ‘dianta eu querê vendê, se todo mundo ‘tá pescando pra mercado.

Daniel (off)

Mestre, o sinhô percisa entendê qui a gente ‘tá ganhando mais     dinheiro, ‘tá trabaiando menos. Num se arrisca tanto.

 

Mestre João (off)

Sei… Mas se assunte bem do que vou dizê agora, pruque tu ainda há de vê o mercado fazê o preço deles, e aí tu num vai podê reclamá. Ninguém vai podê reclamá!

Daniel (off)

            Então a gente volta a vendê o peixe aqui na praia.

Mestre João (off)

Volta não. Pruque o povo num vai sabê mais aonde comprá da gente. Daí só vão comprá dos mercado.

 

Daniel (off)

Mas si a gente num vendê pru mercado, o mercado num vai tê peixe e vão tê de pagá o justo pelo nosso peixe.

Mestre João (off)

Bestêra! Si ocês num vendê, eles trais de outra cidade, de outras praias. Trais inté do estrangero. Pra podê vendê o peixe, ocês vão tê de se contentá com o que os mercado quizé pagá. Nem mais ocês que vão fazê o preço. Vão sê os atravessadô. Esses vão pagá uma ninharia pra quem pescô e cobrá um dinherão de quem comprá.

 

Cena 14 – Mestre João, cabelos fustigados ao vento.

Berrando para ser escutado por Daniel por sobre o crescente uivo do vento

 

Mestre João

E cês tudo vão tê de pescá muito! E longe! E com vento ou com chuva. Vão tê de se arriscá em tempestade pior do que essa aí.

 

Mestre João se volta para a popa e empurra a jangada que desliza rolando sobre troncos, até o embicar da proa. O Mestre recolhe uma poita e a coloca sobre a popa, para abaixá-la. Busca o tronco roliço que ficou para trás, saindo de sob a popa, e o arrasta até à frente. Encaixando o tronco sob a proa, mais ao meio possível. Retorna à proa, retira a poita, empurra e repete toda a operação sem parar de falar, ressaltando a resistência para sua idade.

 

Mestre João

Num vô comprá motor. Também num vô em regata de barão nem vô sê empregado de ninguém. Sou só pescadô. Pesquei e vendi o meu peixe e ‘tô vivo e forte. O mar me ensinô a tê amor à vida, mas o mar também me ensinô que sem amanhã essa vida num presta não. O hoje é muito bom, a gente tem de vivê o hoje como si fosse o sempre. Mas só vive o hoje como deve ser vivido quem acredita no ainda melhor do amanhã. Mesmo que o hoje seja o pior de tudo que já se viveu, só se consegue viver esse hoje se puder acreditar no amanhã melhor. E é pra isso que serve o ontem. Pra se acreditar no amanhã. Quem esquece o seu ontem, não tem como acreditá no amanhã, e vai vivê um hoje de merda.

Interrompe por um momento o seu vai e vem e olha em direção ao alto da praia.

 

Cena 12 – Tomada de grupo de homens, mulheres e crianças além do jundu, no alto da praia.

As mulheres conversam e observam. Uma está à janela do rancho. Seus cabelos esvoaçam ao vento. Os homens conversam, aparentando-se alheios, mas eventualmente observam a praia. Distingue-se Edite estática, segurando a mão da Menina. Edite se volta saindo para adiante da praia, puxando a Menina pela mão sem olhar atrás.

Mestre João (off)

Sei de jangada e sei de saveiro. Já ensinei a muita gente os segredos e os mistérios dos ventos e do mar. Até as magias ensinei. Quasi tudo aí foi meu aluno. Inté tu, tão novo… Te ensinei o que ensinei pra toda essa gente: os segredos e caprichos das deusas do mar: Iemanjá, Oxum e Nanã. Ensinei de Iroko, o orixá Tempo. Sei tudo… Até dos deuses eu sei, mas desse negócio de motor num sei nada. Sei de jangada e sei de saveiro. Mas num sei de motor.

 

Cena 13 – Mestre João empurrando a jangada

Com um último empurrão a proa boia sobre a água. Vem mais uma onda e o velho tem de firmar para a embarcação não adernar. Olha para a nuvem ameaçadora, avançando.

 

Mestre João

Mar e terra, pra mim sempre foi a mesma coisa… Coisas dos      homens. Sempre andei em terra com o mesmo passo com que ando nas água. Mas já não é assim… A terra agora é traiçoeira, arisca. O tempo mudô…

 

Sustentando a jangada por uma amarra enroscada ao pulso, retira a poita de cima da popa. Com o peso nos braços firma os olhos claros nos de Daniel.

 

Mestre João

            Não sei se minha maluqueira é de Holanda ou até de antes de África. Só de que sei é que tem um jeito de morrer que eu num gosto: é o de fundear bem cravada a poita e esquecer a tempestade da vida. Esquecer o ontem, se esconder do hoje e mentir o amanhã. Gosto não! Prefiro morrer bem vivo!

 

Larga a poita que se crava na areia entre suas pernas e as de Daniel. Olham-se calados. Abaixa-se para soltar o laço da amarra que prende a jangada à poita. As veias de seus punhos magros ressaltam-se sobre o desfazer do laço. Retém a corda com uma única mão pela qual a entrega a Daniel que toma um tranco do repuxo e tem de segurar com as duas mãos, firmando-se nas pernas e pés afundados na areia. Retesando outra corda e subindo a bordo da jangada, soergue a vela que se inflama rápido, impondo o desenho esguio. Daniel não pode suster o repuxo da vela e solta a corda quando Mestre João, rápido, recolhe um varão com o qual força o fundo dando rumo à embarcação. Ao estabilizar pela vela mantida no controle do cordame seguro no enlaço entre mão e braço, Mestre João ressalta-se à frente do fundo branco da vela sob o negror da pesada nuvem no céu.

 

Mestre João

Também intendo de canoa… Mas di motor num sei nada, não. Di qualquer jeito, ia mesmo morrê di fome.

 

A jangada segue para dentro do mar, corcoveando no quebrar das ondas, assistida por Daniel impotente. Repentinamente, com as mãos na boca, Daniel grita algo ininteligível e Mestre João não demonstra ter ouvido. Daniel insiste, mas o sentido perde-se no ruído do vento.

 

Cena 12 – Jangada afastando-se com Mestre João.

 

Sob o efeito de luz e sombra da iluminação prenunciando tempestade eminente, a pose de Mestre João congela ao assumir a mesma do entalhe das cenas anteriores, ao qual se funde.

 

 

Fim do episódio – 3

 

Na imagem: pessoa com careta de R. Murdoch.

 

Um Comentário para "O Racismo Construído"

  1. Tali   26/11/2011 at 18:01

    “Como detentores das maiores empresas de comunicação do Brasil, essas famílias de descendentes de judeus não teriam a responsabilidade histórica de influir na promoção da tolerância, compreensão e assimilação de nossas diversidades culturais?” Que sejam descendentes de judeus claramente nada quer dizer. A resposta pra perguntar você mesmo que deu: eles são detentores das maiores empresas de comunicação do Brasil, ou seja empresários capitalistas que jamais apoiarão o pobre, o excluído do Brasil ou os palestinos na Palestina e no exílio. Além do mais, as pessoas devem apoiar a diversidade cultural,serem tolerantes, etc. sem importar a sua origem, simplesmente por que são seres humanos.

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