O poder das empresas na cúpula da ONU sobre mudança climática

Publicado em: 11/12/2013 às 12:27
O poder das empresas na cúpula da ONU sobre mudança climática

amyPor Amy Goodman

A conferência sobre mudança climática das Nações Unidas deste ano está acontecendo em Varsóvia, uma cidade cheia de história.

Aqui encontra-se o principal monumento erigido em homenagem a Nicolau Copérnico, o famoso astrônomo polonês que postulou por primeira vez que a Terra gira ao redor do sol e não ao contrário. O aeroporto de Varsóvia leva o nome de Frederic Chopin, em honra ao brilhante compositor que viveu aqui. A pioneira da ciência da radiação, Marie Curie, a primeira mulher a ganhar um Prêmio Nobel (ganhou dois!) nasceu aqui.

Aqui também foi o lugar onde esteve o Gueto de Varsóvia, um dos mais horríveis símbolos do Holocausto, onde centenas de milhares de judeus permaneceram trancafiados antes de ser trasladados ao campo de extermínio de Treblinka e para outros campos de concentração nazistas, onde foram assassinados.. Em meio ao terror da ocupação nazista, os judeus do gueto levantaram-se em um valente ato de autodefesa. Mais tarde, inspirados pelo levante do gueto, os habitantes não judeus de Varsóvia também se levantaram e lutaram durante dois meses antes de, finalmente, ser derrotados pelas forças de ocupação alemãs. No final da II Guerra Mundial, 6 milhões de poloneses, a metade deles judeus, haviam sido assassinados e 85% da cidade de Varsóvia estava em ruínas.

Nesse preciso lugar está acontecendo a 19ª Conferência das Partes da Convenção Marco das Nações Unidas sobre Mudança Climática (CMNUCC), denominada COP 19. Milhares de negociadores dos 198 países membros da Convenção caminham com pressa através dos corredores improvisados instalados no campo do Estádio Nacional, como também representantes de inúmeras organizações não governamentais e membros da imprensa. A Cúpula desse ano tem uma característica diferente: o auspício das empresas.

“Provavelmente, essa é a conferência sobre mudança climática com maior presença das empresas”, me disse Pascoe Sabido. “Isso não significa que nas anteriores não tenha havido uma grande influência das empresas. No entanto, dessa vez o que difere é o nível de institucionalização, o grau com que o governo polonês, a ONU e a própria convenção receberam as empresas com os braços abertos e têm animado sua participação”.

Sabido trabalha na organização Corporate Europe Observatory, que publicou um folheto denominado “Guia da COP 19 sobre o lobby empresarial: delinquentes climáticos e cumplicidade do Governo polonês”. Algumas das grandes empresas presentes nessa COP 19, afirma Sabido, são “General Motors, conhecida por financiar grupos de investigação que negam a mudança climática, como o Heartland Institute, dos Estados Unidos; e está também a BMW, que está fazendo coisas similares na Europa, em uma tentativa de debilitar as normas sobre emissões. O logo de LOTOS Group, a segunda principal empresa petroleira polonesa, aparece nas 11.000 bolsas entregues aos delegados.

A Polônia, cuja principal fonte de energia é o carvão, organizou uma conferência paralela juntamente com a Associação Mundial do Carvão, denominada Cúpula Internacional do Carvão e do Clima. A Secretária Executiva da COP 19, Christina Figueres, provocou a ira de muitos ativistas pelo clima ao pronunciar o discurso de inauguração da conferência da indústria do carvão. Fora da cúpula, os ativistas do Greenpeace colocaram, na fachada do Ministério da Economia, um grande cartaz com as cores da bandeira polonesa, onde se lê: “Quem manda na Polônia: a indústria do carvão ou as pessoas?”. No teto do edifício, outros ativistas colocaram um cartaz com a legenda: “Quem manda no mundo: a indústria dos combustíveis fósseis ou as pessoas?”. Enquanto isso, na praça, centenas de pessoas se manifestavam contra o carvão em uma procissão denominada “Cough 4 Coal” (Tosse pelo carvão), na qual haviam dois grandes pulmões infláveis que representavam os efeitos nocivos do carvão na atmosfera e na saúde humana.

Enquanto no Estádio Nacional as negociações iam se diluindo, os ativistas gritavam em uníssono: “Onde está o financiamento?”. Os países ricos prometeram oferecer apoio financeiro aos países em desenvolvimento para que realizem a transição para fontes de energia renováveis (mitigação) e para que possam enfrentar os efeitos da mudança climática (adaptação). A Oxfam calcula que, até o momento, esse fundo arrecadou somente 7,6 bilhões de dólares, muito abaixo da cifra prometida, de entre 30 bilhões e 100 bilhões de dólares. Não se trata de caridade, os contaminadores devem pagar. Falei com o principal negociador sobre mudança climática das Filipinas, Yeb Saño, no nono dia de sua greve de fome, que começou no dia da inauguração da COP 19.

Saño me disse: “Os Estados Unidos, que são os responsáveis por pelo menos 25% das emissões totais, têm uma grande responsabilidade moral de combater a mudança climática, não só em âmbito nacional, mas também de oferecer apoio aos países em desenvolvimento”.

A destruição causada pelo tufão Haiyan é uma crua tela de fundo das negociações em Varsóvia. Yeb Saño ficou sabendo que seu irmão sobreviveu ao tufão ao vê-lo nas notícias enquanto ajudava a juntar os corpos dos mortos. A ciência é clara: se as temperaturas continuarem aumentando, os eventos climáticos extremos vão se tornar cada vez mais frequentes e mais mortais.

Após Saño anunciar, em um emotivo discurso durante a sessão plenária da convenção que havia decidido começar uma greve de fome, vários estudantes marcharam em silêncio junto a ele enquanto saía da sala. Levavam um cartaz em homenagem aos mortos nas Filipinas. Como consequência de seu ato espontâneo de solidariedade, foram proibidos de assistir às negociações sobre mudança climática durante um ano. Uma estudante que participou na ação, Clémence Hutin, de Paris, me disse: “Para mim, a Cúpula sobre mudança Climática é um espaço democrático. Não entendo porque a sociedade civil não é bem vinda na convenção; porém, as empresas são!”.

Fonte: Diário Liberdade

Deixe uma resposta