O que muda e o que não muda com a Pandemia

“É aprender com tudo o que foi feito
e também com tudo que deixou de ser feito,
como rasgar o ca­minho da es­pe­rança
que la­teja, que la­teja,
na frágua da pa­ci­ência ope­rária”.
Thiago de Mello – “Apren­di­zagem no vento”

O laboratório e a experimentação do trabalho na pandemia do ...
Estas pa­la­vras não se des­tinam a ser co­lo­cadas entre fron­teiras na­ci­o­nais. Mas creio que é fun­da­mental contar que es­crevo a partir do Brasil, onde eu moro há mais de 7 anos. Aqui, pro­gres­si­va­mente a morte ma­ciça toma conta do co­ti­diano e o des­prezo pelos mais fracos en­volve o pen­sa­mento he­gemô­nico. Es­crevo isto em meio a mo­bi­li­za­ções con­vo­cadas para de­nun­ciar a ne­gli­gência e o aban­dono do povo antes e du­rante a pan­demia. O grito de “Fora Bol­so­naro” vai cres­cendo e vai se ar­ti­cu­lando ao longo e largo do maior país da Amé­rica La­tina.

Neste ter­ri­tório, há se­manas a con­vi­vência com a pan­demia produz cerca de uma morte por mi­nuto, e todos os grá­ficos mos­tram que a linha de pro­pa­gação da COVID 19 con­tinua au­men­tando sem pro­jetar ne­nhum tipo de curva. Esta si­tu­ação na­ci­onal es­pe­cí­fica é prin­ci­pal­mente pro­duto das po­lí­ticas eu­ge­nistas que ace­leram a morte dos mais fracos. São am­pla­mente co­nhe­cidas e di­vul­gadas as ações do go­verno ne­o­fas­cista bra­si­leiro. Seria ines­go­tável a quan­ti­dade de bar­ba­ri­dades que podem ser lis­tadas para des­crever este go­verno que, en­quanto brinda com leite pela su­pre­macia branca e ga­rante a pro­pa­gação do vírus através da festa da mer­ca­doria, apoia a cri­ação de mo­vi­mentos autô­nomos de ex­trema-di­reita e ataca a di­visão de po­deres dentro do pró­prio Es­tado. Assim, di­na­miza os seus pró­prios con­flitos in­ternos para ocupar todo o ce­nário po­lí­tico ins­ti­tu­ci­onal, im­pede sis­te­ma­ti­ca­mente a atu­ação de pro­fis­si­o­nais de saúde e até re­prime ma­ni­fes­ta­ções pela vida.

O de­bate sobre as ma­ni­fes­ta­ções foi in­tenso e di­vidiu as pes­soas que querem cuidar e se ma­ni­festar a favor da vida neste ce­nário. Como se ma­ni­festar em tal con­texto? Será res­pon­sável chamar a en­con­trar-se nas ruas neste con­texto? É pos­sível con­ti­nuar sem ex­pressar a in­dig­nação di­ante de tanta morte? Se nos Es­tados Unidos, epi­centro da pan­demia, o povo saiu à rua contra o ra­cismo por que nós não vamos sair? (1). A con­fusão con­tinua e au­menta a an­gústia. Uma coisa é certa: o vírus impõe que para o cui­dado da vida se man­te­nham so­mente ativos os ser­viços es­sen­ciais. A luta contra o ne­o­fas­cismo será um ser­viço es­sen­cial para re­a­lizar du­rante os fi­nais de se­mana quando os ser­viços não estão fun­ci­o­nando?

Ve­jamos (se pos­sível) através e além da con­jun­tura

Não po­demos culpar Deus por trazer o vírus, muito menos agra­decê-lo. O Co­ro­na­vírus também não é uma in­venção de la­bo­ra­tório com fins de guerra bac­te­ri­o­ló­gica, em­bora os tempos ge­o­po­lí­ticos tragam múl­ti­plos ele­mentos para ali­mentar esse pres­ságio. Também não po­demos culpar o vírus pela crise em que o sis­tema econô­mico se en­contra atu­al­mente mer­gu­lhado. A pan­demia, e as ações re­a­li­zadas contra ela, per­mite que as con­tra­di­ções mais pro­fundas con­sigam evi­den­ciar-se mais ni­ti­da­mente na su­per­fície. É uma re­a­li­dade com­pro­vada: o ca­pi­ta­lismo, além de pro­duzir cada vez mais ri­queza e po­breza no mesmo pro­cesso de pro­dução, também produz ci­cli­ca­mente (entre ou­tros ele­mentos) crises, re­voltas po­pu­lares e pan­de­mias; e cada vez em um pa­tamar mais pro­fundo, global e di­fícil de con­trolar. Enfim, na con­tun­dência da aná­lise da Ma­rina (2): a culpa da crise não é do vírus.

