“O que vemos na Amazônia nunca aconteceu na história do país”, diz pesquisador

Imagem do sistema de monitoramento climático Windy do dia 18 de agosto mostra alta concentração atmosférica (manchas vermelhas) de monóxido de carbono (CO) nos Estados do Acre, Rondônia, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, passando por Bolívia e Paraguai.  (Foto: windy.com)

Nesta semana, as notícias e dados sobre incêndios na Amazônia tiveram impacto em todo o mundo. Na última quinta-feira (22), o Secretário Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), Antonio Guterres, disse estar profundamente preocupado com incêndios, que aumentaram 82% no Brasil em relação ao ano passado, segundo o Programa de Queimadas do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). 

Já o presidente francês, Emmanuel Macron, usou seu perfil no Twitter para chamar o problema de “crise internacional” e cobrar que os líderes do G7 tratem urgentemente do tema durante o final de semana. No Brasil, uma série de manifestações está agendada para os próximos dias. No Rio de Janeiro, o protesto “Rio pela Amazônia: resistir hoje para respirar amanhã” vai acontecer a partir das 17h, na Cinelândia, nesta sexta-feira (23). Outra manifestação está marcada para domingo (25) na Praia de Ipanema.

Para saber um pouco mais sobre como as queimadas aumentaram tanto e o que deve ser feito para evitar que a situação se agrave, o Programa Brasil de Fato RJ conversou com Beto Mesquita, diretor do Instituto BVRio, que atua no desenvolvimento de novos mecanismos financeiros para o setor ambiental. Segundo o pesquisador, as queimadas não são novidade mas sim a maneira como cresceram e vem sendo produzidas. “Isso é reflexo de um sinal dado pelo governo federal de que o controle e a fiscalização não vão ser efetivos”, explica.

Brasil de Fato: O que ocasionou esse descontrole de queimadas que estamos vendo hoje?

Beto Mesquita: O problema do uso do fogo como instrumento para limpeza de pastagens, para queimar áreas, é um problema ambiental e agrícola que existe há séculos, não é novidade. O que temos enfrentando, dessa maneira, esse índice alarmante, nunca tivemos na história recente do país. Nunca grupos organizados fizeram campanha pelas queimadas, como na semana passada, o “dia do fogo”. Declararam e fizeram. A nossa perspectiva é reflexo de um sinal dado pelo governo federal de que o controle e a fiscalização não vão ser efetivos, que a fiscalização era um problema para os produtores rurais. O sinal está sendo interpretado da maneira: agora podemos fazer qualquer coisa.

E como estão trabalhando esses órgãos de fiscalização?

Estão praticamente engessados, principalmente na região da Amazônia. Os técnicos não têm recursos e autorização para sair a campo, não tem planejamento específico, quando há operações houve reação. Teve um episódio que já tínhamos visto no Amazonas, vimos em Rondônia, em que grileiros incendiaram o equipamento de pesquisa. Na semana seguinte, o Ministro do Meio Ambiente esteve na região em solidariedade aos proprietários rurais.

Como a população pode ser afetada por isso?

Tem formas principais que pode ser afetada. A primeira delas tem a ver com os problemas de estiagem e seca, que afetaram Rio e São Paulo há uns anos, e podem voltar. Uma parte importante do abastecimento de chuva do sudeste se relaciona diretamente com um fenômeno chamado de “rio voador”, que são as massas de ar carregadas de umidade que se deslocam do oceano em direção ao continente. Ao passar pela floresta, essas massas são carregadas de umidade, até virem para o sudeste, isso forma as chuvas. Essas mesmas massas são as que trouxeram o fenômeno da fumaça para cidade de São Paulo. Então primeiro efeito direto é a crise hídrica, porque será reduzida a capacidade hídrica em todo o país, não só na região amazônica.

Quais os outros efeitos?

Outro efeito é justamente na produção agrícola. Toda essa produção depende de serviços ecossistêmicos – precisamos de solo fértil da natureza, controle de erosão, polinização. Tudo isso vem da floresta. Quando é reduzida a área de floresta e o que resta é queimado, estamos comprometendo a produção agrícola. Outro ponto é o agronegócio, que produz commodities que são exportados e que dependem do mercado internacional. Esses mercados estão dando todos os sinais de que vão impor restrições aos produtos brasileiros por conta do descumprimento da legislação ambiental. A gente tem uma economia abalada que vai sofrer ainda mais.Todos vamos ser afetados é só uma questão de tempo.

É possível levar o lixo orgânico de cidades vizinhas e despejar como forma de adubar a região? É viável?

Não é do ponto de vista logístico. O melhor fertilizante é a própria floresta. Ela tem que ser mantida. Na Amazônia cada imóvel rural pode usar apenas 20% do território para produção agrícola. Os outros 80% não são intocáveis, não são improdutivos, eles podem produzir madeira, produtos não madeireiros como os óleos, castanhas, resinas, frutos. Importantes até na pauta da exportação. Tudo isso é a “bioeconomia”. Sem falar do que se pode desenvolver em termos de tecnologia que pode ser usada na indústria. A floresta tem um capital impressionante. A gente está queimando ela antes de conhecer.

Os resíduos das grandes cidades podem ser usados em seu próprio território para serem recuperados e reflorestados. No Rio de Janeiro há o mutirão de reflorestamento em que o próprio lixo orgânico é usado para o reflorestamento de áreas devastadas. Ainda é pouco, mas já é um projeto que dá certo.

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