O poder político de mudança da arte e da literatura

Por José Figueiredo

O poder político de mudança da arte e da literatura é algo difícil de ser medido. Não há régua ou métrica que possa dizer “a partir daqui haverá mudança.” Arte e literatura, como atividades humanas, são imperfeitos. Logo, esperar deles perfeição e concretude absolutas seria um erro.

Entretanto, eles podem nos gerar possibilidades únicas que outras áreas do conhecimento não nos oferecem. As narrativas, em particular, têm um poder imenso. Elas podem nos apresentar mundos e visões desconhecidas, lugares que não podemos visitar, nos remontar a épocas distantes.

No entanto, o poder político de mudança da arte e da literatura vai além.

O poder da arte

Um exemplo disso é a força com que certas obras conseguem deslocar o eixo de pensamento até então sedimentado sobre nossas visões de mundo. Observar La Guernica não nos faz apenas contemplar os horrores da guerra, antes nos lembra que esses horrores são nossas criações, tal qual o quadro de Picasso.

Ler um romance como Os miseráveis nos relembra de que a sociedade é injusta, com certeza. Contudo, e este é um dos temas maiores do romance, a inflexibilidade de Javert, a perversidade de Fantine, são constantes que acompanhamos cotidianamente. Não só isso, mas sabemos que estes tipos existes, pois os reconhecemos na nossa volta.

Os miseráveis tem seu poder político de mudança enquanto arte não pela exclusão, e sim pela compreensão. A situação que leva Jean Valjean ser preso, o roubo do pão, não passa de um sintoma de uma doença maior. Victor Hugo mostra na trajetória dele e de Cosette que, além de injusta, a sociedade é pragmática e mesquinha. Para fazê-lo, porém, ele aponta o dedo para um único responsável: nós mesmos enquanto sociedade.

E nós, os consumidores de arte?

Os exemplos poderiam abundar de várias áreas, desde a literatura, passando pela artes plásticas, pela música – ninguém pode negar o poder de uma canção em um contexto turbulento. O importante aqui, no entanto, é pensar o que devemos fazer com isso.
Sim, nós, os leitores, os consumidores de arte. O poder político de mudança da arte e da literatura, como dito, não pode ser mensurado. Portanto, definir como cada um de nós recepciona as ideias da arte como um todo é impossível.

No entanto, ao recebermos de tantas pessoas, de épocas e lugares diferentes, a perspectiva da mudança, do entendimento e da compreensão, devemos pô-las em prática.

A arte e a literatura são simulacros da realidade. Tendo dito isso, ela nos permite entender, ou ao menos vislumbrar, o outro. O que fazemos, ou deveríamos fazer, é ser mais tolerantes de alguma forma. Entender pela diferença não significa excluir, antes agregar o que nem sempre pode ser agregado.

Portanto, a função primordial da arte é mostrar o outro nas suas mais variadas formas. A nossa função, tentar traduzir esse outro e agregá-lo. O poder político de mudança da arte e da literatura reside nessa diferença e na sua aceitação. Pregar a exclusão e o extermínio do diferente não é o que a arte nos oferece.

Obras como A metamorfoseO estrangeiro e O sol é para todos nos fazem encarar a exclusão de várias formas. Gregor Samsa é rejeitado pela própria família por não ser mais útil financeiramente para ela. Meurseult compreende o absurdo da vida prestes a morrer por ter matado outro homem sem motivo. Scout narra a segregação racial americana e, mesmo adulta, apenas encontra o egoísmo e a mesquinharia daqueles que não entendem o outro por causa da cor da pele.

Enfim, O poder político de mudança da arte e da literatura não pode ser definido como algo mágico ou poético. Ele deve, isso sim, ser tratado com a possibilidade de se chegar ao outro através das suas manifestações. Portanto, em tempos tão autocentrados como este, olhar para o outro e tentar integrá-lo. Essa deve ser a mudança que devemos aprender com a arte e a literatura.

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