No sis­tema atual, sem tra­ba­lha­dorxs não há pro­dução de ri­queza. Se pa­rarmos a pro­dução, o sis­tema va­cila. Este fenô­meno pan­dê­mico, iné­dito em nossa his­tória e em um mo­mento de grande ve­lo­ci­dade das co­mu­ni­ca­ções em nível global, exige à fá­brica de pen­sa­mento das ci­ên­cias so­ciais, e a todas as me­di­a­ções for­ma­doras de opi­nião, a ex­pli­cação de in­te­lec­tuais ci­en­tí­ficxs e po­lí­ticxs con­sa­grados que, além de con­tri­buírem com im­por­tantes e fun­da­men­tais dados sobre o que está acon­te­cendo, se ani­maram também a pro­jetar afir­ma­ções que mais têm a ver com de­sejos pes­soais e co­le­tivos que com ten­dên­cias reais a en­cerrar a aná­lise do mo­vi­mento do real.

Nin­guém ficou sem falar da pan­demia, em notas de opi­nião, pa­lestra ao vivo pela in­ternet (“lives”), memes, e ou­tras formas pre­cá­rias em que se ex­pande hoje o de­bate po­lí­tico. Assim pas­samos a ler e es­cutar sobre um pos­sível “no­caute ao ca­pital”, “o fim do ne­o­li­be­ra­lismo”, o im­pacto sobre o meio am­bi­ente que agora res­pira, e até ani­mais po­lí­ticos con­sa­grados que se ani­maram a fes­tejar que a pre­sença do vírus trazia a evi­dência da ne­ces­si­dade de mais Es­tado para com­bater o mer­cado (3).

Tudo pa­rece mudar a partir da pan­demia. Mas ao mesmo tempo, tudo in­dica que a ló­gica da mer­ca­doria não foi su­pe­rada, mas per­ma­nece. A dis­puta entre Es­tados pelas com­pras de mer­ca­do­rias ne­ces­sá­rias para a atenção da pan­demia marca de ma­neira exem­plar a falta de so­li­da­ri­e­dade e a con­cor­rência que ca­rac­te­rizam o mer­cado e se ex­pressam co­ti­di­a­na­mente como prá­tica que an­te­cede e atra­vessa o fenô­meno trau­má­tico. Os se­nhores de tudo já estão pro­mo­vendo o re­torno a essa si­nistra nor­ma­li­dade. A China se afirma na sua ten­dência como po­tência he­gemô­nica mun­dial e, desde seus re­pre­sen­tantes, pro­move a glo­ba­li­zação e o livre co­mércio sobre as eco­no­mias na­ci­o­nais:

“Querer re­partir o Oceano da eco­nomia mun­dial numa série de lagos pe­quenos bem dis­tantes uns dos ou­tros, não só é im­pos­sível como, além disso, vai contra a cor­rente da his­tória” (4). E os Es­tados Unidos, em plena pan­demia, deram mos­tras con­cretas de que buscam uma nova so­lução bé­lica à de­ca­dência do im­pério. Muitos de nós so­nhamos com um mundo em que o exemplo cu­bano, que dis­tri­buiu 30 mil mé­dicxs e en­fer­meiras por mais de 66 países, se mul­ti­plique, mas pa­rece que não será esse o com­por­ta­mento entre os po­de­rosos.

Pa­rece que em muitas ques­tões, além de nossos de­sejos e in­ten­ções prá­ticas, a so­ci­e­dade global mu­dará para se­guir igual. Como aquele rio de He­rá­clito, no qual po­demos (e não po­demos) ba­nhar-nos duas vezes porque é (e já não é) o mesmo rio; a re­a­li­dade so­cial do pla­neta muda e não muda. O fi­ló­sofo grego também dizia que o Fogo é o ele­mento pri­mário deste mundo que às vezes, acen­dendo-se, cres­cendo, e ou­tras vezes se apa­gando, vai mol­dando o mundo em per­ma­nente trans­for­mação. O es­critor e edu­cador po­pular bra­si­leiro Mauro Iasi afirma que de­pois da pan­demia, o mundo será e não será o mesmo, “um mundo em que é ur­gente uma re­vo­lução” (5).

Par­tindo desta con­clu­siva ob­vi­e­dade como base, po­demos ar­riscar-nos a pro­nun­ciar que será um mundo onde o fogo das re­voltas so­ciais con­ti­nuará a acender-se de forma im­pre­vi­sível (como as crises, em­bora não ne­ces­sa­ri­a­mente em sin­tonia com elas). E será um mundo em que é cada vez mais ne­ces­sário para a es­querda aprender com o que foi feito e se or­ga­nizar para en­trar ati­va­mente na dis­puta do sen­tido das re­be­liões po­pu­lares.

É pos­sível que o passo a frente da­queles que es­tamos do lado dxs que de­pendem da venda da sua ca­pa­ci­dade de tra­balho para viver seja o de perder a pa­ci­ência. Talvez sai­amos das pre­cá­rias qua­ren­tenas com a re­beldia à flor da pele, tendo iden­ti­fi­cado co­le­ti­va­mente onde di­re­ci­onar nossa digna raiva para abrir es­paço a novas formas de pro­duzir e re­pro­duzir a vida hu­mana, des­truindo o que for pre­ciso para abrir es­paço para o novo. Com esse prin­cípio de es­pe­rança ativo, eu que sou muito lento, me animo a es­crever agora (de­pois de mais de um ano sem poder fazê-lo) para re­gis­trar o pen­sa­mento ge­rado por muitos de­bates e lei­turas entre com­pa­nheiras de di­versas la­ti­tudes (6). É um mo­mento de es­crever, de lançar men­sa­gens in­fla­má­veis ao mar em uma gar­rafa, na es­pe­rança de que com al­guma faísca pos­samos “in­cen­diar o oceano”.

