O Poder da Fé, por Guigo Ribeiro

Imagem: Reprodução

No coletivo que atravessa a avenida logo na primeira hora útil da madrugada, alguns sonolentos aproveitam os instantes antes de mais um dia de trabalho. São poucos, apesar de muitos visto o horário. Uns se encolhem no banco em luta desleal com o frio. Outros passam os olhos por telas. Todavia, ninguém conversa. O silêncio é prece esta hora. E lá vai o coletivo pela avenida. Em uma parada, abre as portas para um rapaz de pouca idade. O rapaz é o oposto daqueles que lá estão. Senta, levanta, senta de novo, fica em pé e tem dificuldade de encontrar um lugar. São poucos no coletivo e desses poucos, menos ainda o observam. E menos ainda formulam algo sobre ele. A viagem segue para dois pontos depois parar de vez:

– Breca o busão! Breca o busão! Breca porque o bagulho vai ficar louco. – o rapaz
gritando e mexendo na cintura.

Eis o começo do caos.
Os demais presentes demoram o tempo que se demora perceber o que foge do natural. Dada assimilação, o caos, conforme dito. Uns levam as mãos para a cabeça sem ordem. Outros, em falas soltas pedindo calma. No fundo, um sujeito alto e armado de uma
bíblia garante:

– Jesus está no controle, menino! E nada te acontece! Faça o que precisa ser feito e siga seu caminho que Deus tem uma vitória pra você.

O rapaz vacila por um instante, mas sustenta o que começou.

– Cobrador… se adianta. Dá o dinheiro. E fecha essa porra de porta porque mato todo mundo que não obedecer. Tô aqui porque tá foda. Tá foda!

O sujeito alto ganha reforço de um sujeito menor, mas também armado com um novo
testamento com o cartucho cheio:

– Rapaz… pega o dinheiro e vá! Você tem muita vida pela frente. Não vai se estrepar.

Os demais passageiros têm reações diversas. Uns se despedem dos parentes. Outros estão em estado de choque. Uma senhora e um rapaz choram muito. Choram o
desespero.

– Rapaz… que que precisa? – pergunta o sujeito alto.
– Deus vai te ajudar! – quase responde o sujeito menor.
– Quero paz! Quero viver num lugar que tenha paz. Sem que gritem em minhas orelhas
em cada esquina. – chorando o rapaz.

O coletivo segue parado e, parado numa via que ordena movimento, causa estranhamento. Em despedidas e afins, ninguém chamou a polícia. E olha que até selfie teve, mas nada do 190. Não dentro do coletivo. Fora sim. E choveu de polícia, imprensa e helicópteros. O rapaz percebe e fica mais agitado. Leva mais as mãos na cintura, mas ainda sem apresentar o que tem guardado. Um terceiro sujeito se coloca:

– Meu coração precisa falar algo pra você. Semana passada você viu. O rapaz morreu numa dessa. Tenho medo que te aconteça o mesmo. Esquece isso, rapaz. – de forma
calma.

Coletivo cercado, um homem da lei se posiciona como homem da lei. Começa a
entrevista e muda o tom durante. Estava sorrindo. Olha que cagada:

– Meu riso é o riso da certeza de resolução. O coletivo está cercado e trabalharemos pra breve resolução do caso. Temos ordem pra matar o sequestrador, mas só faremos isso
quando tiver pressão popular. E mais pessoas assistindo. Nosso sniper ensaiou uma nova comemoração.

Repórter:

– Sabe quantos reféns?

O homem da lei coça a cabeça e diz:

– Nosso sniper ainda não passou a informação.

Isso no instante em que os que choravam foram liberados. Restaram o sujeito alto, o sujeito menor e o terceiro sujeito, além de um estudante, uma senhora abalada, motorista, cobrador e um cara. Estes últimos também foram liberados. O estudante saiu gritando “caveiraaaaaaaaaaa”, a senhora seguiu abalada, o motorista e o cobrador beberam água e o outro cara saiu pedindo uma oportunidade para o sniper.

– Veja, rapaz. Ficaram nós 4. Pense nisso. Não queremos morrer. Também não queremos que você morra. Tem gente olhando por sua vida lá fora. Repensa.

E tinha mesmo. Por mais audiência, mas com a premissa de ajudar na negociação, chamaram a mãe do rapaz. Ele a viu. Ambos choraram e este foi o começo do fim.

– Minha mãe sabe que tenho problemas. Vou me entregar. Vou me entregar!

O sujeito alto garantiu:

– Faça isso! Entregue isso. Você vai se tratar e ser feliz. Vá na minha igreja quando
estiver bem. Vai ser um lindo testemunho. Esse é o poder da fé!

Também os outros dois.

– Na minha também. Vamos orar por você. – o sujeito menor.
– Viu? Todos te amam e te querem bem. – o terceiro sujeito.

O rapaz mexeu na cintura e tirou uma faca.

– Chega! Me perdoem. – jogando o troço para fora do coletivo.

O sujeito maior abriu os braços em convite para um abraço e o rapaz, chorando como
criança no escuro, foi em sua direção. Os três sujeitos riram. O sujeito menor correu e
fechou a porta do coletivo e começaram o espancamento. Socos, chutes. Batiam a
cabeça do rapaz na quina dos bancos. Passavam seu sangue no vidro. O homem da lei viu, riu e acendeu um cigarro. As emissoras presentes sentiram prazer no investimento dos equipamentos novos e a potência presente no zoom. E a porrada comendo solta no coletivo. Batiam. Batiam. E usaram a faca que antes pensavam que seria usada contra
eles. Era um banho de sangue. 5 minutos após, o rapaz estava morto. O sujeito alto saiu
acenando para a plateia. O sujeito menor levando a bíblia ao alto e o terceiro sujeito
erguendo a cabeça do rapaz como um troféu. Foram comovidamente aplaudidos. E agradeceram. Os repórteres perguntaram seus nomes e os presentes fizeram coro para cada um deles, que sorriam em gratidão. O sujeito foi convencido a entregar a cabeça do rapaz e esta foi colocada numa sacola e entregue nas mãos do governador que ficou feliz. Fazia coleção.

– Obrigado, cidadão. Deus o abençoe.
– Amém! Paz na terra e justiça sempre.

Na comemoração, foram convidados para um link ao vivo. Repórter:

– Qual é a sensação de serem heróis?

Antes que pudessem responder, um dos libertados do coletivo tomou o microfone da
mão do repórter e gritou em fúria:

– Caveiraaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa!!!

Guigo Ribeiro é ator, músico e escritor, autor do livro “O Dia e o Dia Que o Mundo Acabou”, disponível em Edfross.

A opinião do/a autor/a não necessariamente representa a opinião de Desacato.info.

#AOutraReflexão

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