Mas como che­gamos a esta si­tu­ação no Brasil? No pe­ríodo an­te­rior ao golpe de 2016, os go­vernos do PT ne­gavam o an­ta­go­nismo entre as classes en­quanto abra­çavam a utó­pica pos­si­bi­li­dade do pacto so­cial eterno (7). Nunca chamou o povo a ma­ni­festar-se nas ruas e de­dicou-se a “conter a re­volta so­cial” en­quanto foi pos­sível. Como a re­a­li­dade está em per­ma­nente mo­vi­mento, sua ne­gação cria novas re­a­li­dades e a enorme pa­ci­ência cul­ti­vada nesse ne­ga­ci­o­nismo utó­pico ali­mentou o pro­cesso de dé­bâcle hu­ma­ni­tária que de­pois de al­guns anos levou à con­so­li­dação deste go­verno ne­o­fas­cista (ali­men­tado pela di­nâ­mica de con­flito in­terno per­ma­nente). Um ex­cesso de obe­di­ência, se­meado re­li­gi­o­sa­mente, gera a inércia de uma po­pu­lação que sur­pre­ende por sua ca­pa­ci­dade de con­viver com a in­dig­ni­dade em li­mites ines­pe­rados.

Em­bora as nos­tál­gicas lem­branças de tempos re­centes, em que os po­bres po­diam con­sumir mais e me­lhor, gerem al­guns es­pasmos de re­sis­tên­cias em ações per­for­má­ticas e al­gumas nar­ra­tivas épicas la­tino-ame­ri­canas tentem res­sus­citar po­li­ti­ca­mente he­róis pas­sados, a luta de classes é di­nâ­mica e não se detém (nem se con­cilia). Ela avança sub­ter­rânea pelos pro­cessos de cons­ci­ência, numa ten­dência que ali­menta a es­pe­rança de saber que algum dia a in­dig­nação ex­plode. Quem ainda es­tiver com vida po­derá aprender com o vento, como diz o poeta. E, para isso, pre­ci­samos falar. Nós pre­ci­samos gritar al­gumas ver­dades.

Al­guns ele­mentos de de­bate que a pan­demia trouxe

Antes da pan­demia, vi­víamos numa so­ci­e­dade que não só pro­duzia e re­pro­duzia a vida hu­mana de certa forma, como também ela­bo­rava uma po­lí­tica cor­res­pon­dente para ad­mi­nis­trar a morte. Nos úl­timos 300 anos, em que esta forma de so­ci­e­dade nasceu, cresceu e se es­pa­lhou com ace­le­ração de­sen­freada até do­minar o con­junto do pla­neta apa­ren­tando su­ces­siva e in­sis­ten­te­mente con­sa­grar o final da his­tória hu­mana, o ca­pi­ta­lismo, em suas di­fe­rentes fases, foi es­ta­be­le­cendo e con­so­li­dando uma ver­dade na prá­tica: quase todos os seres hu­manos nesta so­ci­e­dade pre­cisam vender e com­prar para viver.

Desta forma, a di­nâ­mica do con­junto da vida so­cial no pla­neta está me­diada pela ló­gica da mer­ca­doria. Qual­quer pen­sa­mento que negue ou ig­nore esta de­ter­mi­nação fun­da­mental da atual re­a­li­dade so­cial con­verte-se numa ex­pressão de de­sejo, abs­trata, poé­tica, que bem pode ali­mentar a ló­gica que tenta com­bater. A morte nesta so­ci­e­dade é ad­mi­nis­trada de tal forma que se torna mais aces­sível para aqueles que têm di­fi­cul­dade em obter o equi­va­lente geral que lhe per­mita com­prar as coisas de que pre­cisam para so­bre­viver.

1. A crise econô­mica, que já es­tava em an­da­mento como uma nova onda do grande im­pacto de 2007-2008, se apro­fundou com a pan­demia ge­rando uma crise sem igual que pro­voca a queda do cres­ci­mento econô­mico em quase todos os países. Neste tempo ex­tra­or­di­nário, a pro­dução di­mi­nuiu, mas a ca­pa­ci­dade pro­du­tiva per­ma­nece in­tacta. E em­bora a ne­ces­si­dade de um pi­loto de tem­pes­tades es­pe­cí­fico es­teja no centro das aten­ções das or­ga­ni­za­ções in­ter­na­ci­o­nais como o FMI, o Banco Mun­dial e ou­tras en­ti­dades econô­micas; e a Or­ga­ni­zação Mun­dial da Saúde ocupa o lugar cen­tral dessa le­gi­ti­mi­dade; a ne­ces­si­dade hu­mana de per­ma­necer vivo, re­solver suas ne­ces­si­dades, ou seja, com­prar e vender, vai trazer no­va­mente a cen­tra­li­dade desses or­ga­nismos para ga­rantir os pro­cessos de con­cen­tração e cen­tra­li­zação que a re­pro­dução ex­pan­dida do ca­pital impõe. E o fará de forma mais ace­le­rada. Para a saúde do per­verso sis­tema que nos trouxe até aqui, ainda a ló­gica do ca­pital fic­tício do­mina a di­nâ­mica so­ci­e­tária. É fun­da­mental que se man­tenha a ga­rantia de re­a­lizar hoje o valor que será pro­du­zido no fu­turo. Ou seja, viver hoje o amanhã, por­tanto, anular hoje a pos­si­bi­li­dade de um amanhã di­fe­rente.

2. Sa­bemos que, his­to­ri­ca­mente, a saída da crise para os ca­pi­ta­listas impõe me­didas que co­locam a dig­ni­dade hu­mana da­queles que pre­cisam vender sua ca­pa­ci­dade de tra­balho para viver numa si­tu­ação crí­tica. Se a lin­guagem de gestão da pan­demia na mai­oria dos países é uma lin­guagem de guerra, não pa­rece coin­ci­dência. Trata-se do ca­pi­ta­lismo em sua fase ne­o­li­beral, que anda pre­ci­sando apro­fundar a pre­ca­ri­zação da vida como nas guerras. Não é por acaso que o epi­centro da atual pan­demia seja o mesmo das “po­lí­ticas de aus­te­ri­dade” de­pois da crise de 2008. Uma coisa foi le­vando a outra e con­so­li­dando o ce­nário de guerra que não deixa de se apre­sentar como ten­dência pos­sível.

3. As con­tra­di­ções que já es­tavam ex­postas de­sen­volvem-se mais ra­pi­da­mente. Fa­lamos de sis­temas de saúde co­lap­sados, o mundo da cul­tura me­di­a­ti­zado pela in­ternet, a cen­tra­li­dade de al­gumas em­presas de apli­ca­ções que au­men­taram de forma exor­bi­tante seus lu­cros, a am­pli­ação e ra­mi­fi­cação das formas de te­le­tra­balho, os com­por­ta­mentos eco­pre­da­tó­rios, a edu­cação a dis­tância fa­vo­re­cendo a de­si­gual­dade e a pre­ca­ri­zação edu­ca­tiva ao ponto de re­con­fi­gurar o vín­culo pe­da­gó­gico, o de­sen­vol­vi­mento ainda mais ace­le­rado da po­lê­mica In­te­li­gência Ar­ti­fi­cial etc. São apenas al­guns dos pro­blemas in­qui­e­tantes que a pan­demia po­ten­ci­a­lizou re­sol­vendo cada pro­ble­má­tica através do au­mento da mer­can­ti­li­zação.

4. Na maior parte dos países estão sendo re­a­li­zadas ações emer­gen­ciais em ma­téria de as­sis­tência so­cial. A exis­tência tem­po­rária de sub­sí­dios econô­micos para o setor in­formal au­menta as ex­pec­ta­tivas da im­plan­tação de uma Renda Bá­sica (ur­gente e ne­ces­sária) que cumpre a dupla função de con­quista de con­di­ções menos in­dignas para “xs de baixo” no aqui e agora, uma ga­rantia de so­bre­vida e uma le­gi­ti­mação das formas ca­pi­ta­listas de re­solver as ne­ces­si­dades hu­manas.

5. A ci­ência se con­fi­gura ainda mais como um campo de dis­puta es­tra­té­gica. Os cri­mi­nosos (como o pre­si­dente bra­si­leiro) a negam aber­ta­mente. E aqueles que se in­te­ressam por ad­mi­nis­trar ra­ci­o­nal­mente o sis­tema a ins­tru­men­ta­lizam efi­ci­en­te­mente para mer­can­ti­lizar gra­da­ti­va­mente o que ainda não é mer­cantil. A le­gi­ti­mi­dade da ci­ência usada para for­ta­lecer o Es­tado que con­trola: é uma ver­dade prá­tica neste mo­mento. Mas, ao mesmo tempo, a ci­ência, em diá­logo per­ma­nente com os sa­beres po­pu­lares é um ins­tru­mento eficaz para trans­formar e co­nhecer a re­a­li­dade, e pode-se usar em de­fesa da vida frente àquilo que pro­du­zimos e se volta contra nós mesmos. É evi­dente a ne­ces­si­dade de eman­cipar a ci­ência da ló­gica da mer­ca­doria para que re­al­mente seja trans­for­ma­dora, mas sa­bemos que não será com sú­plicas mo­ra­listas que vamos con­se­guir.

Na pan­demia apa­recem, como nou­tros mo­mentos da his­tória, as po­la­ri­za­ções do es­tilo saúde x eco­nomia que nos obrigam a tomar par­tido sem dis­tin­guir as ne­bu­lo­si­dades que se es­condem por de­trás dessas cons­tru­ções. Entre as prin­ci­pais, de­vemos re­futar a po­la­ri­dade Es­tado-mer­cado, uma vez que se trata de uma ne­ces­si­dade ma­te­rial da di­nâ­mica do ca­pi­ta­lismo e que na sua fase atual do ca­pital-im­pe­ri­a­lismo ga­rante a uni­dade de con­cen­tração e cen­tra­li­zação dos meios de pro­dução na con­cor­rência mo­no­po­lista. Sempre no ca­pi­ta­lismo houve sin­tonia e di­visão de ta­refas entre mer­cado e Es­tado, por mo­mentos des­ta­cando as fun­ções de um e em ou­tros mo­mentos a do outro.

De­fender uma po­lí­tica de gestão da pan­demia desde o Es­tado como o má­ximo vir­tu­o­sismo é de­fender a ad­mi­nis­tração deste sis­tema que desde o seu nas­ci­mento afirma cada “avanço ci­vi­li­za­tório pas­sado” sobre uma base cri­mi­nosa e as­sas­sina. Re­tomar a pro­dução e re­pro­dução da vida em cada país, sem ques­ti­onar a fundo a or­ga­ni­zação da vida so­cial que cada vez produz mais des­truição e po­breza, é negar a re­a­li­dade do so­ci­o­me­ta­bo­lismo do ca­pital, que é in­con­tro­lável. E já vimos a re­a­li­dade que o ne­ga­ci­o­nismo produz. De­fender e cuidar da vida não são algo es­pe­cí­fico deste mo­mento de pan­demia. De­fender a vida exige nunca mais pro­duzir ri­quezas com as mãos man­chadas de sangue das tra­ba­lha­doras e tra­ba­lha­dores.

Como saída da crise, no mundo pós-pan­demia o que se vis­lumbra é mais ca­pi­ta­lismo. A crise tem essa função de su­perar-se ex­pro­pri­ando mais meios de vida para trans­formá-los em ca­pital, dis­pu­tando no­va­mente o que havia ou­tor­gado em forma de di­reitos ou fundos pú­blicos, au­men­tando a con­vi­vência entre Es­tado e Mer­cado, reu­ni­fi­cando o que pa­recia estar se­pa­rado.

E então o que po­demos fazer para trans­formar a re­a­li­dade?

Em todo pro­cesso de trans­for­mação é ne­ces­sário contar com uma grande in­sa­tis­fação po­pular, com­par­ti­lhar um ho­ri­zonte es­tra­té­gico e juntar força para dar os pri­meiros passos, su­pe­rando a re­sis­tência que possam ofe­recer as forças con­ser­va­doras. Nesse sen­tido, para ali­mentar o diá­logo ne­ces­sário entre os de baixo, pro­ponho, ar­ris­cando um ca­minho para a uni­dade na práxis, que o pri­meiro passo é se or­ga­nizar para a re­be­lião.

Ao longo da his­tória, tem-se de­mons­trado que a pró­pria di­nâ­mica do ca­pital gera ex­plo­sões do mo­vi­mento de massas. Re­voltas po­pu­lares que emergem de forma im­pre­vi­sível num mo­mento de fusão das massas. Uma re­ação que atua como ga­tilho da luta de classes na su­per­fície do co­ti­diano. No pe­ríodo an­te­rior à queda do muro (8), que di­vidia o mundo em dois grandes polos com pro­postas so­ci­e­tá­rias di­fe­rentes, essas ex­plo­sões so­ciais eram dis­pu­tadas e re­pri­midas em um sen­tido ou em outro em função de re­o­ri­entar as trans­for­ma­ções que desde baixo se im­pu­nham. Du­rante a úl­tima dé­cada, assim como a crise, também as re­voltas po­pu­lares es­tavam ex­plo­dindo com maior in­ten­si­dade em di­versos pontos do pla­neta e com ca­rac­te­rís­ticas es­cor­re­ga­dias a qual­quer clas­si­fi­cação.

Surgem de forma ines­pe­rada, par­tindo de um ga­tilho des­co­nhe­cido e im­pre­vi­sível (9), e são faíscas que acen­deram o fogo de trans­for­ma­ções em sen­tidos abertos e dis­cu­tí­veis. Como dizia Rosa Lu­xem­burgo, ao re­ferir-se às greves de massa, as ex­plo­sões so­ciais nascem sempre de in­ci­dentes par­ti­cu­lares lo­cais for­tuitos e não surgem de um plano pre­con­ce­bido e de­li­be­rado. Vol­tarão a nascer, porque a vida ame­a­çada in­siste em flo­rescer em­bora a brutal ló­gica da mer­ca­doria in­sista em sub­jugá-la. A ne­ces­si­dade ex­plode em raiva di­ante de tanta de­si­gual­dade. É o mo­mento em que se deixa de de­sejar a nos­talgia do que já foi ou po­deria ter sido e se perde o medo (de ado­ecer, de morrer, de ser re­pri­mido(a) ou preso(a)). É um mo­mento em que as pes­soas co­le­ti­va­mente são em­pur­radas pela ne­ces­si­dade a trans­gredir, a re­belar-se, a de­so­be­decer, a pro­curar a saída por fora do quadro es­ta­be­le­cido, já que dentro das normas não há so­lução.

In­dig­nada com as mortes da vi­zi­nhança nas mãos da in­ter­venção mi­litar que en­trou na fa­vela com a des­culpa de uma “guerra às drogas” (que per­mite a droga cir­cular pela ci­dade e se­meia a morte de jo­vens po­bres nas fa­velas do Rio de Ja­neiro), uma vi­zinha per­guntou-me há uns anos: “A quem serve o pa­ci­fismo, Diego?”. Ainda não en­con­trei a res­posta. Ou sim, mas é ir­ri­tan­te­mente vi­o­lenta para ex­pressá-la. En­quanto o ca­pi­ta­lismo se apoia na vi­o­lência sis­te­má­tica contra as vidas hu­manas, nas re­be­liões po­pu­lares usamos a vi­o­lência em au­to­de­fesa da vida.

A re­volta é contra a guerra im­posta pelas ne­ces­si­dades da mer­ca­doria. Nossa vi­o­lência re­belde é contra as coisas. Já vimos que as faíscas acendem o fogo nos bancos, nos de­pó­sitos de mer­ca­do­rias e nos ônibus que trans­portam seres hu­manos como mer­ca­do­rias. Vimos fogo nas de­le­ga­cias de po­lícia e nos pa­lá­cios e so­nhamos com que o FOGO al­cance “o OCEANO da eco­nomia mun­dial”. E, no en­tanto, as re­be­liões não sig­ni­ficam ne­ces­sa­ri­a­mente re­vo­lução: pode abrir dis­puta entre ir­mãos de di­fe­rentes iden­ti­dades opri­midas que con­formam a classe tra­ba­lha­dora e também podem ficar soltas di­luindo-se no co­ti­diano, como cos­tuma acon­tecer.

A ne­ces­si­dade pro­funda que im­pul­siona a re­volta da hu­ma­ni­dade é criar outra forma de pro­duzir e re­pro­duzir a vida. Uma al­ter­na­tiva so­ci­e­tária que deixe de atacar a na­tu­reza e possa de­sen­volver-se em sin­tonia com ela, com a sua abun­dância. Uma or­ga­ni­zação das re­la­ções so­ciais que possa nos igualar a partir do res­peito das nossas di­fe­renças, anu­lando prin­ci­pal­mente a di­visão entre pro­pri­e­tá­rios e não pro­pri­e­tá­rios.

Abre-se um tempo em que, uma vez mais, de­fender a vida hu­mana é pro­vocar a re­volta. É tempo de in­cen­diar o oceano, e que o fogo (que tudo trans­forma) cresça e se man­tenha aceso du­rante um bom tempo.

Como podem as nossas or­ga­ni­za­ções estar li­gadas à re­volta po­pular?

No nosso amplo leque co­lo­rido, as es­querdas atu­al­mente devem re­pensar o que con­si­de­ramos como or­ga­ni­ci­dade e acú­mulo de forças em um tempo que se ace­lera. Par­tindo de uma práxis re­fle­xiva, é ne­ces­sário re­a­lizar ba­lanços sin­ceros de nossas lutas his­tó­ricas.

Existem gestos da nossa es­querda la­tino-ame­ri­cana que emo­ci­onam pro­fun­da­mente. A so­li­da­ri­e­dade de­mons­trada no meio da pan­demia é um sinal de hu­ma­ni­dade que, or­ga­ni­zada, re­siste à eco­nomia de morte. Mas é ne­ces­sário que pos­samos olhar crí­tica e au­to­cri­ti­ca­mente para as nossas prá­ticas. A so­li­da­ri­e­dade fi­lan­tró­pica, que busca conter e evitar uma re­volta po­pular “inor­gâ­nica”, con­fi­gura atu­al­mente parte da po­lí­tica de uma so­ci­al­de­mo­cracia ag­gi­or­nada com po­deres va­ti­canos. Está pen­sada em função de in­te­resses de uma es­querda es­ta­dó­latra que às vezes de forma tá­tica e ou­tras de forma es­tra­té­gica aposta na con­ci­li­ação de classes como um ca­minho pos­sível.

A re­volta é agir no pre­sente pelo pró­prio pre­sente, como única opção para “abrir o ca­minho da es­pe­rança”. Aquela “es­querda” que tenta evitar ou conter a re­volta com a banal ameaça de “fazer o jogo à di­reita”, traz al­guns pro­blemas para o mo­vi­mento re­vo­lu­ci­o­nário. Estes grupos que os­tentam a “não-vi­o­lência” são hoje o que Fanon ca­rac­te­ri­zava como “van­guarda das ne­go­ci­a­ções e da tran­sação” (10), apa­re­cendo na re­volta com a função de apagar o fogo, sentar-se para re­solver o con­flito sobre a to­alha verde de uma mesa de jogos. A nossa po­lí­tica em re­lação à re­volta não deve ser a de con­tenção, muito menos de re­pressão (como ou­tros fi­zeram em Krons­tadt). Será apren­dendo a pensar e agir em um con­texto de re­volta per­ma­nente que cri­a­remos o pro­grama ne­ces­sário.

Só a re­be­lião, a re­jeição do exis­tente, abre a pos­si­bi­li­dade de afirmar um novo fu­turo. E não em abs­trato, mas em con­creto. Por isso é o pri­meiro passo ne­ces­sário. Or­ga­nizar a re­volta é tão ne­ces­sário como deixar o ar de sua es­pon­ta­nei­dade à “au­to­a­ti­vi­dade das massas”. Or­ga­nizá-la in­clui saber que temos um ho­ri­zonte es­tra­té­gico para ori­entá-la. E que seu sen­tido será dis­pu­tado. Ter atenção para não re­pro­duzir certo culto à es­pon­ta­nei­dade mes­si­â­nica, e co­meçar a dis­cutir os pri­meiros passos firmes, sem perder de vista a to­ta­li­dade do ho­ri­zonte es­tra­té­gico.

Vão emergir focos de re­beldia inor­gâ­nicos aos grandes mo­vi­mentos so­ciais que re­a­lizam um culto à dis­tri­buição de ta­refas para manter a pró­pria es­tru­tura e de­mandam uma gi­gante quan­ti­dade de es­forços mi­li­tantes au­to­cen­trados. Para sermos mi­li­tantes or­gâ­nicos com a re­volta talvez seja ne­ces­sário deixar de pensar a so­ci­e­dade desde uma ló­gica de gestão es­tatal e co­meçar a de­sa­fiar o Es­tado visto desde a so­ci­e­dade. Não sa­bemos de que setor sur­girá a ex­plosão. Não se trata de as­cender faíscas por toda parte, mas de como nossas or­ga­ni­za­ções podem ser or­gâ­nicas ao fogo, in­fla­má­veis. Na me­dida em que seja qual for o setor do povo em luta, o man­te­nham vivo e o am­pliem a ou­tros se­tores.

A ne­ces­si­dade é de uma re­volta global. Sa­bendo que os de­ta­lhes em cada lugar serão de­ter­mi­nados por cada país, dadas as ca­rac­te­rís­ticas de cada for­mação so­cial. Du­rante e de­pois da pan­demia, e no tempo entre pan­de­mias que virão, quando o fogo crescer, ainda es­ta­remos aqui e será fun­da­mental ob­servar de que lados da re­volta nos en­con­trarão. Será o que te­nhamos apren­dido no vento.

Sai­amos do iso­la­mento so­cial com a re­volta à flor da pele, para iden­ti­ficar e su­perar vi­o­len­ta­mente tudo o que nos trouxe até aqui. O apoio e a or­ga­ni­zação das re­voltas per­ma­nentes que des­truam o ca­pi­ta­lismo se cons­ti­tuem nos passos ne­ces­sá­rios e in­dis­pen­sá­veis para criar uma nova forma de pro­duzir e re­pro­duzir a vida so­cial no pla­neta.

Pre­ci­samos ul­tra­passar a ló­gica da pro­dução de mer­ca­do­rias em grande es­cala que se ali­menta da re­lação apa­ren­te­mente con­tra­di­tória entre o Es­tado e o mer­cado e que está ori­en­tada para a acu­mu­lação. Po­demos tentar pôr em prá­tica uma ló­gica co­mu­ni­tária que pos­si­bi­lite uma pro­dução local ba­seada em ali­mentos e ou­tros ele­mentos bá­sicos que pre­ci­samos para viver em abun­dância e em sin­tonia com a na­tu­reza?

Em tempos de co­lapso imi­nente, de vida ame­a­çada, o cha­mado é a ob­servar o bá­sico. Saber fazer por nós mesmos para so­bre­viver com au­to­gestão aos tempos que vêm. Re­velar-nos exi­gindo que coisas ele­men­tares para a vida (ali­mentos, roupas, mo­ra­dias, saúde, edu­cação, trans­porte) não devem ser mer­ca­do­rias. Olhar o ho­ri­zonte es­tra­té­gico para o qual ca­mi­nhamos, e avançar: pro­duzir o ne­ces­sário para viver bem, dis­tri­buir o tra­balho apro­vei­tando as má­quinas para tra­ba­lhar menos e não para pro­duzir mais. É pos­sível pla­nejar nossas vidas com li­ber­dade para viver mais e me­lhor. Iremos pro­du­zindo novas re­voltas para abrir novos ho­ri­zontes. Até que com­pre­en­damos que a li­ber­dade de um co­meça onde também co­meça a do outro, e ter­mina onde a do outro também ter­mina. Até que não existam classes, nem ide­o­lo­gias.

De­pois da pan­demia, aqueles de nós que so­bre­vi­verem con­ti­nu­arão a ter graves pro­blemas. Cuidar da vida é de­dicar-lhe essa causa, antes que seja mais tarde do que já está sendo. Que sai­bamos tran­sitar esta pan­demia in­cor­po­rando uma ló­gica de cui­dados, e ali­men­tando a re­be­lião. Que sai­bamos – como diz o poeta – in­cor­porar as ex­pe­ri­ên­cias para que quando acabe a pa­ci­ência de tra­ba­lha­dores tra­ba­lha­doras sai­bamos “abrir ca­mi­nhos de es­pe­rança” por meio de re­be­liões que ne­ces­sa­ri­a­mente po­nham (cri­ti­ca­mente re­no­vado) “o so­ci­a­lismo na ordem do dia”.

Notas:

1) Pen­sando um pouco me­lhor: por que não saímos no final de 2019? Se no Haiti, Equador, Chile, Colômbia, e ou­tros lu­gares a onda de re­voltas po­pu­lares agitou toda a re­gião. Mo­tivos para sair contra este go­verno ba­seado no crime na­quele mo­mento também não fal­tavam. Por que sair num do­mingo e não fazê-lo um dia de se­mana im­pac­tando o fun­ci­o­na­mento “normal” das ins­ti­tui­ções? Por outro lado, as frentes que reúnem mo­vi­mentos so­ciais con­vocam para um “ato vir­tual na­ci­onal para o pró­ximo sá­bado”, é a forma que acharam… Tudo está muito con­fuso. E toda opi­nião pa­rece vá­lida. Só que não. Pois num país onde o “ter­ra­pla­nismo” e as fake-news de­mons­traram um poder im­por­tante, é muito ar­ris­cado afirmar que toda a opi­nião vale o mesmo.

2) “A culpa da crise não é do vírus” Ma­rina Ma­chado Gou­veia. “Em tempos de pan­demia: pro­postas para de­fesa da vida e de di­reitos so­ciais. Or­ga­ni­za­dores: Elaine Mo­reira, Ra­chel Gou­veia (et all). Rio de Ja­neiro – UFRJ. CFCH-ESS. 2020. (p 19-28)

3) https://?g1.?globo.?com/?pol?itic?a/?noticia/?2020/?05/?19/?ainda-?bem-?que-?monstro-?do-?cor?onav?irus-?veio-?para-?dem?onst?rar-?nec?essi?dade-?do-?estado-?diz-?lula.?ghtml

4) Dis­curso do Pre­si­dente Xi Jin­ping na ce­rimônia de aber­tura da Con­fe­rência Anual de 2017 do Fórum Econô­mico Global em Davos.

5) “Pré-his­tória, pós-pan­demia e o que virá” Mauro Iasi. Blog da Boi­tempo https://?blo?gdab?oite?mpo.?com.?br/?2020/?04/?17/?pre-?his?tori?a-?pos-?pan?demi?a-?e-?o-?que-?vira/

6) Esta pro­dução, por­tanto é e não é um texto pes­soal. Surge ali­men­tada desse pen­sa­mento co­le­tivo e numa ten­ta­tiva crí­tica pre­tende voltar para ali­mentar o mesmo.

7) Al­gumas notas são ne­ces­sá­rias porque in­ter­na­mente con­tinuo di­a­lo­gando com certo es­paço mi­li­tante que aprendeu a eti­quetar pen­sa­mentos em caixas se­pa­radas para des­prezar antes de in­cor­porar cri­ti­ca­mente o ar­gu­mento. É evi­dente que NÃO SÃO A MESMA COISA, e evi­den­te­mente apon­tavam para di­re­ções opostas dentro do campo aberto pelo mesmo sis­tema. A con­ti­nui­dade da ne­gação como mé­todo de go­verno re­quer mu­danças abruptas para re­novar o im­pulso das re­formas que o ca­pi­ta­lismo ne­ces­sita.

8) Pe­ríodo sobre o qual a es­querda deve apro­fundar sua aná­lise au­to­crí­tica, para su­perar in­cor­po­rando os li­mites e as po­ten­ci­a­li­dades abertas pela pri­meira e prin­cipal ex­pe­ri­ência de tran­sição so­ci­e­tária para além do ca­pi­ta­lismo. De­vemos su­perar aquelas ava­li­a­ções que acom­pa­nham um mo­vi­mento pen­dular entre quem pro­move a acei­tação in­con­di­ci­onal e de­fesa acrí­tica da ex­pe­ri­ência, e aqueles que a negam des­pre­zando os ní­veis de eman­ci­pação mais ele­vados que a classe tra­ba­lha­dora tenha al­can­çado a nível mun­dial.

9) O as­sas­si­nato de um homem negro nos Es­tados Unidos, a ju­ven­tude pu­lando ca­tracas no metrô Chi­leno, o “Ne­nhuma a Menos” na Ar­gen­tina, as lutas pelo passe livre em junho de 2013 no Brasil, entre ou­tros inú­meros epi­só­dios

10) “Los con­de­nados de la ti­erra” Frantz Fanon. Fondo edi­to­rial casa de las Amé­ricas, Cuba. 2011 (P. 28)

(Agra­de­ci­mento es­pe­cial para Ju­lieta Mel­lano pela edição na pu­bli­cação em es­pa­nhol em “In­cen­diar el Océano”, Mé­xico – E para Maiara Ma­rinho pela re­visão da tra­dução ao por­tu­guês – 9/6/2020).

Diego Fer­rari

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